sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Libertarados versus conservotários

Sou libertário ou conservador? - perguntei-me tempos atrás. Sem chegar a uma conclusão, decidi assumir que sou uma mistura indigesta dos dois. Em alguns aspectos sinto-me mais seduzido pelo argumento libertário, em outros vejo mais coerência no argumento conservador.

O fato é que mesmo a tal "direita" não é unitária e, embora não tenha todas as correntes de um partido como o PT, tem ao menos dois campos bem distintos - como se pode ver por este post do Not Tupy.

Mas as posições de ambos os lados são, por vezes, caricaturizadas.

Os libertários têm fama de utópicos ou libertinos - libertarados, chamemo-los: todo mundo tem o direito que fazer o que bem entender, desde que isso não prejudique diretamente aos outros. Casamento gay? Tudo bem. Aborto? On demand. Drogas? Basta que o Estado não se meta no negócio.

Do outro lado estão os conservadores, com fama de quadradões, puritanos, recaldados - em suma, conservotários. Nada de casamento gay, aborto e muito menos drogas, que são coisa do demo.

Ambos grupos só parecem concordar na economia e na redução do poder e tamanho do Estado, mas nos temas sociais a diferença é radical. Qual a solução?


O comunismo/marxismo, não obstante o que diga o nosso colaborador Tiago, morreu de morte morrida. Depois do desastre soviético, qualquer tentativa de acabar com a propriedade privada e coletivizar os meios de produção será sempre vista com um revirar de olhos ou o sorriso benevolente de quem se dirige a um retardado mental. Essa parada econômica (e só essa) o capitalismo venceu.

Mas no cultural perdeu, playboy, perdeu. A ideologia de nosso tempo não é o socialismo, mas sim o progressismo. Embora este mantenha alguns aspectos socializantes como o aumento progressivo do poder estatal e a distribuição de riquezas (ainda que não tanto sob a forma do confisco como da taxação progressiva), trata-se de um outro bicho. Seu principal objetivo continua sendo a igualdade, mas agora não é tanto (ou apenas) a igualdade financeira, como a igualdade total entre todos e todas. Entre branco e preto, entre homem e mulher, entre hetero e gay, entre feio e bonito, entre cidadão e imigrante ilegal, entre muçulmano e cristão, entre terrorista e democrata, entre criminoso e vítima. Todos são e devem ser iguais, mas atenção!, não perante a lei (de fato, a lei é distorcida justamente para criar a tal "igualdade"). Estamos falando de uma utópica igualdade de resultados.

Os libertários são economicamente conservadores, mas, no que se refere às questões sociais, são muitas vezes indistinguíveis dos progressistas. Também eles querem liberação de drogas, casamento gay, etc. Tudo em nome, não da igualdade de grupos, mas da liberdade individual. Afinal, não se deve impedir o indivíduo de fazer nada.

Já os conservadores são contrários a essas teorias de vale-tudo, mas não porque sejam malvados ou "racistas". É que, para os conservadores, existe um tipo de sociedade que funciona, e muitos que não. Nem todos os grupos são iguais. O homem é um ser imperfeito, e portanto não adequado à liberdade total. Além disso, segundo o argumento conservador, as pessoas na verdade não querem liberdade. A liberdade total é uma tortura. O que as pessoas querem é seguir regras claras. Para muitos, e é o caso da maioria dos conservadores, ainda que não todos, essas regras morais que sustentam a sociedade vêm, não do Estado, mas da religião.

Em última análise, os libertários são otimistas; os conservadores são pessimistas.

Como sou agnóstico e indeciso, ainda não tomei uma decisão concreta sobre por qual time torcer. Ultimamente, em virtude do meu próprio pessimismo natural mais do que qualquer outra coisa, tendo a concordar mais com o pessimismo conservador do que com a utopia libertária. Por outro lado, gosto das idéias deste cara aqui.

O que fazer?


31 comentários:

DD disse...

Mr. X:

"Duas almas, ai, moram no meu peito!"

Você tem sorte, meu amigo, de estar dividido entre duas tendências que, no geral, mantêm o senso da realidade e não querem uma redenção pela História.

É essa a discussão que importa.

Mr X disse...

Bem, sou anti-utópico por natureza.

Mr X disse...

E a história da "puta da Uniban", sobre a qual acabei de saber?

http://www.youtube.com/watch?v=tK7P_vDCp4E

Eis aí uma discussão entre libertários e conservadores. ;-)

Mr X disse...

Falo sério, acho que o caso dessa garota que foi à universidade em roupas que mostravam tudo, e a reação masculina que se seguiu, mostra que mesmo uma coisa aparentemente banal como "usar a roupa que se quiser" pode causar sérios problemas.

DD disse...

X:

Não pretendo ver, como não vi o "Pedro, cadê meu chip?" ou o vídeo do menino americano sob o efeito de anestesia, embora uma ou outra imagem tenha passado pelos meus olhos. Esse filmete foi gravado sem o consentimento da moça, com o objetivo de ampliar o círculo da execração pública em torno dela. Não é nada relevante para a vida civil, como seria o de um empreiteiro dando propina a um político, por exemplo.

Esse lado persecutório, escarnecedor, da internet é uma das coisas mais preocupantes dos nossos dias. Todos têm direito a seus instantes de fúria, de burrice e de inconsequência. E prolongar a vergonha que alguém sofreu é muito pior do que ter o seu momento sem noção. A insensibilidade orgulhosa que vejo nas caixas de comentário do YouTube me consterna.

Prezo muito pelo diálogo (embora eu sempre queira vencer, hehehehe, e nem sempre seja justo). Mas a perseguição é o contrário de tudo isso.

DD disse...

O Reinaldo também é mais ou menos da mesma opinião: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

E ele disse a palavra certa: BARBÁRIE.

DD disse...

Pô, não saiu o link. Entrem lá.

Cláudio disse...

Ser anti-utópico é o - sem trocadilhos - X de toda questão.

Mr X disse...

Acho que vou fazer um post sobre sexo na era do Youtub e celulares com câmera. É realmente uma mudança e tanto. A privacidade acabou. Mas tem uma questão de comportamento aí também, a coisa não é tão simples quanto parece. A moça queria se exibir? Até que ponto?

Fabio Marton disse...

Só uma grande ressalva, Mr. X, os libertários acham que o indivíduo pode fazer tudo consigo mesmo. O indivíduo pode viver como bem entender DESDE QUE não interfira na mesma liberdade dos outros.

Muitos conservadores diriam que poluir a cultura com más idéias ou maus exemplos seria interferir com a liberdade dos outros. Por exemplo, poderiam argumentar que ser um sem-teto causa degradação urbana, independente de ser ou não violento.

É um caminho perigoso. "Cultura" e "valores" são coisas um tanto quanto vaporosas demais para que seja justo punir alguém por uma interferência a elas, já que qualquer coisa é interferência.

Seria abrir espaço para o arbítrio - se "proteger a cultura" é punir alguém que faça uma Virgem Maria de merda de elefante ou um crucifixo no mijo, qual é a diferença para o caso dos cartuns na Dinamarca? E, se ninguém pode ser ofendido, quem vai poder dizer o que?

O que é importante para um libertário em relação à cultura é justamente que, deixando-se tudo na mão do indivíduo, existe o peso de ser moralmente responsável em absoluto por cada ato seu. Por isso um libertário, mesmo que defenda as mesmas causas de um esquerdista, é oposto ao esquerdista não só na economia, mas em filosofia moral.

E pelo peso dessa liberdade é bem provável que não seja possível o libertarismo através da democracia. Seria preciso concordar com não ser nunca tutelado e não arrancar dinheiro dos outros ou usar o estado como "olha ele, professor!" (ex.: lei antifumo). A maioria das pessoas parece se sentir melhor sendo meio que crianção a vida inteira. Talvez não aconteça nunca, mas é um sistema moral pelo qual viver.

Pangloss disse...

No caso da moça, nessa hora sou libertário: é direito dela sair como quiser e ninguém tem nada com isso. Independente se ela quiser se exibir ou não. Povinho jeca.
Em outras situações, liberação de drogas, por exemplo, sou contra, um conservador.
A vida é uma gangorra, rótulos aprisionam.

Fabio Marton disse...

Se você é contra a liberação das drogas não é libertário. E não porque esteja escrito nas tábuas sagradas, mas porque está contradizendo o princípio mais básico da coisa.

O libertarianismo parte da autonomia e propriedade absolutas de si mesmo. Se você não é capaz de julgar o que vai colocar em seu próprio organismo, não é realmente autônomo, e se o governo não permite que use qualquer substância, você não é dono de si. Se você defende essas posições, portanto, não pode ser considerado libertário. Se defende essas posições em nome de um "bem comum", além de não ser libertário é coletivista, está reduzindo o indivíduo a um órgão da sociedade.

Libertário não é um conservador que bebe muito e faz sexo fora do casamento. :D

Chesterton disse...

Marton, gostei desse "Desde Que". Mas tem que levar a fundo isso. Até as últimas consequências.

Chesterton disse...

Acho que os libertários (self acclaimed) não conseguem se encaixar nesse regra rígida que você citou.

Fabio Marton disse...

É uma coisa de formação, eu acho. Depende de você ter lido as fontes filosóficas (Thoreau, Spooner, Berlin, Rand, Rothbard etc.) ou ficar achando que libertário é um conservador que trepa e ouve rock.

Ser conservador, por outro lado, não é ser um libertário com um crucifixo. É possível ser conservador e ateu - Theodore Dalrymple é um exemplo.

A maior distinção é a visão do estado em relação à cultura. O conservador quer que o estado proteja valores através diversas políticas. O libertário pode até acreditar que isso seja desejável, mas jamais por política de estado. Hans-Hermann Hoppe, por exemplo, é um libertário que só vê a anarquia como possível através de estritos valores conservadores - boêmios e gays não poderiam viver nas comunidades anarco-capitalistas que ele imagina. Ainda assim, ele não enxerga o estado defendendo esses valores.

Não sou nada fã de Hoppe porque acho que sou o "boêmio" excluído da utopia dele, tenho amigos gays, e às vezes ele parece beirar o racismo. Hoppe é um tipo de libertário da ala mais conservadora possível, mas ainda assim libertário.

Marcos disse...

O suposto coletivismo do qual os libertários gostam de acusar os conservadores advém da negativa, ao meu ver, infantil em reconhecer que, em sociedade, pouquíssimas são as ações individuais cujas conseqüências não respinguem nos outros.

Não há almoço grátis, mas libertários, na prática, não se incomodam muito se o preço for pago pelos vizinhos de hoje ou de amanhã. Esquerdistas, explicitamente, querem mesmo que o Estado tome conta de todos. Os libertários, no seu blablablá de superioridade moral, dirão: não era isso o que eu queria, mas vou fazer o quê?

Por isso que, antes de os libertários saírem por aí pregando a sua agenda cultural, sua luta primeira seria avançar na sociedade a idéia do Estado Mínimo, circunscrito à justiça e à segurança. Antes disso, serão companheiros de viagem dos esquerdistas, sem nenhuma chance de reverter o jogo mais adiante.

Iconoclasta disse...

maus esses rotulos...

abortar, por exemplo, envolve a vida de um terceiro (ou segundo) involuntário.

o caboclo q se põe como conservador geralmente é um caga-regra, e aqui no Brasil os caras conseguem se passar por personagens não menos satíricos do que os canhotinhos empedernidos. adoram chamar os discordantes de ingênuos e pueris, adotam posições definitivas (e apressadas) por simples convenção, mas não se importam em tirar fatos do contexto, ou simplesmente ignorá-los, apenas para defender suas "causas".

Anônimo disse...

É incrível como até para falar da própria direita, os reacionários precisam atacar a grande obra de Lenin.
"... mesmo uma coisa aparentemente banal como 'usar a roupa que se quiser' pode causar sérios problemas."
Sem querer defender a moça- que, claramente,merecia um boa surra para criar vergonha na cara-, mas é bom lembrar que não faz tanto tempo assim que uma coisa aparentemente tão banal quanto seguir a religião que se quiser podia causar problemas graves no Ocidente. Em alguns lugares, ainda causa. O uso legítimo da violência é monopólio e dever do Estado, não de auto-apontados fiscais de moralidade.
Tiago

Chesterton disse...

conservadores querem que o estado o que, marton?

Cláudio disse...

Fechei com Marcos. Disse tudo.

Chest mandou bem também ao perceber o "Desde que." Toda ideologia que começa com um "desde que" já moldou o ser humano como ela quer. O socialismo funciona, "desde que" as pessoas deixem de lado seus interesses mesquinhos.

Anônimo disse...

"Chest mandou bem também ao perceber o "Desde que." Toda ideologia que começa com um "desde que" já moldou o ser humano como ela quer."
Vindo do mesmo pessoal que diz que o Capitalismo só funciona se todo mundo for à igreja no domingo e o casamento gay não for aprovado, é só a demonstração da velha hipocrisia da extrema-direita, acostumada que está a fingir que defende o interesse público quando está só a defender os interesses de seus mestres plutocratas.
Tiago

Cláudio disse...

Tiago, sai pra lá.

HenriqueSantos disse...

"O libertarianismo parte da autonomia e propriedade absolutas de si mesmo. Se você não é capaz de julgar o que vai colocar em seu próprio organismo, não é realmente autônomo, e se o governo não permite que use qualquer substância, você não é dono de si. Se você defende essas posições, portanto, não pode ser considerado libertário. Se defende essas posições em nome de um "bem comum", além de não ser libertário é coletivista, está reduzindo o indivíduo a um órgão da sociedade."

Fabio Marton, então se um libertário abre mão de sua autonomia (ou parte dela) para ter algo da sociedade (aceitação, proteção, dinheiro, etc), ele deixa de ser libertário?

Chesterton disse...

Releiam "O Alienista".

Anônimo disse...

"Fabio Marton, então se um libertário abre mão de sua autonomia (ou parte dela) para ter algo da sociedade (aceitação, proteção, dinheiro, etc), ele deixa de ser libertário?"
Imagino que abrir mão dos próprios direitos seja um direito-já que a possibilidade de ser recusado é exatamente a diferença entre um direito e um dever. Já alguém querer abrir mão dos direitos dos OUTROS- como querem os tais "conservadores"- e ainda dizer que está defendendo alguma ordem natural é só falta de ver-gonha na cara mesmo.
Tiago

HenriqueSantos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
HenriqueSantos disse...

"... Já alguém querer abrir mão dos direitos dos OUTROS- como querem os tais "conservadores"- e ainda dizer que está defendendo alguma ordem natural é só falta de ver-gonha na cara mesmo."

Caro Tiago, acredito que um exemplo deste "abrir mão dos direitos dos OUTROS" seja o casamento gay, certo? Gostaria de saber o que os gays ganhariam se fosse permitido o casamento entre eles. E será que os não gays não perderiam algo caso houvesse o casamento gay?

Se entendi corretamente um libertário pode ter valores (ou preconceitos, ou achar que determinadas coisas são mais desejáveis/boas/naturais/virtuosas que outras), tem também o direito (ou liberdade/autonomia) de somente se associar com outros que compartilham destes valores, certo? O problema, para o libertário, é quando estes valores viram política de estado, certo?

Por exemplo eu tenho uma empresa e nela eu só quero que trabalhe pessoas católicas, acredito que está tudo bem para um libertário, certo? O problema seria eu querer fazer disto uma política para outras empresas (ou para a sociedade como um todo), certo? E também é um problema o estado não me permitir fazer isto e me obrigar (ou dificultar as coisas) a contratar satanistas, macumbeiros, etc.

A partir de associações entre as pessoas o libertarismo já não parece possível ou desejável ...

Estou um tanto confuso, vou ler o Two Concepts of Liberty do Isaiah Berlin, quem sabe dá uma luz...

Anônimo disse...

Há um monte de exemplos. Os fascistas que estão aqui falando que o libertarianismo- que tem muitíssimos defeitos e é claramente contrário ao espírito do marxismo-leninismo- é uma tentativa de amoldar o ser humano, como se as regras e leis impostas pelos "conservadores" e aplicadas debaixo de chicotada fossem naturais. Os fascistas dizem que os socialistas desejamos fazer "engenharia social" como se as leis que eles impõem fossem algum anseio profundo da alma humana; se fosse, não precisariam ser impostas. São eles que vivem submetendo os direitos dos OUTROS a cálculos de SUPOSTOS efeitos sobre a Sociedade, geralmente um disfarce para seus interesses mesquinhos de classe e para suas superstições religiosas, que não resistiriam a uma análise racional e honesta.
Canalhas gananciosos começam dizendo que só o capitalismo não depende de se modificar o ser humano, mas, dois minutos depois, brandem algum espantalho qualquer- a liberação das drogas, o casamento gay, o futebol de botão- e nos comunicam que o capitalismo só funciona se todo mundo comungar aos domingos e se não aprovarem o casamento gay. Se as exigências dos fascistas não forem cumpridas, papai do céu vai amaldiçoar a Humanidade e aí o Mundo vai acabar. Sou contra as drogas e contra o casamento gay, mas também sou contra o fascismo, a pior droga de todas.
Tiago

Cfe disse...

"O conservador quer que o estado proteja valores através diversas políticas."

O que?!?!?!?!

Cláudio disse...

Pois Cfe... Mas, como dizem, é melhor ler essas coisas que ser cego.

HenriqueSantos disse...

Caros (Mr X, Marton, Claudio, Chesterton, etc.), desculpa por estar "alimentando o troll".

Tiago, vai à merda.

ps.: Caso possam, assistam o filme Casamento Silencioso (Nunta muta ou em inglês 'Silent Wedding').