quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O artista enquanto estuprador

Sobre o caso Polanski, todos já estão carecas de saber. Porém eu não sabia que também William Golding, autor de "O Senhor das Moscas", foi acusado de tentar estuprar uma garota de 15 anos, embora pareça não ter passado de uma tentativa inocente quando ele próprio tinha apenas 18. (Depois, de fato, ambos viraram namorados e dedicaram-se a transar em parques enquanto o pai de Golding (!) observava a cena com binóculos.)

Arthur Koestler, autor de "Darkness at Noon", também parece ter estuprado sua cota de mulheres. E, segundo este artigo, também eram estupradores Jack London e Geoffrey Chaucer. Poe não estuprou ninguém, mas era alcoólatra e casou com uma menininha de 13, o que hoje, fora das terras de Maomé, seria chamado de pedofilia.

O clichê do artista pervertido é um velho mito, mas será que é mesmo realidade?

Afinal, proporcionalmente, há provavelmente muitos mais artistas que não dedicaram-se ao crime ou à sacanagem explícita do que aqueles que o fizeram. No entanto, o mito persiste.

Talvez a figura do artista maldito, da associação da arte com o crime, a imoralidade ou a loucura seja algo relativamente recente, fruto do período romântico e, posteriormente, das destrutivas vanguardas do início do século.

E o que ocorre hoje em dia é que - definitivamente enterrado o conceito de "beleza" - já não é mais possível distinguir, em muitos casos, a arte da psicose. Artistas que utilizam o próprio sangue para fazer esculturas; artistas que mergulham um crucifixo em urina e chamam de arte; artistas que exibem a própria cama suja em uma galeria e chamam de arte; artistas que enforcam manequins de crianças e chamam de arte; e mesmo um artista que deixa um cachorro morrer de fome em uma galeria e o chama de - o que mais? - arte.

Sob essa perspectiva delirante, o próprio estupro poderia ser considerado uma forma de arte performática. Se para o músico pós-modernista Karlheinz Stockhausen os atentados de 11 de setembro foram "a maior obra de arte jamais criada", então o ato radical de Polanski poderia ser considerado sua obra maior, uma exploração das profundezas tenebrosas da maldade humana mais potente do que "O bebê de Rosemary" e "Chinatown" juntos.

Felizmente, o culto da arte niilista parece estar com seus dias contados. Hollywood está em crise, é não apenas devido à concorrência com Netflix e The Pirate Bay: o pessoal realmente está pouco interessado. As artes plásticas? Bem, faz alguns anos toda uma coleção de arte britânica dos anos 90 pegou fogo, e a resposta do público foi de júbilo. E nem falemos da arquitetura moderna e seus estupros visuais, desprezada por quase todas as pessoas de bem.

Tenho para mim que um dia retornaremos à Beleza como paradigma, e que a Grande Arte de novo renascerá. Mas para isso talvez seja necessária uma profunda reorganização social e política, e o abandono do culto ao niilismo, que é talvez o mal das últimas décadas, e do qual a questão artística é apenas uma de várias manifestações.


Atualização: A obra que ilustra o post é uma gravura de Otto Dix, considerada "arte degenerada" pelos nazistas. Ou seja, estou ciente da ambiguidade em imaginar ou desejar alguma arte supostamente "melhor" ou "mais pura". (Na verdade, gosto de Otto Dix). Também os comunistas quiseram impedir certos tipos de arte e instituir outros, mas o "realismo socialista" é responsável por algumas das imagens mais horrendas deste século, inclusive o edifício do "estupro visual" acima, erigido na Coréia do Norte. A questão não é desejar que a arte seja apenas beleza clássica ou que os artistas sejam todos santinhos; mas, se a arte é sempre um espelho do mundo (nos dizeres de Hamlet), então a arte de hoje em dia diz muito sobre a nossa sociedade. Bem como a tolerância com certos artistas transgressores. A arte niilista reflete uma sociedade niilista, que não sabe mais quais são seus valores.

24 comentários:

Chesterton disse...

O problema nem está todo no artista, mas sim no fã clube.

Mr X disse...

A questão é a seguinte, ser um grande artista absolve dos pecados? Se Michelangelo tivesse estuprado, mereceria perdão? E Mozart? Shakespeare?

E os artistas nazistas? E os artistas que apoiaram o comunismo? Culpados? Inocentes?

Andre Bossard disse...

Falando no fã clube, quem agora anda em maus lençóis é o ministro da cultura francês.

O senhor Frédéric Mitérrand tem sido um dos maiores defensores da liberação de Roman Polanski pelo governo Suíço.

Homosexual notório na última segunda-feira ele foi acusado ao vivo em rede nacional de ser, ele também, pedófilo tendo inclusive confessado em seu livro autobiográfico ´La mauvaise Vie' seu fraco por meninos e descrito com detalhes suas viagens de turismo sexual na Tailândia.

Agora é a cabeça dele que está a prêmio...

Mr X disse...

É, a Confetti tinha dado a dica disso aí... Mitterrand, é? Hum.

Andre Bossard disse...

Ele é sobrinho do falecido François Mitterrand.

Chesterton disse...

A questão para a Connf@ é. Se Polanski pode, Berluscone tambem poderia?

Mr X disse...

Outro dia li uma comparação que dizia assim: "Polanski foi acusado de estupro de uma menor e 100 artistas de Hollywood fizeram um abaixo-assinado em sua defesa. Já pensou se fosse um padre que tivesse cometido o estupro, e saíssem 100 bispos com um abaixo-assinado em sua defesa?" :-)

Por outro lado, como disse algum hollywoodiano, "Em Hollywood uma garota de 13 não tem apenas 13". De fato, rola muita coisa lá que não rola em outros lugares. Em um ambiente em que meninas de 11 anos fumam maconha e cheiram cocaína (caso da Drew Barrymore), e que sexo com garotas adolescentes em troca de um papel ou uma suposta chance no mundo do cinema é normal, bem, aí o ato de Polanski tem outro contexto. De fato, ele mesmo envolveu-se depois aos 45 com Nastasja Kinski que tinha 15, mas aí em relação totalmente voluntária.

DD disse...

Há coisas que são de uma fealdade bem pouco subjetiva. Na entrevista que Paul Johnson deu a Geneton Moraes Neto, o bom velhinho disse que, no século XX, algumas gerações de artistas talentosos foram sacrificadas na busca pelo que há de mais feio. Dou-lhe alguma razão.

Mas veja, X: O problema com os artistas já aparece desde Platão. A tendência dos artistas à vaidade e à irreverência sempre foi percebida como um risco potencial por aquela porção da sociedade mais ciosa da moralidade comum. A ideia de que os artistas só passam a ser verdadeiramente incômodos quando se valem do subjetivismo desbragado, a partir do século XIX, opondo-se a certo culto das aparências da sociedade burguesa, é mais um desses mitos com que a nossa época se congratula a si mesma, e que só pôde se instalar, a meu ver, pela semelhança entre os "programas" do artista e de seu bode expiatório eterno, o burguês. Se fossem tão avessos assim à sociedade em que vivem, os movimentos artísticos modernos não ficariam datados, nem poderiam ser absorvidos por ela com tamanha facilidade.

Anônimo disse...

"O clichê do artista pervertido é um velho mito, mas será que é mesmo realidade?"
Depende do que é ser "pervertido". Tem que envolver violência ou qualquer modalidade heterodoxa vale? Einstein engravidou a namorada, Turing e Nash eram homossexuais, Newton e Kant aparentemente eram castos e por aí vai.

"Afinal, proporcionalmente, há provavelmente muitos mais artistas que não dedicaram-se ao crime ou à sacanagem explícita do que aqueles que o fizeram. No entanto, o mito persiste."
Pode ser, mas... proporcionalmente artistas são mais libertinos ou mais inclinados à violência sexual-dependendo do que significar "pervertido no contexto"-do que a média do público geral?
Lúcio

Klauss disse...

Eu sou da área de artes cênicas, e tenho que dizer:

Existe sim, de forma interna, um certo culto à libertinagem, ao niilismo, repulsa pela Igreja e a moral Cristã, uma quedinha pela anarquia e esse desejo de "transformar o mundo".

E sabe a ironia de tudo isso? A grande maioria das pessoas que seguem a profissão, acha que a classe, de uma forma geral, forma pessoas melhores, mais inteligentes, iluminadas mesmo e que se julgam no dever de tirar as outras pessoas (especialmente o público) do obscurantismo e do preconceito.

Se eu não tivesse visto isso de dentro da classe, quando visse a descrição feita em alguns lugares, acharia que era difamação ou piada...

Mr X disse...

Esse é o outro lado, o artista com complexo de salvador da humanidade. Lá no c-avolio, o cláudio mostrou um vídeo em que um certo diretor brasileiro explica que o que o levou a fazer cinema foi uma "absurda necessidade de consertar o mundo".

Mr X disse...

DD,
Eu não sei se arte sempre foi considerada sinônimo de transgressão. No mundo antigo também? Na arte religiosa medieval?

Gunnar disse...

Isso daria assunto para outro post... a mania dos artistas de se considerarem um passo à frente, mais sabidos, mais conhecedores, vislumbradores e mensageiros de uma nova moral para um mundo melhor.

Pior é que não só os próprios pensam assim, o que tem de gente dando voz a artista pra dar pitaco sobre economia, política...

Chesterton disse...

Nem todo arrogante é artista, mas todo "artista" é arrogante. Uma vez o Caetano saiu com uma dessas:
- eu posso, porque sou artista...
(ai, ai, ai).
Décadas atrás estava num show do Egberto Gismonti quando na hora de tocar alguma coisa do Villa Lobos ele saiu com essa:
-chega uma hora que o artista quando toca não toca para o público, mas para si mesmo...
Saí e fui pedir meu dinheiro de volta. Ora, o show tinha acabado, certo?

Chesterton disse...

Paul Johnson acha que a arte tem que ser moral.(o belo, o bem, etc...) Por isso desdenha a arte moderna.
Não sou especialista, mas simpatizo com essa idéia.
Tenho um conhecido que é escultor. Como há uma relação de confiança, sempre que posso tento tirar dele alguma coisa, na linha do que o Klauss aí em cima falou. Conclusão? Bem, ele admite que o sucesso no meio depende muito mais das impressões que causa do qua a obra em si. Por exemplo, citou que artistas que abandonam a "luta" para sustentar a familia, por exemplo, nunca mais são aceitos no meio. Não há possibilidade de retorno para a curriola.

DD disse...

Mister X:

Em primeiro lugar, um esclarecimento: eu não estou supondo que a questão "liberdade artística versus moralidade" decorra de uma cadeia de transmissões desde a época de Platão até a nossa. I. e., não acredito que a maneira mais correta de entender o problema seja ver linhas de força históricas representadas pela tradição da defesa da moralidade opondo-se à tradição da apologia da liberdade artística. Acho que você nem pensou assim, mas, como o historicismo exclusivista é uma das molétias da nossa época, quero deixar isso claro.

Em segundo lugar, esse é um tipo de questionamento que só pode ocorrer em sociedades que não sejam estritamente tradicionais, nas quais a arte tem um uso puramente simbólico, cívico e ritual, sem que ocorra a nenhum dos seus indivíduos qualquer outra ideia. Nossa noção de arte, por mais que tenha mudado ao longo do tempo (e não por causa dele), ainda deve algo ao seu estatuto original, grego, que a coloca nessa zona cinzenta entre o ornamento e objeto ritual, devendo proporcionar "um entretenimento que eleva". Os gregos e os romanos confiavam, como se sabe, em modelos, sedimentados pela tradição artística, pelos quais podiam avaliar se a verdade estava amparada pela beleza em determinada obra. Quando tal não acontecia, o caráter didático da arte não era reconhecido por todos, e as inovações podiam ser contestadas.

Quanto à arte religiosa medieval, é claro que ela se aproxima bem mais daquela arte "tradicional" que mencionei acima. Mas note bem que ninguém mais lê a literatura daquela época e que as catedrais românicas foram quase todas derrubadas e substituídas por igrejas de outro tipo.

O que eu queria dizer, porém, é o seguinte: tendo a arte, digamos assim, alguma coisa a ver com a estética, o artista pode sentir-se inclinado a pisotear a verdade e a moral na busca de certos efeitos. Com o romantismo, então, em que o papel da arte passou a ser a "emancipação do sujeito", essas tendências foram ampliadas, e o desejo de se ter uma "vida artística" tornou-se bem mais comum. Como a definição dos critérios estéticos passou a ser algo muito particular, já não existe nenhum entrave a que a "vida artística" seja encarada como uma sequência de horrores, que serão percebidos como verdadeiros bens por alguns, caso afrontem a sociedade.

Juro que tentei ser breve.

Chesterton disse...

Quanto à arte religiosa medieval, é claro que ela se aproxima bem mais daquela arte "tradicional" que mencionei acima. Mas note bem que ninguém mais lê a literatura daquela época e que as catedrais românicas foram quase todas derrubadas e substituídas por igrejas de outro tipo.

chest- êpa, os quadros ainda valem fortunas. (ironia intended)

DD disse...

Estamos a léguas de distância do problema enfrentado por Platão. Ele podia dizer aos poetas: adequem-se ao que vocês sabem que deve ser a arte e terão lugar na cidade. Conosco, com esses ideais românticos vigendo, um reformador só poderia espantar-se de que os artistas ainda não tenham ido mais longe.

Chesterton disse...

Bem, a minha impressão é que andam em círculos.

c* disse...

chesto, isso me soa uma verdadeira aberraçao...mas vc "simpatiza com essa idéia" né....me da uma raiva...


"Paul Johnson acha que a arte tem que ser moral.(o belo, o bem, etc...) Por isso desdenha a arte moderna."

Chesterton disse...

Sou um moralista, Conff@, você já deveria estar acostumada.

http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Johnson_(writer)

Procure "Art, a New History".

Pax disse...

Mr X, tudo bem? Procurando um psicanalista?

Calma, foi só um prêmio Nobel, não se desespere e fique longe da Golden Gate por esses dias.

Mr X disse...

Pax voltou! :-)

Didi Iashin disse...

Falando em "belo", viram a capa da revista "Brasileiros" (mais um genocídio de árvores ...)
Tom Zé.
Pelado!
Por que a gente tem de ver certas coisas ...? Castigo?