quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Por que cara, se feia? Por que feia, se cara?

"Se coxa, por que bonita? Se bonita, por que coxa?" perguntava-se Brás Cubas. A mesma pergunta nos fazemos nós ao observar muitos artefatos da arte moderna, na qual um urinol, uma tela branca ou uma vaca em formol podem custar milhões. Por que cara, se feia? Por que feia, se cara?

Theodore Dalrymple, em um belo novo ensaio, responde a essa misteriosa pergunta-tostines.

A resposta é que a arte de hoje é acima de tudo especulação financeira de um clube fechado no qual ninguém quer passar por otário.

Tomando como exemplo a recente exposição das obras de Jeff Koons em Versailles, Dalrymple observa que o principal objetivo da mostra é manter o alto preço dos trabalhos:

A mera exibição do trabalho em um lugar como Versailles serve para manter seu valor (monetário) alto, para evitar àqueles que investiram na obra o embaraço de não apenas serem descobertos como pessoas sem bom gosto, mas também - ainda pior nas circunstâncias - nenhuma capacidade de investimento financeiro.

Theo vai adiante e observa que hoje a arte não busca mais a "beleza" (aliás, esta é desprezada como algo burguês), mas sim "originalidade". Para a maioria dos artistas contemporâneos, a ênfase é em ser "original", ou seja, fazer algo que nunca tenha sido feito antes, e de preferência chocante e escandaloso, ao invés de fazer algo "bom". O artista Andrés Serrano expôs um crucifixo mergulhado em urina. De fato, ninguém antes havia feito isso: é "original". Mas é arte?

Essa ênfase na originalidade sobre a qualidade tem por conseqüência que, nas próprias escolas de arte atuais, o treinamento formal - saber pintar e desenhar - termina sendo muito reduzido. Quantos supostos "artistas" se formam nessas escolas e mal saberiam desenhar um vaso de flores? Eu conheci muitos formados no Instituto de Artes da UFRGS que mal sabiam segurar um pincel. Mas que importava? Afinal, realizavam "instalações"...

Mas mesmo o conhecimento da História da Arte é limitado entre os estudantes atuais. Afinal, se o objetivo principal é a "originalidade", é "se expressar a si mesmo", então para que estudar em detalhe os velhos mestres? Para copiá-los? Theodore reproduz o diálogo que teve com uma estudante de artes. Ele lhe pergunta o que estudaram, e ela responde:

"No primeiro ano estudamos a arte africana. Mas agora no segundo ano estamos estudando a arte ocidental."
Eu perguntei qual aspecto da arte ocidental estavam estudando.
"Roy Liechtenstein," respondeu.

Não apenas há o mesmo peso dado à "arte africana" que aos séculos de arte ocidental, como os artistas ocidentais estudados são os fenômenos da arte pop, ao invés dos grandes mestres como Velázquez, Rembrandt, Giotto, etc.

O que dirão de nós os futuros arqueólogos e historiadores, ao estudar nossa bizarra época através dos artefatos artísticos que desenterrarem?

Theodore Dalrymple (na vida real, o médico Anthony Daniels) é um dos maiores cronistas da decadência ocidental. Além desse artigo sobre a arte moderna, ele acaba de publicar um outro aqui sobre a incrível facilidade que temos em propor soluções abstratas para "salvar o mundo", contraposta à dificuldade que temos em resolver problemas concretos bem mais modestos.

Leiam ambos.

9 comentários:

Pax disse...

Foi falar de arte, ninguém deu bola. Teu blog tem uma missão, ser direitopata, reunir a direitopatia vigente, todos candidatos à intenação com Dr Simão Bacamarte.

Aprende desengonçado.

Mr X disse...

Pois é, que saco. Esperava mais sucesso deste post. :-/ Ninguém mais dá bola pra arte mesmo.

A arte morreu meeesmo.
:-(

Culpa dos malditos esquerdistas! ;-) >:-]

Anônimo disse...

Darlymple é genial mesmo.

E a mala desse tal Pax não sai daqui. O cara tem um tesão incubado por você, X. Cuidado!

Chesterton disse...

Pax, olha o aquecimento global

http://www.20minutos.es/noticia/441652/0/tiempo/frio/nieve/

Anônimo disse...

Interessante essa tese do "tesão incubado", levantada pelo anônimo. Ele, Pax, a tem, também, pelo Idelber, o corneteiro esquerdista. Será um caso de boiolagem sem conotação ideológica, haja visto que o mesmo considera Mr. X da direita? O amor é lindo, gente, sem fronteiras, sem ideologias.

Fabio Marton disse...

Dalrymple não só tem seu mérito intelectual próprio como é um mestre na arte da generosidade, nunca ofendendo ao leitor que discorde dele. É um grande exemplo pra quem costuma chegar chutando a porta - falo de mim mesmo. É preciso aprender com ele se não se quer ficar pregando eternamente aos conversos.

sticker disse...

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Anônimo disse...

Blog interessante. Discussão relevante e necessária.
Apesar disto, não posso deixar de comentar...que torradeira legal! Eu adoraria levantar de manhã e comer um "pão artístico sorridente"...afinal a arte ainda deve possuir um propósito de simplesmante causar sensações agradáveis!
Abraços, Jaque Betat.

tatti disse...

Sem querer parecer conservadora ou anti democrática, mas a arte ocidental que realmente importa pela sua qualidade foi produzida em períodos aristocráticos para membros da aristocracia.
A justificativa é simples, uma educação aristocrática deveria ser humanista, e dava condições para que essas pessoas desenvolvessem um senso estético e uma compreensão total das obras.
Burgueses endinheirados podem ter muito conhecimento sobre finanças e negócios, mas dificilmente entenderão um contexto mitológico, uma inscrição em latim, uma simbologia religiosa e outras coisitas mais que fazem parte do que se chama de período clássico.
O que ocorre hoje, é que a arte se adaptou ao mercado, e entendeu que o seu novo público está mais interessado em status e "marketing" do que em cultura