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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Os macacos somos nós

Não sei se alguém aí assistiu ao "Planeta dos Macacos: A Origem". Não se preocupem, não vou contar o final. O filme é bom, ao menos bastante mais interessante do que eu esperava, mas talvez apenas porque eu esperava muito pouco. Porém, uma coisa chama a atenção no filme, especialmente em contraposição ao filme original com Charlton Heston: nesta história, o personagem principal, e herói do filme, é um macaco.

Os atores humanos pouco se destacam. Alguns, como a namorada do cientista (a bela atriz indiana, Freida Pinto, pelo nome, de origem portuguesa), fazem pouco mais do que figuração. A grande personagem do filme, seja em termos narrativos, seja no aspecto técnico (o ator Andy Serkis filmado com a técnica de motion capture e recoberto com alguns dos melhores efeitos especiais já realizados), é certamente o chimpanzé inteligente, César. Por mais que o principal personagem humano tenha o drama com o pai com Alzheimer e um conflito ético sobre experimentos científicos, etc. tudo isso mal chega a nos tocar. Simpatizamos e preocupamo-nos é com o macaco.  

Assim, enquanto no filme original a degradação dos humanos era vista como algo terrível, e torcíamos por Charlton Heston, neste filme a destruição da humanidade é vista como algo, se não positivo, ou ao menos neutro. Os humanos não parecem nem mesmo lá muito inteligentes; os símios, mesmo antes de tomarem a droga mágica que aumenta o QI, parecem superá-los ou ao menos igualá-los em inteligência: enfrentam policiais incompetentes, cientistas trapalhões, cuidadores de animais sádicos e imbecis, e mesmo o suposto cientista herói da história é meio panaca: até a namorada o macaco é que precisa arranjar para ele.

No filme, os macacos estão certos em vingar-se dos humanos; e a narrativa é construída de tal forma que torcemos por eles. Nesse aspecto, é um pouco similar ao bom District-9, em que os repulsivos alienígenas terminam virando os verdadeiros heróis da história, ou ao ruim Avatar, com seus nobres selvagens azuis.

Poderia ser uma metáfora sobre a imigração, sobre o capitalismo, sobre o fim da civilização Ocidental? Alguns blogueiros americanos meio primários estão realizando a básica comparação entre a história do filme e conflitos raciais. Mais de um comparou o quebra-quebra final dos macacos no filme com os distúrbios londrinos. A comparação, embora tentadora, é equivocada. O filme original, realizado não por acaso em 1968, tinha muito maior ênfase no aspecto racial, evocado até mesmo pela divisão entre os próprios símios. A versão recente ignora o aspecto quase que totalmente, e até coloca um afro-americano como um dos principais vilões (um capitalista apenas interessado no lucro, é claro). Chefe negro, namorada indiana: o mundo que está sendo destruído já é o mundo multicultural. 

Sim, o tema anticapitalista está presente, mas está longe de ser o pecado original que leva à perdição. A ciência sem ética tampouco parece ser a culpada da desgraça, e o cientista não é nenhum Dr. Frankenstein. Ele tem um motivo nobre: curar o Alzheimer e salvar o seu pai. Poderia haver melhores intenções?

Não, o recente filme é apenas mais um na longa lista que retrata a humanidade em geral como uma corja de parasitas que não merece sequer viver no planeta -- talvez o ápice dessa tendência misantrópica e fatalista possa ser vista no documentário "A vida após as pessoas", que celebra um mundo desprovido de seres humanos. 

Por sinal, ao contrário do filme original com sua impactante cena final, neste filme a vitória dos símios e mesmo a possibilidade de extinção humana são retratadas sem qualquer tipo de pathos, como se se tratasse de alguma outra espécie que não a nossa: assistindo ao filme, viramos macacos; estamos do lado deles. Os macacos somos nós.

O paradoxal é que é justamente o elemento o que nos faz ter empatia com César são as suas características humanas ou quase-humanas. Simpatizamos com o macaco porque ele tem sentimentos humanos -- e por isso apoiamos sua luta que fatalmente terminará com a submissão dos humanos aos orangotangos e chimpanzés.

É esse aspecto paradoxal o que torna o filme mais interessante do que uma mera fábula sobre a "libertação animal": é, afinal de contas, a história de um macaco que vira humano (e nesse sentido é um pouco parecido com o conto de Kafka "Informe a uma Academia"); e é pelos macacos serem "humanos" ou ao menos "quase-humanos" que o seu tratamento e seu desejo de rebeldia se tornam mais ambíguos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tintin no País dos Sovietes

Não sei se vocês sabem, mas em dezembro deve sair o novo filme do Spielberg baseado nas "Aventuras do Tintin". Não sei se o filme é bom, temo que não; os quadrinhos originais são ótimos.

Tudo o que sei sobre a América Latina aprendi lendo Tintin. Para quem não leu, a história em quadrinhos mostra um continente no qual ditadores se revezam no poder através de revoluções ou eleições sem que nada mude, indígenas primitivos andam sempre alcoolizados ou brigando entre si, e a pobreza e a miséria espiritual é sempre a mesma, não importando o governo que esteja no poder.

Tintin anda sempre armado e adora suas armas. Não sei quais eram as leis de porte de arma na Bélgica entre os anos 30 e 50, mas não há um episódio em que  Tintim não esteja ao menos em uma cena com uma pistola na mão, enfrentando bandidos. E isto em um livro para crianças.

Já o Capitão Haddock está sempre fumando e bebendo. Hoje a patrulha antitabagista não o perdoaria. Também a Associação Protetora dos Animais não perdoaria Tintin pelos vários animais que mata a tiros, de serpentes a crocodilos a rinocerontes.

Quase não há personagens femininos em Tintin, com exceção da Castafiore, por isso alguns acusam o livro de ser também "sexista". Besteira. Em todo filme americano de ação, sempre colam uma história de amor boboca. (Hoje, com o politicamente correto, a mulher não é apenas interesse amoroso como muitas vezes dá mais porradas em bandidos do que o herói). Graças a Deus Hergé não foi por esse caminho.

Tintin é de direita? Hergé, autor dos quadrinhos, foi até acusado de colaborador nazista. Exagero. Embora tenha permanecido na Bélgica durante a ocupação, a verdade é que ele não é nem racista nem antisemita nas obras. Se "Tintin na África" foi acusado de racista, bem como otros livros mostrando indígenas sul-americanos, a verdade é que ele mostra tais povos de forma positiva: talvez simplórios, mas de bom coração. Aliás, ao contrário do que poderia parecer, com o tempo o autor foi ficando cada vez mais politicamente correto, chegando a modificar versões anteriores de livros para que ficassem mais adequados aos novos tempos. Existe uma interessante página sobre isso comparando as imagens das diversas edições, que pode ser vista aqui (em francês).

A primeira história de Tintin, e a única que jamais foi redesenhada ou mesmo colorizada, foi "Tintin no País dos Sovietes", desmascarando a União Soviética. Se em termos de arte e mesmo de história é bem mais primário do que os outros livros posteriores, não deixa de ser um interessante relato da época. Pode ser facilmente encontrado em pdf online, assim como os outros livros.

Os progressistas, no entanto, jamais perdoaram Hergé por ser anticomunista na juventude. Mesmo um jornalista brasileiro em texto recente quando da publicação no Brasil em 2009, acusou "Tintin no País dos Sovietes" de "expor um preconceito primário contra o regime comunista". Preconceito? Sim, "preconceito" contra a fome massiva, a exploração, as execuções em massa, etc...

Leiam Tintin, ou dêem a ler para seus filhos (ainda que hoje eles estarão provavelmente mais interessados em videogames). É instrutivo.

domingo, 7 de agosto de 2011

Deve existir censura?

Houve uma polêmica no Brasil com o filme "A Serbian Film" (*), que chegou a ser proibido pela Justiça mas agora, parece, foi liberado. Não foi só na Tupiniquilândia que o filme causou confusão. Também foi banido na Espanha e teve cenas cortadas no Reino Unido para poder ser exibido. Nos EUA, ele foi exibido sem cortes, mas só porque aqui ninguém dá muita bola para filmes estrangeiros.

Não vi o filme e, francamente, nem pretendo ver. Mas, sabendo que tem cenas que incluem uma decapitação durante o ato sexual, o estupro de um bebê recém-nascido e mais outras imagens de necrofilia e bestialismo demasiado doentias para mencionar até mesmo neste blog, pergunto-me se neste caso a censura não seria um ato de clemência com o espectador.

Sempre que alguma obra polêmica é censurada, muitos reclamam e saem em campanha defendendo a "liberdade de expressão". Mas peraí, qual liberdade de expressão? Hoje em dia é proibido falar qualquer coisa que seja contra o politicamente correto. Criticar os muçulmanos? Não pode. Atacar os gays? Dá cadeia. Falar em diferenças culturais ou raciais? Tabu. Os jornais americanos e europeus causam alarmismo sobre o "aquecimento global" mas quando há tumulto social falam em "jovens" causando confusão, raramente especificando que se tratem de muçulmanos ou outras minorias. 

Ora, a única liberdade de expressão que restou é a de produzir obras de "arte" cada vez mais escatológicas. Mas será que, nesses casos, a censura na realidade não ajudaria a criar obras um pouco melhores? Os nossos artistas locais vivem criticando a ditadura militar de 64, mas, cá pra nós, será que sem a tal censura esses artistas seriam hoje tão famosos e teriam ganho tanto dinheiro? Ao menos nessa época escritores tinham que esforçar-se para ser mais sutis; compositores como Chico Buarque tinham que bolar boas letras para driblar a censura.

Os limites, na verdade, ajudam à criatividade. O escritor Jorge Luis Borges, em ensaio que agora não consigo encontrar, falava justamente sobre esse auxílio indireto que a censura pode dar às obras literárias demasiado óbvias. Penso por exemplo nos filmes da época de ouro de Hollywood, os quais, sem poder mostrar diretamente cenas eróticas, tinham no entanto uma encantadora sutileza de diálogos que hoje se perdeu.

Por outro lado, nada como a censura para transformar uma obra "polêmica" em sucesso de público. Lembrei de quando, lá pelos anos 90, proibiram "Je vous salue Marie" do Godard no Brasil. Nunca assisti, mas o filme chegou a ter sessões alternativas lotadas. Sei de pessoas que assistiram para "burlar a censura" -- e o consideraram o filme mais chato jamais realizado. (Bem, depois de tudo era um filme do Godard.)

Não vou ficar aqui defendendo a censura, afinal o problema com isso sempre é: quem é que deve definir o que deve ser censurado e o que não? Prefiro um mundo em que todos possam falar ou filmar o que quiserem, e que o leitor ou espectador decida em quem acreditar. Por outro lado, considerando o estado da arte contemporânea, às vezes me pergunto se a censura não faria um bem a certos "artistas", e à cultura contemporânea em geral. (Bem, só espero que esse filme sérvio não tenha sido financiado pelo governo ou pela Petrobras local, como costuma acontecer com os similares lixos nacionais, ver por exemplo "O Baixio das Bestas".)

(*) Obs.: Não entendi por que o título no Brasil não foi traduzido simplesmente para "Um filme sérvio", em vez de ter um titulo em inglês que nem é o original (o filme é sérvio, afinal), acrescido apenas de um ridículo subtítulo, "Terror sem limites". Mas é o mesmo país que traduziu "The Hangover" como "Se beber não case"... Ainda sobre o título, aqui um interessante texto (em inglês) fala sobre o caso. Por que essa escolha? O filme poderia ter sido chamado "Um filme pornô", "Um filme de horror", ou, vá lá, "Terror sem limites". Portanto, associar o nome do filme tão diretamente ao país tem claras intenções políticas (e segundo alguns críticos, o filme aparentemente também é uma elaborada metáfora política sobre... alguma coisa). Seja como for, o fato é que um filme tão violento não vai ajudar a limpar a imagem dos sérvios, injustamente demonizados durante a guerra dos Balcãs; mas talvez fosse exatamente essa a intenção.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Eleições, mentiras e videotape

Ia parar de blogar por um tempo, mas um post do ressuscitado Fábio Marton no Not Tupy me inspirou. É sobre a necessidade da mentira na democracia. Será que democracia sempre implica em demagogia? Talvez seja um dos males deste sistema que é o pior com exceção de todos os outros. Como o político depende do voto do povo, precisa se disfarçar de Zé Povinho, mesmo que esteja muito distante físicamente, espiritualmente e financeiramente deste. Marton discute especialmente a questão do aborto, sobre a qual ambos candidatos precisam mentir para não desagradar 70% do eleitorado, mas esta é apenas a mentira mais óbvia. Um tema mais interessante é a questão do uso do dinheiro público. 

Há eleições em breve nos EUA e no Brasil, e o contraste entre os dois países não poderia ser mais grotesco. Nos EUA, há eleições parlamentares nas quais os Republicanos perigam ganhar em uma lavada histórica. Há uma atmosfera muito grande de rejeição aos Democratas estatistas, à gastança excessiva e ao elitismo dos políticos em geral. Já no Brasil, o grande vencedor entre os deputados foi Tiririca, que prova que "o grande mérito no Brasil é subir na vida sem ter mérito algum", e a eleição no segundo turno é entre dois candidatos estatistas, que lutam para decidir qual é mais contrário às privatizações. (Um dos poucos políticos que defende as privatizações, curiosamente, é o ex-comunista Roberto Freire, presidente de um partido que se declara "Popular Socialista").

Dilma mente sobre o aborto: mente também Serra quando diz que não irá privatizar? (Mas temo que Serra não minta, que seja mesmo contrário à privatização). Se eu sou contrário ao aborto e a favor das privatizações, deveria considerar a primeira uma mentira danosa e a segunda uma mentirinha válida? Não. Do ponto de vista dos princípios, seria melhor que ambos candidatos, em vez de tentar se acomodar ao desejo do público, tentassem convencer o eleitorado da validade de suas próprias idéias, que são as que colocarão em prática no final.

Tanto nos EUA quanto no Brasil, é patente a busca de identificação do candidato com o povo: o que muda é que, nos EUA, o "povo" é a classe média revoltada com a falta de melhoria econômica que quer menos gastança do governo, e no Brasil o povo é a maioria da população que quer mais governo e mais benefícios para si. 

Atire a primeira pedra quem nunca pecou ou recebeu dinheiro do Governo. Muitos criticam o bolsa-família como compra de votos, mas, de fato, não é um saco de farinha ou um auxílio no fim do mês um benefício econômico mais tangível do que vagas promessas de melhoria econômica através do liberalismo?

Todos gostam de receber dinheiro do "governo", isto é, dos impostos. O que incomoda é que outros recebam sem merecer. Mas quem é que define quem merece o quê?

Caiu em minhas mãos, por acaso, um texto de um cineasta e professor universitário declarando-se a favor da Dilma. Seu argumento é que o PT deu dinheiro ao cinema e às universidades. Que, por mera coincidência, constituem o seu ganha-pão. O cineasta é autor de filmes experimentais de "vídeo-arte", tão chatos que só poderiam ser produzidos com dinheiro público mesmo. Mas o sujeito é tão cara-de pau (ou tão esperto) que chegou a realizar um vídeo com dinheiro público no qual mostrava justamente como gastava o dinheiro do prêmio viajando para a Europa e EUA e comendo nos melhores restaurantes. A obra-prima pode ser assistida aqui. A crítica, naturalmente, elogiou:
O que o espectador presencia então é praticamente um homem em sua missão: queimar R$13 mil e fazer um filme deste seu processo. No meio tempo ele cruza o oceano duas vezes, se hospeda em belos hotéis, passeia por Europa e EUA, come do bom e do melhor. Tudo, conforme o logotipo da patrocinadora no início e no final deixa bem claro, às nossas custas. No final da sessão em que eu estive presente, uma mulher levantou revoltada: "Vagabundo! É o meu dinheiro também!"

Desse grito (desejado e conseguido pelo filme) começam as inúmeras e necessárias perguntas que ele levanta: vagabundo por quê? O cineasta fez um filme com o dinheiro do prêmio, que era o que se exigia dele. Apresentou seu resultado final, com a duração pedida, dentro do orçamento proposto. Qual o problema, portanto? Que ele tenha se beneficiado pessoalmente deste dinheiro? Bom, pelo menos nós vimos como ele o fez. Quantos belos jantares e viagens foram pagas nos outros filmes produzidos com este prêmio e nós nem sabemos? Quantas contas de motel? Então, supomos que a revolta não pode ser no campo da ética, já que antiético seria fugir com o dinheiro sem fazer o filme ou escamotear prestações de conta escondendo tais gastos, coisas que Migliorin não fez.
É claro, o cineasta poderia ter sido ainda mais "ético" e devolvido o dinheiro, ou realizado um outro vídeo de protesto pagando do seu próprio bolso, mas isso talvez seria "provocativo" demais: também não devemos exagerar. No fundo, o videoartista não difere muito de tantos outros cineastas brasileiros, que adoram criticar o governo e a sociedade enquanto são financiados por este e esta.

Seria fácil dizer que o eleitor americano é mais politizado e consciente do que o brasileiro, mas não sei se é isso mesmo: eles estão, como todos, apenas defendendo o que é seu. Não querem dividir o dinheiro ganho com seu trabalho com as minorias parasitárias do welfare e com imigrantes ilegais, especialmente em uma época de crise econômica que só foi piorada pelos Democratas. E têm razão. Talvez a diferença seja apenas que essa equação (dinheiro público = dinheiro do contribuinte) ainda não tenha sido compreendida pela maioria dos brasileiros, mesmo os de classe média e alta.


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Onde foram parar os vilões muçulmanos?

O fim da União Soviética causou um grave problema aos Estados Unidos: a falta de vilões para os filmes de Hollywood.

Os roteiristas até que tentaram com outras alternativas. Vilões colombianos durante a época do Cartel de Medellín. Vilões sérvios durante a Guerra dos Balcãs. Nenhum dos dois teve muito sucesso ou durou muito tempo, talvez porque nem colombianos nem sérvios eram grande ameaça aos USA ou ao mundo, e alguns americanos mal sabiam onde ficava a Sérvia ou a Colômbia. Perdidos como cegos em tiroteio, os roteiristas sempre podiam tirar da cartola os eternos Nazistas, é claro, mas nem todo filme pode ser sobre a II Guerra Mundial. Restavam os palhaços assassinos do espaço sideral, ou então os terroristas muçulmanos.



terça-feira, 6 de julho de 2010

Eles vivem!

Não sei se alguém lembra do filme "Eles vivem" (They Live), clássico dos anos 80 de John Carpenter. Dá pra ver completinho no You Tube, com legenda em português e tudo mais. Em linhas gerais, a história era sobre um sujeito que descobria que uma elite de alienígenas estava na Terra e controlava secretamente o planeta, enviando mensagens subliminares através da mídia. Tais mensagens induziam ao consumismo e à passividade e (assim como o rosto dos alienígenas) só podiam ser vistas com óculos especiais.

Pois bem. Parece-me que vivemos uma situação parecida, só que as mensagens não são subliminares, mas bastante diretas, e não induzem tanto ao consumismo quanto a uma visão (neo)marxista do mundo. É impossível escapar aos seus sinais. Assistam por exemplo a este estranho anúncio da Rede Globo sobre a violência, que parece saído da cartilha do PT. Ué, mas a Globo não era porta-voz das elites malvadas? (De fato. Hoje as elites malvadas são todas progressistas).

É difícil escapar à influência das idéias progressistas, pois não há um único meio que não as divulgue, de livros infantis gays a romances a filmes a telenovelas. As mensagens, às vezes, são sutis. (Notem por exemplo como a Mulher Maravilha, em seu novo uniforme, abandona as cores da bandeira americana, para tornar-se mais "universal"). Outras vezes, são mais descaradas, como em qualquer filme brasileiro. (Somos mais toscos do que os americanos, não sabemos fazer propaganda subliminar muito bem).

Porém, pensando melhor, eu nem diria que tais idéias são "esquerdistas" ou mesmo "progressistas". Tratam-se simplesmente de mentiras deslavadas, com a única intenção de irritar e confundir. Quer dizer, será que alguém em sã consciência realmente acredita que "a dominação dos homens sobre as mulheres e dos ricos sobre os pobres" são formas de violência equivalentes a ter o filho morto com um tiro na testa em uma esquina por causa de um relógio ou um par de tênis?

E, no entanto, as mensagens continuam, dia e noite, sem parar. O que fazer para acabar com esse vendaval? Uns dizem que é impossível, e que devemos aguardar pacientemente o crash do sistema (as idéias progressistas têm um único inconveniente: não funcionam na prática) para, aí então, recomeçar do zero. Outros afirmam que a Internet e outros meios de informação alternativos seriam o caminho. Mas, com o Estado querendo controlar cada vez mais a Internet, talvez nem isso seja possível.

Não há escapatória. Eles vivem e estão entre nós. Obedeça!

terça-feira, 29 de junho de 2010

O mundo freak das celebridades

A filha de Warren Beatty decidiu que vai virar um homem e chamar-se Stephen. Segue a onda da filha de Cher, que já virou um homenzarrão, bem robusto até.

Isso importa? Não muito. Mas as celebridades são "formadoras de opinião". O que elas fazem hoje, seu filho vai poder querer fazer amanhã.

O problema é que o mundo em que as ditas "celebridades" habitam é um mundo diferente do mundo normal. É um mundo de sexo, drogas, roquenroll, botox na veia (na "véia"), mansões milionárias e divórcios bilionários.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Fuga da realidade

O esquerdismo é uma droga. Tanto no sentido metafórico quanto no literal - é uma droga poderosa que faz o usuário fugir da realidade, viciando e causando transtornos mentais. A prova mais recente é esta curiosa reportagem, falando sobre espectadores que caem em depressão e tentam o suicídio após assistir ao filme "Avatar". A razão de sua depressão é que Pandora não existe, e o mundo real é triste, cinzento e desigual.

Eis os comentários de alguns desses espectadores avatardados:

"Ever since I went to see 'Avatar' I have been depressed. Watching the wonderful world of Pandora and all the Na'vi made me want to be one of them. I even contemplate suicide thinking that if I do it I will be rebirthed in a world similar to Pandora and the everything is the same as in 'Avatar.' "

"When I woke up this morning after watching Avatar for the first time yesterday, the world seemed ... gray. It was like my whole life, everything I've done and worked for, lost its meaning. I still don't really see any reason to keep ... doing things at all. I live in a dying world."

"I really wanted to live in Pandora, which seemed like such a perfect place, but I was also depressed and disgusted with the sight of our world, what we have done to Earth."
A mesma coisa acontece com o esquerdismo, percebam. Tudo se faz em nome de uma Sociedade Perfeita, de uma Utopia Igualitária - que, como o planeta Pandora, não existe. Rejeita-se violentamente o mundo real com suas imperfeições em nome de um futuro imaginário, que nunca chega a acontecer.

Por isso o ódio do esquerdismo contra a "ordem burguesa" ou "o capitalismo" ou "a desigualdade" ou "as instituições" é, na verdade, o ódio contra a realidade. O esquerdista, como o drogado, prefere viver no seu delírio do que no mundo real, onde as coisas acontecem de uma forma bem mais frustrante do que em sua utopia igualitária onde todos são felizes e amigos.

Há quem associe essa característica do esquerdismo com o gnosticismo. Não sou especialista no tema, mas aqui há uma longa discussão sobre essa possibilidade, a partir das idéias de Eric Voegelin.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quem gosta de filme de pobre?

Ao ler recentemente uma matéria sobre "Linha de Impasse", fiquei me perguntando uma coisa. Quem é o público-alvo destes filmes brasileiros, sempre centrados nas classes baixas? Afinal, pobre não gosta de assistir filme sobre gente pobre, e mesmo que tivesse dinheiro para ir ao cinema não assistiria. Mas rico tampouco gosta de ver filme de pobre, pois já basta ter que aturar mendigos e pivetes na entrada do Multiplex. E quando o filme, além disso, não tem história, não tem final feliz (na verdade, não tem nem final), é chato e arrastado, garante-se que o público do filme não vai ser muito grande.

Então porque tantos cineastas brasileiros adoram explorar a miséria?

Não me entendam mal. Há "filmes de pobre" bons, como "Ladrões de Bicicleta" ou "Feios, Sujos e Malvados". Mas parece que muitos diretores brasileiros acreditam que não é preciso escrever um roteiro, basta mostrar gente pobre sofrendo na tela, e está ganho o prêmio em Cannes, Berlim, ou, se não der, ao menos no Festival de Araraquara. Nem vou fazer uma resenha sobre "Linha", pois a resenha que eu ia fazer já foi feita aqui:

Para Walter Salles e Daniela Thomas ninguém presta, só eles. Nem os personagens principais escapam da sina criminosa que parece se abater sobre a humanidade. A diferença é que seus erros são justificados pela velha lenga-lenga de que a sociedade e as circunstâncias os obrigaram a errar. Se uma mulher sem condições de criar uma criança engravida da quinta, a culpa é da sociedade. E a maldita sociedade, representada pela patroa, não compreende isso. Se um jovem resolve roubar, não se trata de desvio de caráter, são as circunstâncias e as dificuldades que o levaram a cometer seus crimes. Se outro usa drogas, só pode ser porque foi influenciado pelos amiguinhos burgueses, ele é só uma vítima. A culpa é sempre dos outros.

Não acho que a miséria deva ser varrida pra debaixo do tapete. Mas esse tipo de discurso não leva a absolutamente nada. A vida de quem realmente está na condição de pobreza não sofre nenhuma melhoria por conta desses filmecos. Aliás, tende a piorar, porque sempre há emprego de dinheiro público nesses projetos. Ou seja, além de se verem explorados na tela, os pobres ainda precisam disputar com cineastas os caraminguás dos nossos impostos.
O problema do cinema brasileiro é que tem muito cineasta que acha que seu ofício é "resolver os problemas do mundo" (ou, vá lá, aliviar a consciência culpada), em vez de entreter ou emocionar o público por uma hora e meia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O caso Polanski

Polanski é com certeza um dos poucos grandes artistas do cinema mundial. Nem digo por "O Pianista", que embora tenha cenas marcantes não é seu melhor filme, mas por seu trabalho nos anos 60 e 70, desde os curtametragens surrealistas que fez na Polônia, "Repulsion" com a jovem Catherine Deneuve (será que ele a traçou também?), à obra-prima "O Bebê de Rosemary", "Chinatown", e finalmente o trabalho talvez mais enigmático, o filme "O inquilino", com Isabelle Adjani (idem à pergunta anterior) e o próprio Polanski como ator.

Todos esses filmes foram realizados antes de sua relação com a jovem Samantha Geimer, cujos detalhes sórdidos podem ser lidos aqui, nas palavras da própria vítima, em uma entrevista trinta anos depois. Os atos de sua declaração à polícia na época do evento, aos 13 anos, também estão disponíveis em algum lugar, basta usar o Google. Mas, resumindo: Polanski a convidou para uma "sessão de fotos", deu-lhe champanhe e ofereceu drogas (Quaalude), e finalmente, levou-a para o quarto e cráu. De todas as formas possíveis. Samantha não resistiu nem sofreu violência física, mas sempre disse não. Tratou-se, claramente, de sexo não-consensual com uma menor de 14 anos. Ou, estupro.

Não, a moça não era virgem, já havia experimentado álcool e drogas, foi sozinha à sessão de fotos com pleno conhecimento da mãe, e perdoou Polanski após um acordo civil em 1997, mas nada disso muda o caráter do crime.

Digamos que Polanski teve uma vida atribulada: passou a infância no Gueto de Varsóvia, e sua mãe morreu em um campo de concentração. Em 1969, no auge da fame e fortuna, sua mulher Sharon Tate, grávida de oito meses, foi brutalmente assassinada em Los Angeles por uma gangue de psicopatas enquanto ele filmava na Europa.

Há um documentário que coincidentemente recém estreou - assisti hoje - sobre o caso Polanski, chama-se "Roman Polanski: Wanted and Desired". O filme, que foi lançado antes da recente prisão na Suiça, tenta ser imparcial, embora tendendo a ser pró-Polanski, já que centra-se muito pouco no crime em si e muito mais no modo em que o juiz, aparentemente de modo irregular, teria melado de última hora um acordo entre a defesa e a promotoria.

(Hoje, nova reviravolta: um District Attorney que aparece no filme afirmou ter mentido no seu depoimento à diretora, dizendo não ser verdade uma conversa que teria influenciado o juiz. Mais lenha na fogueira.)

O mais irônico de tudo é que, se Polanski não tivesse fugido, e tivesse ficado nos EUA até o fim de seu julgamento, provavelmente teria uma sentença bem menor do que a que terá agora (caso seja extraditado). O fato é, graças ao acordo feito, a única acusação que contou no período foi a de ter relações sexuais com uma menor. As outras acusações - estupro com suministração de drogas e bebida a uma menor, perversão e sodomia - não foram nem consideradas. Hoje, provavelmente (fora sodomia, que acho que não é mais crime), ele poderia ser acusado de estupro e morrer na cadeia. E provavelmente é o que acontecerá, se a extradição ocorrer.

Bem, Polanski arriscou. Em vez de passar um par de anos de sua juventude em cana, preferiu fugir, mas agora corre o risco de passar uma melancólica velhice na prisão.

Em virtude de sua obra, tenho certa simpatia por Polanski, certamente mais do que por Michael Jackson e O. J. Simpson, dois notórios criminosos-celebridade injustamente absolvidos. Mas acredito que ele seja culpado, sim, e que é um fugitivo da Justiça, e que cometeu um crime que não pode ser menosprezado. Talvez na França ou no Brasil transar com garotinhas de treze anos não seja crime, mas nos Estados Unidos ainda é, e são bastante rígidos a respeito.

E não, não acredito que os artistas ou as celebridades devam ser isentas da obediência à lei, por mais que Hollywood diga o contrário.

Por outro lado, em um mundo em que um terrorista que matou 287 pessoas é liberado em nome de supostas "causas humanitárias", parece-me um pouco exagerada tanta sanha em perseguir Polanski 31 anos depois por um crime pelo qual a própria vítima já o perdoou. Porém, dura lex, sed lex.


Atualização: um texto bem duro contra Polanski, na geralmente-de-esquerda Salon. E uma defesa, pela autora de Gulag: A History, Anne Applebaum. E o leitor, o que pensa?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Gran Torino e a imigração


Não sei se o filme "Gran Torino", de e com Clint Eastwood, já estreou no Brasil. Talvez tenha um título diverso, como "Gran Torino - Comunidades em conflito" (a moda hoje no Brasil é manter o título original e acrescentar algum subtítulo explicativo, tipo "Milk, a voz da igualdade", ou "Pulp Fiction, tempos de violência", etc).

A pedido do Nei, comento aqui alguns aspectos do filme que achei interessantes. Vou tentar não revelar aspectos da trama para aqueles que não viram o filme. O filme, como todos sabem, ou não, fala de um americano durão e supostamente xenófobo e racista que vive em um bairro decadente onde agora moram apenas imigrantes. Um garoto vietnamita (ou hmong) tenta roubar seu carro "Gran Torino" como rito de iniciação em uma gangue. A partir daí, estabelece-se uma relação entre os dois, e Clint Eastwood (ou seu personagem no filme) o ensina a trabalhar, a ser responsável, etc. É, de certa forma, uma fábula sobre a assimilação.

Não acho que seja um filme contra a imigração, e nem mesmo diria que é um filme necessariamente conservador, ainda que fale de valores supostamente conservadores. Mas não é anti-imigração, ao contrário, é até liberal, quase esquerdista nesse aspecto. O filme trata a questão da imigração como algo inevitável, e sua mensagem é, no fundo, de aceitação do diferente. Os que saem pior representados no filme nem são os imigrantes, mas os filhos americanos do Clint Eastwood - abobalhados obamistas que renegam o pai, isto é, os valores tradicionais americanos. É, de certa forma, um filme sobre o que os EUA foram e o que são.

Hoje a palavra "xenofobia" é excessivamente usada. Hoje é "xenófobo" até quem meramente ousa mencionar a palavra imigração. Basta alguém sugerir que deva haver algum tipo de controle sobre quem entra e sai no país, e pronto - já virou xenófobo. A Suiça inteira, nos últimos dias, virou um país de xenófobos. Curiosamente, nos EUA, e acredito que na Europa também, há inumeravelmente mais ataques realizados por imigrantes ilegais contra brancos nativos do que crimes de brancos nativos contra imigrantes ilegais. Não seriam esses crimes também "xenofobia" ou hate crimes?

É sintomático, no entanto, que no filme tenha-se escolhido membros da comunidade asiática para representar os "diferentes". A comunidade asiática é, em geral, bem-vista. São pessoas inteligentes e esforçadas. Aqui na Califórnia há muitos asiáticos. Na universidade, são alguns dos melhores estudantes. Se o imigrante fosse latino ou árabe, acredito que o filme ficaria mais forçado. Se fosse brasileiro então, ficaria definitivamente inverossímil, ao menos nestes tempos que correm.

Talvez o filme, no fundo, seja uma metáfora sobre um processo mais amplo, que seria a transição de pólo econômico e cultural mundial da América e Europa para a Ásia. Embora o triunfo da Ásia esteja ainda longe de acontecer, a verdade é que hoje basicamente os EUA pagam aos chineses para construir praticamente tudo o que é feito no mundo. O filme, não por acaso, é situado em Detroit, cidade antigamente famosa pela sua indústria automobilística. A época do carro "Gran Torino", no começo dos anos 70, marcaria seu auge e início de decadência. Hoje a indústria automobilística americana está em uma crise tremenda, com as três grandes montadoras de pires na mão.

Uma curiosidade: o roteirista do filme, Nick Schenk, trabalhava como caminhoneiro e escrevia o roteiro nas horas vagas. Talvez isso explique por que, com todos os seus possíveis defeitos, é um roteiro que soa mais autêntico do que grande parte dos filmes atuais de Hollywood. Apesar de ter sido um sucesso de público, fazendo mais dinheiro do que os dois maiores vencedores do Oscar, Slumdog Millionaire e Benjamin Button, o filme foi totalmente esnobado pela Academia, não recebendo nem uma única nominação - politicamente incorreto demais, talvez.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O pior Oscar de todos os tempos

O cinema mundial está em crise há tempos, mas este ano os candidatos ao Oscar estão particularmente fracos. É filme com mensagem pra lá, Sean Penn e Brangelina pra acolá. Só faltou ter um filme brasileiro concorrendo. Infelizmente a obra-prima do cinema nacional, o filme mais caro de nossa história orçado em 16 milhões de dólares, vai sair só em 2010.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Como ajudar os pobres? (2)

Vale tudo para deixar de ser pobre? Em certos filmes brasileiros recentes nota-se o uso justificado de atos imorais ou não-convencionais por parte de personagens de baixa extração social. Em "Quanto vale ou é por quilo" (2005), sugere-se que o seqüestro é uma boa forma de distribuição de renda. Em "O céu de Suely" (2006), a protagonista rifa o próprio corpo para comprar uma passagem de ônibus para Porto Alegre. Em "Estômago" (2007), um nordestino pobre obtém o sucesso cozinhando carne humana.

Já no filme "O homem que copiava" (2003), de Jorge Furtado, o herói do filme falsifica dinheiro, assalta um banco, mata seu amigo de infância e o pai da sua namorada e finalmente sobe na vida. Mas ele não aparece em momento algum como um personagem "malvado". Todos os seus crimes são justificados pelo roteiro: o protagonista rouba e falsifica por necessidade; o amigo de infância é um traficante de drogas que se vira contra ele; o pai da namorada é um tarado que abusa da menina e portanto merece morrer, etc.

Aí ao ler uma divertida crítica do filme, uma das poucas que encontrei que comenta essa perturbadora amoralidade do protagonista, encontro o seguinte comentário ao final:

Eu vi esse filme. Gostei pra carai!!! O cara tah certo, manu. Se eu tivece a chance de fazer dinhero falso, eu fazia na ora, porra!!! A burgesia me esfola o dia intero, pq é q eu num vo mi vingah? Eu só tenho medo de ir preso, esses coxinha fdp num daum arrego naum, bro. Mais porra, a gente naum tem escola decente, naum tem oportunidade de cresceh na vida, sacoh??? O unico jeito de subir na vida eh assim, na malandragem. Ou entaum virar pagodero ou jogador de futebol. Aih a mulherada cai em cima, neh!!!! Mais quando nois eh pobre assim, nem pensar! E voce aih, querendo da uma de bonzinho. Se liga, ô cuzaum! Vai nas perifa veh como eh a vida de verdade, valeu??

Não sei se é uma paródia, mas acho que representa bem uma certa parcela do Brasil, que cresce adaptando o velho "jeitinho brasileiro" ao discurso pseudo-(?) marxista em voga.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

James Bond contra a Máfia Gay

Assisti o último film do tal 007, Quantum of Solace. Não percam seu tempo, o filme é medíocre, mesmo para quem - não é meu caso - gosta do Daniel Craig.

O vilão é um nerd panaca, tão assustador quanto uma professora de jardim de infância; falta uma cena de abertura impactante e o filme aliás tem uma série de perseguições pouco emocionantes, variando apenas o meio de transporte: carro, barco, avião. O roteiro não faz sentido algum: aparentemente o vilão, sob a cobertura de uma falsa ONG ecologista, organiza um golpe na Bolívia (contra Evo Morales?) para instalar uma junta militar de direita, roubar a água do deserto e revendê-la a preços extorsivos a não sei quem. O clímax dá sono. James não come a Bond girl. Não tem nenhum gadget. Bond não fala uma única vez "My name is Bond, James Bond."

Mas o que eu queria falar aqui era sobre a máfia gay de Hollywood.

Como se sabe, antigamente os judeus dominavam Hollywood. Na época dos grandes estúdios, nos anos 40 e 50, os produtores Samuel Goldwin, David O. Selznick e outros mandavam e desmandavam. Curiosamente, queriam apenas ganhar dinheiro e não tentavam colocar mensagens nos seus filmes; os vários filmes tratando do Holocausto nazista começaram a ser realizados tempos depois. Samuel Goldwyn famosamente disse que "se eu quisesse mandar uma mensagem, usaria um fax". (Bem, a frase original é um pouco diferente; na época não existia o fax).

Hoje os judeus continuam produzindo, mas já não dominam nem na crença popular; dizem que quem manda mesmo em Hollywood hoje é a máfia gay. E a máfia gay não quer ganhar dinheiro, quer é vender pontos de vista, mesmo que os filmes não façam sucesso. (Todos os filmes contra a guerra do Iraque encalharam nas bilheterias, mesmo assim foram produzidos às dezenas).

Os gays representam apenas entre 2% e 5% da população, no entanto na indústria do entretenimento eles ocupam uma proporção muito maior. (Na indústria da moda, então, devem corresponder a uns bons 90%.)

Existe mesmo uma máfia gay? Bem, segundo Michael Ovitz, existe sim. Todo sitcom televisivo que se preze tem pelo menos um personagem gay. A temática gay está cada vez mais presente nos filmes de Hollywood, e onipresente na televisão. Os atores mais em voga ultimamente - Leonardo di Caprio, Tom Cruise, Brad Pitt - são meio afeminados ou, pelo menos, metrossexuais.

Outra preocupação dos gays é com o Politicamente Correto. De fato, quem impõe a cultura "politicamente correta" são, ao menos segundo este blogueiro, principalmente as mulheres e os gays. Segundo ele, em áreas do entretenimento onde não há muitas mulheres nem gays, como no hip hop, o "politicamente correto" não impera.

Mas no cinema e na TV, sim. Este ano a série 24 parece ter sido remodelada pelos roteiristas para a Era Obama (vem depois da Era de Aquário). Agora Jack Bauer, em vez de lutar contra terroristas nos EUA, vai para a África ajudar as criancinhas famintas. Depois será julgado por "tortura" em Washington.

E o James Bond gay, quando é que virá?


Atualização: Dez pensamentos politicamente incorretos de Victor Davis Hanson.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Betty Boop para presidente



Um velho desenho animado de 1928 representa perfeitamente a eleição de 2008: Betty Boop (Sarah Palin?) contra "Mr. Nobody"(Obama?).

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Batman é de direita?

Há uma discussão na blogosfera sobre se o novo Batman (The Dark Knight) seria um filme de direita. Há até quem compare Batman com George W. Bush. A discussão é irrelevante, primeiro porque a boa ficção deve ir além dos meros posicionamentos políticos em voga no momento, e segundo porque todo os super heróis são de direita. Se fossem de esquerda, não combateriam o crime, mas tratariam de dialogar com os criminosos ou apaziguá-los, de inscrever o Coringa em um curso de malabarismo e arte-terapia para regenerá-lo para a sociedade, ou de resolver o problema, não do crime, mas da pobreza e da desigualdade social, que como todos sabem é a origem de todo mal e toda violência.

O filme, de qualquer modo, faz referências bastante explícitas à questão da guerra contra o terrorismo, e ressalta pelo menos duas coisas: 1) apaziguar os vilões é uma escolha cômoda, mas não funciona, pois termina-se estando sempre à mercê do mal. 2) a luta contra os vilões gera inevitáveis sacrifícios, e por causa disso o justiceiro é vilipendiado por aqueles mesmos a quem auxilia (e aqui a comparação feita com os EUA e com George W. Bush).

De fato, a primeira coisa que chama a atenção no filme é o realismo da sua cenografia. Não estamos nos cenários góticos de Tim Burton ou dos quadrinhos. Este é o mundo real: se o herói não usasse uma estrambótica fantasia de morcego poderia ser mesmo um thriller noir. Também isso aproxima o filme da realidade diária da guerra contra o terror.

Pedro Sette Câmera, no blog O Indivíduo, faz ainda algumas interessantes observações sobre o filme e sua visão sobre o Estado de Direito. Segundo ele:

Na verdade, tanto o Coringa quanto o Batman são conservadores. As “ideologias” dos personagens são nuances de conservadorismo. O Coringa acha que a natureza humana é má; ele só quer empurrá-la mais ainda para o mal. O Batman acha a mesma coisa, mas gostaria que o sistema policial e jurídico fosse suficiente para combater o mal; ele se ressente de ser necessário, em vez de querer ficar aumentando o Estado.

Filme de direita ou não, é bom. Bons atores, bom roteiro, suspense, ação, emoção. Um filme de ação como há tempos não se via, isto é, com alguma inteligência.


Atualização: Na verdade, os X-Men são de esquerda, pois são a favor dos gays e outras minorias. Hulk é claramente de direita raivosa. O Surfista Prateado é de esquerda e a favor da liberação das drogas. O Homem-Aranha é PSDB desde criancinha, sempre em cima do muro.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Indiana Jones e os Comunistas de Cristal

Vi no outro dia o último Indiana Jones. Não achei tão ruim quanto dizem, aliás até me diverti. É verdade que não está exatamente à altura dos outros, o roteiro não fecha, tocam música mexicana no Peru e Indiana diz ter aprendido quechua "com Pancho Villa", tem cenas inverossímeis ao ponto do absurdo, outras um pouco patéticas ou infantis, demasiado CGI e a eterna (e chata) fascinação de Spielberg com "ETs" também está meio deslocada. Mas basta ver o filme sem qualquer pretensão de seriedade, ou sem expectativas de que seja um novo "Caçadores da Arca Perdida", ou de recuperar a magia perdida da infância, e tudo irá bem.

Mas cito o filme por outra razão. O filme tem lugar nos anos 50 (a própria fotografia meio ao estilo Technicolor reflete isso). Estamos em plena Guerra Fria, os russos são os vilões, a corrida nuclear e espacial está no ar, e ocorrem algumas coisas interessantes.

Enquanto Spielberg, como bom Democrata, faz uma nem tão sutil crítica ao "macartismo" em algumas cenas, o paradoxal é que, bem, os agentes soviéticos infiltrados e os vilões comunistas da KGB realmente existem e são os vilões do filme. Ou seja, desde esse ponto de vista, a julgar pelo último "Indiana Jones", McCarthy estava certo: a América estava cheia de comunistas, até mesmo embaixo da cama, e todo cuidado era pouco.

Em uma das cenas cruciais do filme, a vilã (interpretada simpaticamente por Cate Blanchet com uma peruca cafona, e possível referência à Ninotchka de Lubitsch/Wilder) sonha com uma "arma telepática" com a qual se infiltrará na mente dos americanos e fará "com que pensem com nossas idéias, e nem mesmo saberão que estão pensando com nossas idéias, nem poderão imaginar que somos nós que estamos invadindo e controlando seus pensamentos".

De fato, o plano funcionou. Ao longo das décadas, os comunistas russos e seus simpatizantes locais impuseram as suas idéias ao grande público americano, não através da telepatia mas da mídia, das artes, da escola e da universidade. Os autores e propagandistas tiveram sucesso e hoje as idéias esquerdistas são praticamente aceitas como "a verdade inquestionável"; Obama, o candidato mais à esquerda da história das eleições americanas, tem muitos amigos marxistas que militavam nos anos 60, e grandes chances de ser eleito presidente; é moeda corrente entre grande parte da própria população americana e mundial que "os verdadeiros vilões do mundo são os EUA e o capitalismo".

O vídeo abaixo, de um ex-agente soviético real, explica um pouco como isso foi feito:



P.S. O Partido Comunista russo não gostou do filme, e ameaçou "bater" em Harrison Ford se ele puser os pés em Moscou. Curiosamente, foi o primeiro filme da série Indiana Jones a ser exibido nos cinemas na Rússia, os outros (pré-1989) tendo sido censurados pela URSS...

terça-feira, 17 de junho de 2008

Da série "Filmes que nunca vou ver"

Título: "A questão humana" (La question humaine, França, 2007)

Sinopse: "O filme do francês Nicolas Klotz mostra o mundo capitalista como um sistema perverso. As grandes corporações, com seus sinistros procedimentos de seleção de pessoal e seus métodos de controle psicológico, demonstram que o regime nazista continua vivo e mascarado dentro de um liberalismo sanguinário e desumano."

Duração: 143 minutos.

E o filme ainda por cima tem cenas de erotismo gay.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Um filme

Ontem não tinha nada para fazer e decidi finalmente ver o "Munich" do Spielberg. Parafraseando aquela piada maldosa, o Spielberg quando não caga na entrada, caga na saída. Perdão pela expressão, mas, francamente - depois de ter estragado um conceito interessante do Kubrick em A.I. com um filme chorumela, ele ataca novamente: Munich até que tem cenas boas e poderia ser um ótimo thriller de espionagem se simplesmente se limitasse a fazer o seu trabalho. Mas aí Spielberg (ou o roteirista Tony Kushner) estraga tudo com um terço final chato, longo e irritante no qual explora a "ambiguidade moral" e o "sentimento de culpa" do personagem, tenta "mostrar os dois lados da questão", inclui uma cena de sexo gratuita intercalada com o massacre realizado pelos terroristas, não conclui o drama e deixa por isso mesmo.

Para piorar, o filme termina com um plano mostrando as torres gêmeas, dando a entender que o "ciclo de violência" continua. Eis o problema dos esquerdistas: não conseguem fazer um filme que não tenha alguma lição de moral "progressista" no final. O que o atentado às Torres Gêmeas realizado pelo grupo wahabista sunita Al-Qaeda tem a ver com a caçada israelense aos assassinos de seus atletas nacionais em Munique? Bem, talvez que os constantes atentados contra Israel e os atentados contra os EUA fazem parte da mesma jihad global contra os infiéis, mas não acho que era isso que Spielberg queria dizer.

Evidentemente, quase toda a história do filme foi absolutamente inventada; ninguém sabe como realmente ocorreram os assassinatos. Os agentes do Mossad certamente não ficavam chorando pelos terroristas que matavam, ou teriam se dedicado a outro trabalho mais gratificante. O informante mágico "Papà" e Louis são claramente delírios de Kushner, um judeu esquerdista e gay novaiorquino, mais conhecido como o autor de "Angels in America" (outro trabalho com moralizações esquerdistas de dar dó).


Alguna acharam que o filme faz "equivalência moral" entre os terroristas e os agentes do Mossad. É verdade, mas isso nem me incomodou tanto. Está até certo mostrar os tais "dois pontos de vista". O problema é que no fim das contas o filme de Spielberg parece não ter ponto de vista algum, fora a crítica ao "ciclo de violência", e termina como que no meio, sem concluir nada nem decidir nada.


O poeta Robert Frost disse certa vez que um liberal (na acepção americana do termo, ou seja, aqueles que hojem se auto-denominam "progressistas") - enfim, o poeta disse certa vez que um "progressista" é um sujeito tão mas tão imparcial que não consegue nem tomar o próprio lado numa briga.

No cinema, como na vida, o povo não gosta de um herói indeciso que fica se torturando. Já pensaram se o Capitão Nascimento a cada tortura ficasse pensando, "Xi, será que o tal do saco é moralmente ético ou não?"

O povo gosta é do herói dando porrada nos vilões.

O povo gosta é do agente bonzinho mandando bala no terrorista malvado.

O povo gosta de Charles Bronson.

O povo gosta de Clint Eastwood.

O povo gosta de Bruce Willis.

Se o filme não tivesse esse chato terço final, teria feito muito mais sucesso.

(Aqui uma crítica interessante ao filme, escrita por uma atleta israelense que conhecia os atletas assassinados e por pocuo não esteve nas Olimpíadas de 72 também).

domingo, 27 de abril de 2008

Por que os artistas são de esquerda?

Leio um artigo sobre a recente visita do cineasta e músico Emir Kusturica à Venezuela com a sua banda, "The Non Smoking Band". Gosto de alguns de seus filmes. Mas aí leio isto aqui:

Estoy aquí para ver en pocos días un proyecto con el que estoy de acuerdo. Creo en la inclinación humana hacia la justicia social. Este país es lo opuesto a la visión fatalista del mundo, en donde todo está orientado hacia lo material y los objetos. Quería estar unos días inmerso en un proceso social que refleja mis ideales.

É sempre um pouco decepcionante ler entrevistas com artistas, pois cedo ou tarde você se deparará com alguma bobagem que o faz repensar tudo o que achava do sujeito. É especialmente grave no caso de Kusturica, que é bósnio e portanto viveu sob o regime comunista de Tito na Iugoslávia, e incluso chegou a fazer críticas ao regime em seus filmes. Poxa, será que não aprendeu nada? Como alguém que passou pelo comunismo pode acreditar na mesma lorota de novo? Enquanto Kusturica saudava o regime chavista, 45% dos alimentos não podiam ser encontrados nos supermercados da Venezuela, e nem mesmo nos mercados populares estatais...

No mais, é um pouco triste que hoje em dia parece que todo cineasta ou escritor tenha que afirmar em algum momento que acredita em justiça social, ecologia, direitos dos gays, pacifismo... Pior se o sujeito faz um filme que é considerado por alguns como "de direita", como o José Padilha: tem que passar a vida inteira se justificando e afirmando que não, que o filme é "de esquerda"... Será que tem alguma cláusula que indique que, pra ser artista hoje, o sujeito tem que ser de esquerda e achar o socialismo maneiro? Será que, se vivessem hoje, Dante, Shakespeare e Cervantes teriam que se pronunciar a respeito dos últimos acontecimentos políticos e sociais, e afirmar que acreditam em "justiça social", sob pena de serem ostracizados no mundo artístico? (Bem, talvez por isso não haja hoje nenhum Dante ou Shakespeare - quando a arte é atrelada a "mensagens" ou discursos políticos, sempre se rebaixa).

Um dos poucos que vão contra essa onda esquerdófila é o Michel Houellebecq, e, embora eu não tenha lido nenhum de seus livros, tenho certa admiração por suas entrevistas totalmente anti-politicamente corretas...