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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tristes pressentimentos do que há de acontecer

Ao mesmo tempo em que afro-caribenhos e chavs da welfare class incendiavam e saqueavam Londres, no Chile estudantes majoritariamente brancos de classe média e alta enfrentavam a polícia e também quebravam vidraças. Queriam educação universitária para todos: "pública, gratuita e de qualidade". Bem, universidade custa caro. De qualidade, mais ainda. E "todos" são muita gente. Quem vai pagar? Essa pergunta, curiosamente, ninguém fazia.

Hoje em dia, todos querem tudo de graça. Pior: todos acham que tem "direito" a ter tudo de graça, na mão, e pra já. Tanto os saqueadores londrinos quanto os estudantes chilenos certamente achavam que tinham toda razão em agir como agiram. Afinal, se roubaram um iPhone foi porque foram "injustiçados na distribuição de riquezas", se educação e saúde custam caro é porque o capitalismo é malvado.

Quanto mais benefícios o Estado dá, mais se quer. Quanto mais os países se endividam e precisam cortar gastos, mais a população protesta, e mais o Estado gasta em contrapartida. A dívida? Que importa! Esse é um problema para as futuras gerações...

Os mesmos progressistas americanos e europeus que dizem ser a favor da ecologia e da redução do aquecimento global são a favor da imigração de terceiro-mundistas que aumentarão seu padrão de consumo e portanto a queima de carbono, além de terem sete filhos e fazerem aumentar as cidades e diminuir os espaços naturais. Os mesmos que acreditam em "igualdade social" fazem o mais que podem para tornar as sociedades cada vez mais desiguais, em nome da diversidade. 

Recentemente vi uma exibição das gravuras de Goya. São imagens terríveis de guerra e violência. Não há conflito racial aqui: são franceses contra espanhóis, ou espanhóis contra os considerados hereges de seu próprio país. Todos brancos. Mesmo o maior apologista das "glórias da raça branca" há de convir que são cenas terríveis. De minha parte, vendo as gravuras vem me à mente uma observação de Mark Twain: "Não tenho preconceito de raça, cor, casta ou credo. Tudo o que preciso saber é que alguém é um ser humano -- isso é suficiente para mim, não se pode ser algo pior."

A questão é que, com a balcanização da Europa em linhas étnicas ou religiosas, esses conflitos tendem apenas a aumentar. Se membros de uma mesma etnia e religião lutam entre si, o que dizer de etnias ou religiões diferentes? Alguns acreditam que no futuro haverá integração e assimilação. Mas quem se asimilará a quem? Os muçulmanos ao secularismo, ou os pós-cristãos ao Islã?

Outros afirmam mesmo que com a mistura de raças e culturas em um "melting pot" geral os conflitos terminarão. (Na Europa, e especialmente na França, há cada vez mais casamentos inter-étnicos, de brancas e brancos com árabes ou africanos.) Lamentavelmente, parece-me uma utopia digna do "Imagine" do John Lennon (está tocando agora no café em que escrevo). O Brasil é o país mais miscigenado do mundo e, se (por ora?) temos menos conflitos abertamente raciais do que nos EUA, por outro lado, não quer dizer que não haja preconceito dos mais claros contra os mais escuros e vice-versa, e conflitos não faltam: temos 50 mil assassinatos por ano…

Uma das gravuras de Goya, reproduzida abaixo, chama-se "Tristes presentimientos de lo que ha de acontecer". Goya era pessimista quanto à humanidade. Acreditou no iluminismo francês e em seus valores de liberté, egalité e fraternité. Queria que os franceses trouxessem tais idéias à Espanha, que ele considerava bárbara, atrasada e supersticiosa. Porém, quando as tropas de Napoleão invadiram o país, Goya horrorizou-se com as atrocidades cometidas em nome da liberdade, muitas delas retratadas em seus desenhos.

Da mesma forma, o mundo de hoje não dá muita margem para o otimismo. A maioria das pessoas tem ideais utópicos e contraditórios entre si. Acreditam em paz global, igualdade total, harmonia entre os povos, fadas e unicórnios. A decepção será grande. E algum novo Goya talvez pinte os futuros desastres que ocorrerão.



sexta-feira, 25 de março de 2011

A fúria das elites

Leio no New York Times a notícia sobre um artista da moda. Sua última obra consiste em um monte de sal, ao redor do qual ele passa oito horas por dia arrastando-se de joelhos. O objetivo, segundo a descrição, tem a ver com a "paz no mundo". Não se sabe como ele vai obter a paz do mundo dessa forma, mas talvez imagine que os líderes mundiais fiquem comovidos e parem de guerrear entre si. Ou talvez seja uma forma de autopenitência pela sua própria imbecilidade: o artista pune a si mesmo por degradar a arte ocidental. A performance é ao mesmo tempo uma crítica da própria performance. Genial!

Se você achou essa "obra de arte" ridícula, é apenas por que não conhece as obras anteriores desse Sakamoto das artes plásticas. Segundo a reportagem, o artista:

"[e]specializa-se em instalações brancas envolvendo chocolate branco, açúcar e seu próprio sêmen. Suas esculturas já incluíram seus próprios excrementos folheados a ouro".

Quem gosta de freqüentar galerias de arte moderna é a elite e a classe média aspirante a sofisticada, não o povão nem a classe média trabalhadora. O fato de que esse artista que expõe o próprio cocô seja promovido e consumido pelas atuais elites ocidentais demonstra que há algo de malcheiroso no reino da Dinamarca, e dos EUA também. 

Não sei se vocês seguem o meu raciocínio. A cultura popular, quem nega, degradou-se. Os ritmos da moda são o funk e o rap, que promovem a sexualidade irrestrita e a violência. Quem acha que isso não se traduz em violência real, que assista à recente premiação do DMV Awards, onde a negadinha do rap botou pra quebrar - literalmente. Ou comparem as letras do funk com as letras do Cartola.

De forma simétrica, também a alta cultura, que antes produzia Michelangelos e Velásquez, hoje tornou-se uma mera busca inútil do choque e do niilismo mais gritante. Mas a classe alta o consome como se fosse caviar.

Ora, a função da elite ao longo da história era dar o bom exemplo para o povaréu. Hoje, é o contrário. O mau exemplo começa de cima.

A elite quer sexo, drogas e roquenroll. A elite é socialista. A elite promove cirurgia plástica, anorexia, tatuagem, amputações sexuais e modificações corporais. A elite é a favor de complicados e caros programas de engenharia social.

Sobre este último ponto, alguns comentários. Sim, a elite política, financeira e cultural é quem investe pesadamente em experimentos sociais, mas quem paga o preço final disso é a classe média e os pobres -- as cobaias do experimento. Isolada das conseqüências de seus atos, a elite não se dá conta ou não se importa com os problemas que cria e cujo custo é pago pela população. Pago no sentido figurado, mas também no literal, já que é a classe média que com os impostos financia a sua própria destruição.

A arte moderna, afinal, é apenas um detalhe. Mais preocupantes são as políticas de substituição populacional através da imigração massiva, a procura da extinção das diferenças entre os sexos através da promoção do "transgênero" e do casamento gay, o coitadismo com os criminosos que só gera mais crime e violência, a incessante busca de uma "igualdade geral de resultados" ou de uma "sociedade justa" que é impossível e que só gera desgaste. 

Na Austrália, por exemplo, existe uma "Secretaria de Divisão Equitativa do Trabalho", que se dedica a fiscalizar quantas mulheres e minorias trabalham em cada empresa e multar aquelas que ficam abaixo da cota. Recentemente, ganhou mais 12 milhões anuais para esa tarefa inútil. Hoje eles contam quantas mulheres são empregadas, amanhã contarão quantos travestis. Aqui nos EUA, toda instituição governamental, educacional ou mesmo privada tem uma "Divisão de Diversidade", bem como uma "Secretaria de Prevenção do Assédio Sexual", outra absurda mania americana.

Você já parou para pensar quanto dinheiro é gasto nessas loucuras politicamente corretas?

Em época de crise, tanto dinheiro é gasto em algo perfeitamente inútil e mesmo contra-producente, que só gera mais conflitos. É cocô folheado a ouro, como o do nosso artista.

Muitos conhecem os vários romances e textos de Alexander Solyenitzin criticando o comunismo soviético, do qual foi uma das mais famosas vítimas. Menos conhecido é o seu discurso em Harvard apontando as falhas do Ocidente, já em 1978 apontando alguns problemas que hoje só aumentaram. 

Talvez pareça que com este texto estou dando uma de petralha e colocando toda a culpa "na zelite". Não é bem isso. Acredito apenas que as elites ocidentais dos dias de hoje não estão cumprindo o seu dever de desenvolver o país, liderar, ensinar e formar. Não sei se é insanidade temporária, não sei se é tentativa de suicídio devido à "culpa branca", não sei se é devido à perda dos valores morais tradicionais, não sei se é culpa da falta de uma formação cultural elevada (os novos ricos são muitas vezes profundamente ignorantes), não sei se é desejo megalomaníaco de mudar o mundo por alguns bilionário, não sei se é apenas tudo por dinheiro ou se é alguma macabra conspiração global que inclui o "Clube Bilderberg" e o "projeto eurasiano". Não sei de nada. Só sei que ultimamente, por via das dúvidas, prefiro ficar longe das galerias de arte moderna.

"Está ouvindo este som, Gafanhoto? É o som da civilização implodindo, incapaz de suportar seu próprio peso!"


Se a mídia diz que é bom, deve ser bom.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Beleza, Verdade e Seios de Silicone

And now for something completely different. Para descontrair e evitar as costumeiras polêmicas aqui no blog, apresento um tema sem qualquer relevância política: os seios de silicone. Você gosta de seios de silicone?

Faz algum tempo um articulista britânico, falando genericamente em nome dos homens, afirmou que os seios de silicone não são nada sexy. Concordo com ele, muito embora imagine que alguns homens gostem, ou não haveria tantas mulheres se siliconando por aí.

O artigo em si não é grande coisa, mas as fotos que o acompanham são hilariantes. Nunca entendi bem essa opção estética, afinal é bastante fácil ver quais seios são reais e quais não. Demasiado arredondados, demasiado erguidos e demasiado afastados um do outro, são seios de desenho animado, não seios reais.

É também curioso que a estética dos seios de silicone se junte à estética da magreza anoréxica tão comum nas passarelas. Ora, os seios estão diretamente relacionados com o volume (para não dizer gordura) da pessoa, portanto seios enormes em uma pessoa magérrima chamam a atenção e parecem antinaturais.

Mas não estaremos vivendo uma época que valoriza justamente a estética antinatural? Piercings e tatuagens também são modificações corporais que são utilizadas por número cada vez maior de pessoas, para não falarmos em modificações mais extremas como a "troca de sexo" ou o implante de chifres. Eis a triste história de uma garota que colocou dezenas de tatuagens no rosto, e eis o seu tatuador. Seios artificiais de silicone não deixam de ser outro tipo de modificação corporal que se soma à crescente tentativa de modificar a biologia humana, ou ao menos a sua estética natural.

(E, entanto, não há nada de novo sob o sol: o que hoje chamamos de piercings e tatoos ja eram utilizados de forma pouco diversa há milhares de anos atrás pelos indígenas, quem sabe até pelos cavernícolas, e tal retorno a esses adornos corporais poderia constituir, longe de ser uma modernidade, um retorno ao primitivismo. Hoje as mulheres ocidentais aumentam seus seios, mas não há uma tribo cujas mulheres aumentam o tamanho do pescoço? As chinesas não diminuíam o tamanho de seus pés? É, não há nada de novo sob o sol.)

Tudo, no entanto, talvez faça parte de uma discussão mais ampla. O filósofo Roger Scruton, em recente artigo que pode ser lido em português aqui, falou sobre a importância da beleza e como a estamos perdendo. Seu texto é principalmente sobre a feiúra da arte moderna, que devido, segundo ele, principalmente à perda da religião (ou mais bem do cristianismo), teria perdido a espiritualidade e portanto o ideal de beleza. Porém, tanto no artigo quanto no vídeo que acompanha, um dos argumentos mais interessantes do filósofo é que a própria vida moderna estaria perdendo a sua beleza. Não são apenas as artes plásticas: a horrenda arquitetura moderna de Niemeyers (o comunista plagiador) e Corbusiers, o modo de vestir e até o de se comportar, tudo estaria perdendo a sua elegância. 

Não é preciso ser cristão (e muito menos ter lido o artigo sobre os quatro estágios do niilismo do Frei Serafim Rose) para observar que vivemos em um mundo cada vez mais dominado pelo niilismo, pela crença de nada importa, e de que a missão do artista é apenas a de chocar e confundir. Se acreditamos que existe uma Verdade, uma Ordem Natural, podemos então passar a acreditar que existe uma Beleza (Beauty is truth, truth beauty,—that is all ye know on earth, and all ye need to know); se não acreditamos, fica fácil pensarmos que nem mesmo a arte tenha qualquer objetivo. 

Poucos leitores deste blog parecem estar interessados na questão da arte moderna, e, no entanto, esta parece-me às vezes um dos sintomas mais claros da decadência do mundo ocidental. Às vezes fico imaginando que, daqui a milhares de anos, alguns arqueólogos desenterrarão os artefatos artísticos do século XXI, e ficarão perplexos ante a visão de uma sociedade que aparentemente odiava e desprezava a si mesma, e que não podia sequer conceber a Beleza, tanto que suas próprias mulheres já não sabiam mais o que esta era, e se enfeitavam inflando artificialmente os seios e lábios de forma grotesca e antinatural.

domingo, 10 de outubro de 2010

O fim da era do escândalo

Após a propaganda ecológica tiro-no-pé dos britânicos, vi agora uma outra propaganda supostamente chocante, esta contra a obesidade. A propaganda, de novo apostando na linguagem do choque, compara o ato de injetar heroína com o ato de comer um hambúrguer. É uma das propagandas mais idiotas de todos os tempos, até porque os atores são magros, bonito e saudáveis. A junk food não deveria fazer mal?

Sempre tive dúvidas se essas propagandas enfatizando imagens fortes ou grotescas funcionam. São especialmente comuns em campanhas públicas contra as drogas, a AIDS ou o aquecimento global. Jamais vi algum estudo comprovando que tivessem algum efeito; na minha opinião, o seu efeito provavelmente é exatamente o contrário. Por exemplo, após ver a propaganda acima, fiquei com vontade de comer um hambúrguer, coisa que não faço há muito tempo.

No mundo da suposta "arte" moderna, ocorre a mesma coisa. Há tempos que a única linguagem que os "artistas" parecem entender é a do escândalo. E, no entanto, o público cada vez menos se interessa por esse tipo de arte. Na Bienal de São Paulo, que está ocorrendo agora, o escândalo da vez foi uma obra com urubus, que terminaram tendo sido retirados por ordem do IBAMA. A maioria dos comentários nas notícias é de críticas veementes ao artista.

Na boa: a arte moderna com suas instalações e seus ready-mades e seus épater la bourgeousie já encheu. Duchamp enviou seu urinol para o concurso há 93 anos, acredite. Quase um século! E os artistas de hoje continuam repetindo o mesmo velho truque. Chega! Cansou!

A melhor performance artística ocorrida recentemente foi quando uma faxineira, por engano, jogou fora uma das peças da coleção de uma galeria de arte moderna, achando que fosse lixo. De fato, era. Seu erro foi não ter jogado fora o restante das obras do local. É importante reciclar.

E no mundo pop? Pior ainda. É quase engraçado ver imbecis como Lady Gaga e similares tentando tudo o que podem para chocar um público bocejante, completamente anestetizado, sem conseguir. Who cares?

Escandalizada ficava a sua avó. Hoje, o suposto escândalo só causa tédio. Ou, curiosamente, é o anti-politicamente correto a única coisa que, hoje, consegue escandalizar. Que tal este comercial dos Flinstones fumando e sendo abertamente "sexista"? Hoje em dia, jamais poderia ser feito, pois de fato chocaria as sensibilidades modernas, que odeiam cigarro e qualquer coisa que indique que não somos todos iguais.


terça-feira, 25 de maio de 2010

Quem é Maomé?

Uma das coisas curiosas sobre a fúria dos muçulmanos com os cartunistas é que ninguém sabe como era realmente o rosto do profeta islâmico. Então as supostas "imagens blasfemas" só o são quando alguém identifica um certo desenho como sendo "Maomé". Afinal, homens com turbante há milhares por aí.

Jesus, ainda que tampouco se saiba como ele era realmente, possui uma iconografia histórica criada ao longo dos séculos, sendo facilmente identificável. Não é o caso de Maomé, justamente em razão da proibição (muito embora tenham sim existido gravuras de Maomé feitas por muçulmanos - ver algumas aqui no Mohammed Image Archive). 

Toda essa discussão lembrou-me da velha confeitaria Maomé, de Porto Alegre: terão que trocar de nome? Ainda por cima o slogan é "doces bárbaros", insuniando que Maomé seria um "bárbaro". Ou um urso:



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O artista enquanto estuprador

Sobre o caso Polanski, todos já estão carecas de saber. Porém eu não sabia que também William Golding, autor de "O Senhor das Moscas", foi acusado de tentar estuprar uma garota de 15 anos, embora pareça não ter passado de uma tentativa inocente quando ele próprio tinha apenas 18. (Depois, de fato, ambos viraram namorados e dedicaram-se a transar em parques enquanto o pai de Golding (!) observava a cena com binóculos.)

Arthur Koestler, autor de "Darkness at Noon", também parece ter estuprado sua cota de mulheres. E, segundo este artigo, também eram estupradores Jack London e Geoffrey Chaucer. Poe não estuprou ninguém, mas era alcoólatra e casou com uma menininha de 13, o que hoje, fora das terras de Maomé, seria chamado de pedofilia.

O clichê do artista pervertido é um velho mito, mas será que é mesmo realidade?

Afinal, proporcionalmente, há provavelmente muitos mais artistas que não dedicaram-se ao crime ou à sacanagem explícita do que aqueles que o fizeram. No entanto, o mito persiste.

Talvez a figura do artista maldito, da associação da arte com o crime, a imoralidade ou a loucura seja algo relativamente recente, fruto do período romântico e, posteriormente, das destrutivas vanguardas do início do século.

E o que ocorre hoje em dia é que - definitivamente enterrado o conceito de "beleza" - já não é mais possível distinguir, em muitos casos, a arte da psicose. Artistas que utilizam o próprio sangue para fazer esculturas; artistas que mergulham um crucifixo em urina e chamam de arte; artistas que exibem a própria cama suja em uma galeria e chamam de arte; artistas que enforcam manequins de crianças e chamam de arte; e mesmo um artista que deixa um cachorro morrer de fome em uma galeria e o chama de - o que mais? - arte.

Sob essa perspectiva delirante, o próprio estupro poderia ser considerado uma forma de arte performática. Se para o músico pós-modernista Karlheinz Stockhausen os atentados de 11 de setembro foram "a maior obra de arte jamais criada", então o ato radical de Polanski poderia ser considerado sua obra maior, uma exploração das profundezas tenebrosas da maldade humana mais potente do que "O bebê de Rosemary" e "Chinatown" juntos.

Felizmente, o culto da arte niilista parece estar com seus dias contados. Hollywood está em crise, é não apenas devido à concorrência com Netflix e The Pirate Bay: o pessoal realmente está pouco interessado. As artes plásticas? Bem, faz alguns anos toda uma coleção de arte britânica dos anos 90 pegou fogo, e a resposta do público foi de júbilo. E nem falemos da arquitetura moderna e seus estupros visuais, desprezada por quase todas as pessoas de bem.

Tenho para mim que um dia retornaremos à Beleza como paradigma, e que a Grande Arte de novo renascerá. Mas para isso talvez seja necessária uma profunda reorganização social e política, e o abandono do culto ao niilismo, que é talvez o mal das últimas décadas, e do qual a questão artística é apenas uma de várias manifestações.


Atualização: A obra que ilustra o post é uma gravura de Otto Dix, considerada "arte degenerada" pelos nazistas. Ou seja, estou ciente da ambiguidade em imaginar ou desejar alguma arte supostamente "melhor" ou "mais pura". (Na verdade, gosto de Otto Dix). Também os comunistas quiseram impedir certos tipos de arte e instituir outros, mas o "realismo socialista" é responsável por algumas das imagens mais horrendas deste século, inclusive o edifício do "estupro visual" acima, erigido na Coréia do Norte. A questão não é desejar que a arte seja apenas beleza clássica ou que os artistas sejam todos santinhos; mas, se a arte é sempre um espelho do mundo (nos dizeres de Hamlet), então a arte de hoje em dia diz muito sobre a nossa sociedade. Bem como a tolerância com certos artistas transgressores. A arte niilista reflete uma sociedade niilista, que não sabe mais quais são seus valores.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cultura de castas

Leio em um recente artigo de Theodore Dalrymple uma interessante observação sobre como o relativismo moral e estético (tudo é igual a tudo, nada vale mais do que nada), longe de criar mobilidade, tende a manter os ignorantes na ignorância, os pobres na pobreza e os oprimidos na opressão. Nivela-se tudo por baixo. Se tudo é igual, pra que evoluir? Infla-se apenas o ego daquele que está mais abaixo de todos: dessa forma, ele continua abaixo, tudo o que muda - talvez - é a sua autoestima. Diz Theodore:

To suggest that a basketball player can be compared with Mozart is to put all human activities on the same level; and since some activities come easier and more naturally than others, it has the effect of reducing, indeed making quite pointless, any form of cultural aspiration. If what comes easily is as good as what comes only with deep effort, thought and intelligence, why go to any trouble? There is a Gresham’s law of culture: without a scale of values, the bad will always drive out the good.
Thus the intelligent flatter the unintelligent, without, in their hearts, meaning a word of what they say. What seems at first sight progressive is in fact deeply reactionary, in the worst possible sense: it does not permit or encourage social ascent, and changes class societies (such as capitalist democracies have always been) into caste societies.

Como não lembrar do Brasil, onde jogadores de futebol são vez por outra considerados "gênios"? Nada contra certos jogadores de futebol que foram ou são brilhantes, mas parece-me notar sempre uma certa condescendência, uma tentativa de compensar a sua falta de cultura com a genialidade em algum outro aspecto.

É como a celebração da "cultura da periferia" por certas almas nobres e caridosas da esquerda, que transformam o linguajar ignorante dos rappers dos guetos em alta poesia, ou a arte de vândalos grafiteiros em imagens de Boticcelli.

Não vejam aqui elitismo algum. Pessoalmente, a arte contemporânea, criada em sua maioria por uma elite social e cultural, cheia de referências pós-moderninhas, causa-me em geral apenas repulsa; e vejo em muitos casos maior valor em obras populares (e não esqueçamos, depois de tudo, que mesmo Shakespeare foi um plebeu autodidata e um autor popular - e até mesmo "comercial" - em sua época).

O que ocorre é que os parâmetros mudaram. Hoje, não havendo mais o que se considere uma "alta cultura" à qual aspirar, o pobre é incentivado a manter a sua (falta de) cultura, isto é, não tentar se elevar acima das suas possibilidades de berço. Machado de Assis, filho de mulato que ascendeu socialmente adquirindo de forma autodidata a cultura literária "européia, branca e patriarcal", hoje provavelmente seria um traficante, um jogador de futebol, ou quem sabe - estimulado pelo Ministério da Cultura - um rei das letras do funk carioca.

Futebol-arte.

domingo, 7 de junho de 2009

Poema do domingo

Ode on a Grecian urn

Thou still unravished bride of quietness,
Thou foster child of silence and slow time,
Sylvan historian, who canst thus express
A flowery tale more sweetly than our rhyme:
What leaf-fringed legend haunts about thy shape
Of deities or mortals, or of both,
In Tempe or the dales of Arcady?
What men or gods are these? What maidens loath?
What mad pursuit? What struggle to escape?
What pipes and timbrels? What wild ecstasy?

Heard melodies are sweet, but those unheard
Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;
Not to the sensual ear, but, more endeared,
Pipe to the spirit dities of no tone.
Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave
Thy song, nor ever can those trees be bare;
Bold Lover, never, never canst thou kiss,
Though winning near the goal---yet, do not grieve;
She cannot fade, though thou hast not thy bliss
Forever wilt thou love, and she be fair!

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed
Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;
And, happy melodist, unweari-ed,
Forever piping songs forever new;
More happy love! more happy, happy love!
Forever warm and still to be enjoyed,
Forever panting, and forever young;
All breathing human passion far above,
That leaves a heart high-sorrowful and cloyed,
A burning forehead, and a parching tongue.

Who are these coming to the sacrifice?
To what green altar, O mysterious priest,
Lead'st thou that heifer lowing at the skies,
And all her silken flanks with garlands dressed?
What little town by river or sea shore,
Or mountain-built with peaceful citadel,
Is emptied of this folk, this pious morn?
And, little town, thy streets for evermore
Will silent be; and not a soul to tell
Why thou art desolate, can e'er return.

O Attic shape! Fair attitude! with brede
Of marble men and maidens overwrought,
With forest branches and the trodden weed;
Thou, silent form, dost tease us out of thought
As doth eternity. Cold Pastoral!
When old age shall this generation waste,
Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say'st,
"Beauty is truth, truth beauty"---that is all
Ye know on earth, and all ye need to know.

John Keats (1795-1821)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Europa, Entropa

Já critiquei bastante aqui os artistas (pós) modernos, mas não dá para negar que o artista tcheco David Cerny tem, se não talento, ao menos senso de humor e um quê de coragem.

Convocado pela Repúplica Tcheca para realizar uma escultura em homenagem à União Européia, prometeu realizar uma obra coletiva chamada "Entropa", na qual um artista de cada país europeu realizaria uma parte do objeto. Na verdade, os nomes dos artistas eram todos falsos, bem como os seus currículos e suas declarações: Cerny realizou o projeto sozinho com a ajuda de dois amigos.

Mas isso é só o começo. Em vez de realizar uma obra politicamente correta celebrando a Europa e suas grandezas, fez uma escultura do mapa europeu na qual cada país é representado por um estereótipo diverso, um mais ofensivo do que o outro. A Dinamarca é representada por uma caricatura de Maomé feita de legos; a Holanda aparece inundada, somente as cúpulas das mesquitas aparecendo sob a água; a Bulgária é representada por um vaso de banheiro estilo turco (aparentemente uma referência ao período que o país esteve sob domínio otomano); a Romênia, como um parque temático em homenagem a Drácula; a França, um país em greve; a Alemanha, com uma rede de estradas que, em análise mais detalhado, parecem (segundo alguns) formar uma suástica.

Mau gosto? Talvez. Mas causou um choque e tanto nos políticos europeus. Se David Cerny não for degolado por algum fanático islâmico, talvez o seja por algum euro-burocrata...

Seja lá como for, a brincadeira custou 373 mil euros. Cerny prometeu devolver o dinheiro.

Bulgária: banheiro turco

Holanda: minaretes e inundação

Alemanha: suástica?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Por que cara, se feia? Por que feia, se cara?

"Se coxa, por que bonita? Se bonita, por que coxa?" perguntava-se Brás Cubas. A mesma pergunta nos fazemos nós ao observar muitos artefatos da arte moderna, na qual um urinol, uma tela branca ou uma vaca em formol podem custar milhões. Por que cara, se feia? Por que feia, se cara?

Theodore Dalrymple, em um belo novo ensaio, responde a essa misteriosa pergunta-tostines.

A resposta é que a arte de hoje é acima de tudo especulação financeira de um clube fechado no qual ninguém quer passar por otário.

Tomando como exemplo a recente exposição das obras de Jeff Koons em Versailles, Dalrymple observa que o principal objetivo da mostra é manter o alto preço dos trabalhos:

A mera exibição do trabalho em um lugar como Versailles serve para manter seu valor (monetário) alto, para evitar àqueles que investiram na obra o embaraço de não apenas serem descobertos como pessoas sem bom gosto, mas também - ainda pior nas circunstâncias - nenhuma capacidade de investimento financeiro.

Theo vai adiante e observa que hoje a arte não busca mais a "beleza" (aliás, esta é desprezada como algo burguês), mas sim "originalidade". Para a maioria dos artistas contemporâneos, a ênfase é em ser "original", ou seja, fazer algo que nunca tenha sido feito antes, e de preferência chocante e escandaloso, ao invés de fazer algo "bom". O artista Andrés Serrano expôs um crucifixo mergulhado em urina. De fato, ninguém antes havia feito isso: é "original". Mas é arte?

Essa ênfase na originalidade sobre a qualidade tem por conseqüência que, nas próprias escolas de arte atuais, o treinamento formal - saber pintar e desenhar - termina sendo muito reduzido. Quantos supostos "artistas" se formam nessas escolas e mal saberiam desenhar um vaso de flores? Eu conheci muitos formados no Instituto de Artes da UFRGS que mal sabiam segurar um pincel. Mas que importava? Afinal, realizavam "instalações"...

Mas mesmo o conhecimento da História da Arte é limitado entre os estudantes atuais. Afinal, se o objetivo principal é a "originalidade", é "se expressar a si mesmo", então para que estudar em detalhe os velhos mestres? Para copiá-los? Theodore reproduz o diálogo que teve com uma estudante de artes. Ele lhe pergunta o que estudaram, e ela responde:

"No primeiro ano estudamos a arte africana. Mas agora no segundo ano estamos estudando a arte ocidental."
Eu perguntei qual aspecto da arte ocidental estavam estudando.
"Roy Liechtenstein," respondeu.

Não apenas há o mesmo peso dado à "arte africana" que aos séculos de arte ocidental, como os artistas ocidentais estudados são os fenômenos da arte pop, ao invés dos grandes mestres como Velázquez, Rembrandt, Giotto, etc.

O que dirão de nós os futuros arqueólogos e historiadores, ao estudar nossa bizarra época através dos artefatos artísticos que desenterrarem?

Theodore Dalrymple (na vida real, o médico Anthony Daniels) é um dos maiores cronistas da decadência ocidental. Além desse artigo sobre a arte moderna, ele acaba de publicar um outro aqui sobre a incrível facilidade que temos em propor soluções abstratas para "salvar o mundo", contraposta à dificuldade que temos em resolver problemas concretos bem mais modestos.

Leiam ambos.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Arte moderna é infantil e criminosa

Uma das expressões mais correntes quando se vê alguma obra de arte contemporânea é, "uma criança de seis anos poderia fazer isso".

Bem, é isso mesmo. A arte moderna (ou pós-moderna) é infantil.

Antigamente, os artistas eram pessoas com "talento", e o objetivo era criar coisas "belas", ou ao menos "reveladoras". Hoje essas palavras perderam o significado, e o objetivo do artista atual (que por sinal pode ser qualquer imbecil sem formação ou talento) é criar escândalo, nojo ou rejeição. De preferência com algum tema social ou político por trás da obra.

Virou corrente de email o tal "artista" guatemalteco que colocou um cachorro vira-lata faminto amarrado na galeria de arte como protesto contra "a fome no mundo". Continuando com a arte canina e mórbida, um "artista" do Recife costurou no próprio rosto restos de um cachorro morto. Um artista inglês fez pinturas da Virgem Maria com cocô. O imbecil do Damien Hirst ficou famoso expondo animais mortos e retalhados. A idiota da Tracy Emin também ganhou fama pendurando imagens pornográficas nas paredes e expondo sua própria cama.

Quem é que fica fascinado com cocô, escatologia, palavrão, obscenidades, sangue, sexo?

Exato. Crianças de seis anos. A arte moderna é infantil, quando não criminosa.

E, embora haja trouxas que pagam milhões, muitos de seus quadros ou instalações não valem o cocô com que foram pintados.

domingo, 27 de abril de 2008

Por que os artistas são de esquerda?

Leio um artigo sobre a recente visita do cineasta e músico Emir Kusturica à Venezuela com a sua banda, "The Non Smoking Band". Gosto de alguns de seus filmes. Mas aí leio isto aqui:

Estoy aquí para ver en pocos días un proyecto con el que estoy de acuerdo. Creo en la inclinación humana hacia la justicia social. Este país es lo opuesto a la visión fatalista del mundo, en donde todo está orientado hacia lo material y los objetos. Quería estar unos días inmerso en un proceso social que refleja mis ideales.

É sempre um pouco decepcionante ler entrevistas com artistas, pois cedo ou tarde você se deparará com alguma bobagem que o faz repensar tudo o que achava do sujeito. É especialmente grave no caso de Kusturica, que é bósnio e portanto viveu sob o regime comunista de Tito na Iugoslávia, e incluso chegou a fazer críticas ao regime em seus filmes. Poxa, será que não aprendeu nada? Como alguém que passou pelo comunismo pode acreditar na mesma lorota de novo? Enquanto Kusturica saudava o regime chavista, 45% dos alimentos não podiam ser encontrados nos supermercados da Venezuela, e nem mesmo nos mercados populares estatais...

No mais, é um pouco triste que hoje em dia parece que todo cineasta ou escritor tenha que afirmar em algum momento que acredita em justiça social, ecologia, direitos dos gays, pacifismo... Pior se o sujeito faz um filme que é considerado por alguns como "de direita", como o José Padilha: tem que passar a vida inteira se justificando e afirmando que não, que o filme é "de esquerda"... Será que tem alguma cláusula que indique que, pra ser artista hoje, o sujeito tem que ser de esquerda e achar o socialismo maneiro? Será que, se vivessem hoje, Dante, Shakespeare e Cervantes teriam que se pronunciar a respeito dos últimos acontecimentos políticos e sociais, e afirmar que acreditam em "justiça social", sob pena de serem ostracizados no mundo artístico? (Bem, talvez por isso não haja hoje nenhum Dante ou Shakespeare - quando a arte é atrelada a "mensagens" ou discursos políticos, sempre se rebaixa).

Um dos poucos que vão contra essa onda esquerdófila é o Michel Houellebecq, e, embora eu não tenha lido nenhum de seus livros, tenho certa admiração por suas entrevistas totalmente anti-politicamente corretas...