Father Ted e amigosFaz pouco tempo, o católico Reinaldo Azevedo manifestou-se, surpreendentemente,
contra o celibato dos padres católicos. Não vou entrar agora na questão, embora seja verdade que o costume foi instituído séculos após o início do cristianismo, e que na Igreja Ortodoxa, de tradição anterior à Católica, os padres podem casar. Isso sem falar em pastores protestantes, rabinos, imams e quetais, todos
casamentáveis.
Porém, essa questão da pedofilia na Igreja Católica está dando o que falar.
É verdade que oitenta e tantos por cento dos
abusados eram garotos do sexo masculino, pós-púberes, entre 11 e 17 anos, e trinta por cento destes tinham entre 15 e 17. (Pedofilia,
strictu sensu, é com menores de ambos os sexos que ainda não atingiram a puberdade.
Lolita tinha 12.). Não que isso torne o crime menor ou menos repreensível, mas causa uma discussão interessante. Se a maioria das vítimas são adolescentes ou pré-adolescentes do sexo masculino, o que está ocorrendo é, acho, uma coisa que pouco tem a ver com o celibato em si.
Ora, se você é um heterossexual celibatário continuará - imagino eu - tendo desejos por mulheres. De fato, os padres nunca foram santos.
Bocaccio, no Decameron, conta dezenas de histórias de padres e freiras fornicando por aí. Alguém condenado ao celibato poderia tomar uma amante, ou prostitutas, ou até abandonar o sacerdócio e casar. Por que escolher garotos? A resposta é simples. Esses padres são gays. Sentem atração por homens, isto é, garotos. Eram gays antes de entrar na Igreja, e continuaram sendo depois.
O problema é que aí entra-se numa cilada. Os gays, que criticam a Igreja católica, poderão criticar os padres por serem gays? Quando, anos atrás, a Igreja Católica tentou verificar e impedir a entrada de seminaristas com possíveis tendências homossexuais nos seminários, houve gritos dos grupos gays.
Admitir padres gays seria uma solução, ou aumentaria o problema? E permitir o casamento, resolveria? Não esqueçamos que grande parte dos pedófilos (e homossexuais) são casados, com filhos. Isso não lhes impede de continuar procurando garotinhos/as, ou até de abusar dos próprios filhos e sobrinhos.
Outros argumentam que a culpa é sim do celibato, e que os padres não eram necessariamente pedófilos ou homossexuais, mas atacaram meninos apenas porque é o que tinham mais à mão. Mas, nesse caso, por que não contratar uma prostituta, ou até um michê, como nobremente fez o padre
Sir Lancelott?
Vivemos em uma época esquizofrênica. Por um lado, as crianças e adolescentes são bombardeados com sons e imagens explicitamente sexuais, da dança da vassoura à suposta arte moderna. Por outro lado, o mesmo mundo horroriza-se quando essas mesmas crianças erotizadas passam a interagir com adultos no mundo real.
Claro que o sexo de adultos com crianças pré-adolescentes é uma aberração, e seus praticantes deveriam ser imediatamente castrados a facão (de preferência, enferrujado e sem fio). Ou então se deveria fazer
como fez este pai aqui.
O problema é que a suspeita de pedofilia contaminou tudo. Mesmo os contatos mais inocentes, como por exemplo tirar fotos de crianças em um parque, hoje são vistos com extrema suspeita. Nos EUA, mesmo encostar em uma criança alheia por acidente pode dar problema. Li que há alguns anos, um menino de 9 anos foi atropelado, e nenhum adulto aproximou-se para ajudar - por medo de serem acusados de pedofilia!
O curioso é que, há meros séculos atrás, garotas de apenas 13 anos já casavam, ainda que tivessem que ter a permissão dos pais. No Sul dos EUA, esse costume durou até poucas décadas atrás. Edgar Allan Poe casou com uma prima de 13 anos. Jerry Lee Lewis, idem. (E Woody Allen casou com a filha adotiva, embora isso nada tenha a ver com a história.)
Hoje, ao contrário, tanto homens quanto mulheres casam muito mais tarde, portanto exigir celibato pré-nupcial é algo muito difícil, que ocorre apenas com pessoas muito religiosas. E, mesmo assim, nem sempre.
O que é diferente é que, hoje, quase todas as aberrações sexuais são vistas como normais, e até mesmo celebradas. A única exceção, o último tabu, é a pedofilia. (Até incesto, se feito por maiores vacinados, já é
aceito por alguns.)
Será que essa atmosfera de liberação geral, e essa erotização precoce das crianças, não contribui para os desvios sexuais de nossa era? Por exemplo, a questão da "troca de sexo". Sempre me pareceu que isso era uma anomalia, uma
aberração. Quer dizer, genéticamente, você tem seu sexo determinado antes mesmo do nascimento. "Sentir-se mulher num corpo de homem" é um problema, mas, em vez de modificar o corpo (com uma cirurgia que tudo o que dá é a
aparência de um outro sexo, mas não a
essência), não seria mais fácil modificar os pensamentos? (Não esquecendo que os transexuais tornam-se estéreis após a operação, e podem ter toda uma série de problemas físicos).
Porém, hoje em dia, trocar de sexo é um "direito", muitas vezes até pago pelo contribuinte. Na Austrália, um garoto de 15 anos teve o direito de transformar-se em garota, mesmo contra a ordem expressa dos pais. Na Alemanha, com 12 anos, um menino iniciou o procedimento para virar menina (hoje tem 16 e já é uma "mulher", ainda que não possa menstruar, e jamais terá filhos). Nos EUA, os pais de um garoto decidiram criar seu
filho de 8 anos como uma menina, pois ele assim pediu.
É tudo uma loucura.
Mas qual a solução?
Acabar com o celibato não vai, provavelmente, resolver todos esses problemas. O furo, com perdão do trocadilho, é mais embaixo.
(*) Por outro lado, o poeta Rainer Maria Rilke foi criado como menina na sua infância, e depois parece ter tido uma vida normal, sem qualquer troca de sexo, que aliás não existia na época.
Sem trocadilhos, por favor.