quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mark Twain na Terra Santa

Estou lendo trechos de "The Innocents Abroad", livro com relatos de viagens do então jovem Mark Twain à Europa e à Terra Santa. O ano era 1867; a Palestina estava sob o controle do Império Otomano.

O mais refrescante é ler um livro que seja tão pouco politicamente correto. Twain não hesita em chamar os muçulmanos de "selvagens" e indolentes. Não que ele fale mal apenas dos muçulmanos, é claro. Os italianos são desorganizados e gananciosos; os franceses são ignorantes e esnobes; os gregos são mentirosos e ladrões; os armênios são insolentes; os judeus são narigudos. Nem os turistas americanos que o acompanham escapam: são em grande parte mal-educados que tentam levar pedaços de monumentos como souvenirs.

A Palestina (não, não é habitada pelos fantomáticos "palestinos" que só surgiriam em 1967) é vista por Twain como uma terra desolada e inóspita. Quase só há deserto, ruínas e decadência. Eis sua descrição de Jerusalém, onde viviam na época menos de 14 mil pessoas sob controle dos turcos:
A população de Jerusalém é composta de Muçulmanos, Judeus, Gregos, Armênios, Sírios, Coptas, Abissínios, Católicos Gregos e um punhado de Protestantes. Abundam remendos, desgraça, pobreza e sujeira, esses sinais que indicam a presença de uma administração muçulmana com maior clareza do que a própria bandeira da lua crescente. Leprosos, aleijados, cegos e idiotas atacam você em cada esquina.(...)
Os turcos e árabes revelam-se intolerantes com os forasteiros cristãos:
Como odeiam os Cristãos em Damasco! - e em quase todo o Império Otomano. Fere a minha vaidade ver esses pagãos recusar-se a comer comida que tenha sido preparada para nós, ou de um prato em que nós tenhamos comido; ou beber de um cantil que nós tenhamos poluído com os nossos lábios Cristãos, a não ser filtrando a água com um pano ou uma esponja! Nunca detestei os Chineses tanto quanto estes decadentes Turcos e Árabes, e ficarei feliz quando a Rússia declarar guerra a eles novamente.
E algumas páginas mais adiante:
Os Muçulmanos observam o Portão Dourado com um olhar protetor e ansioso, pois seguem uma tradição que diz que quando ele cair, também cairá o Islã e com ele o Império Otomano. Não fiquei triste ao perceber que o velho portão estava ficando algo enferrujado...
Não sei se o tal portão caiu; sei que o Império Otomano caiu, mas não caiu com ele o Islã, é claro. E os dois defeitos indicados por Mark Twain seguem bem vivos: a incompetência administrativa somada à suprema arrogância em relação aos "infiéis".

Quanto aos judeus, Twain compara a vida superior que levam na América em relação à sua vida degradada nos guetos da Europa e nas Arábias:
Os Judeus, lá [na América], são tratados como seres humanos e não como cães. Podem trabalhar no emprego que desejarem; podem vender o que quiserem; podem abrir farmácias; podem praticar a medicina entre os Cristãos; podem até apertar a mão de Cristãos se assim o desejarem; podem associar-se com eles assim como um ser humano pode se associar com qualquer outro ser humano; podem viver em qualquer parte da cidade que desejarem; (...) neste mesmo instante, nesse curioso país, um Judeu pode votar, ser candidato a um cargo, sim, erguer-se na rua e expressar a sua opinião sobre o governo se não o considerar bom! Ah, é maravilhoso.
Chama a atenção o aspecto religioso do passeio, o interesse por locais citados na Bíblia e até a constante citação de passagens bíblicas (Mark Twain mais tarde iria criticar bastante a religião cristã, ou, de fato, todas as religiões; alguns dizem que teria se tornado ateu no fim da vida, embora não conste que tenha jamais se declarado tal e tenha morrido como um presbiteriano).

Enfim; um livro interessante nestes tempos em que a Terra Santa volta a ser o centro das atenções. Está todo disponível online.

Atualização: O tal Portão Dourado de que fala Mark Twain é um dos oito portões da Cidade Antiga em Jerusalém, e o único que permanece fechado até hoje. Para os judeus é o Portão da Misericórdia; para os cristãos é o Portão Dourado; para os muçulmanos é o Portão da Vida Eterna.

O portão tem uma história fascinante. A tradição judaica diz que a Presença Divina costumava aparecer ali, e que é por ali que o Messias dos judeus entrará quando chegar a Jerusalém. Foi para impedir esse retorno que os muçulmanos, desde o tempo de Suleiman I em 1541, cobriram o portão com pedras e construíram um cemitério na entrada: acreditavam que o Messias, sendo um Kohen, não poderia passar por ali (Kohens ou Cohens seriam os descendentes diretos de Abraão). No entanto os muçulmanos estavam errados, pois um Kohen pode atravessar cemitérios de não-judeus.

Hoje sob administração de Israel, o portão permanece fechado, e assim permanecerá até a volta do Messias, que dada a volatilidade da situação atual pode ocorrer a qualquer momento.

O que teria pensado Mark Twain vendo a Terra Santa hoje após a fundação do Estado de Israel? Acredito que ficaria feliz ao ver o incrível desenvolvimento desta terra inóspita. De fato, os sionistas hoje tão odiados pela esquerda fizeram o deserto florescer. Literalmente. Mark Twain no fundo era bastante pró-judaico e certamente teria gostado de ver a Terra Santa livre do domínio dos malvados turcos.

15 comentários:

Pax disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pax disse...

Quer ler um bom contraponto pra discutir o assunto?

Aqui ó

http://antoniocicero.blogspot.com/2008/06/sobre-identidade-e-violncia.html

Chesterton, juro que não entendi você acusar o Cicero de relativista. Mostre-me onde.

Stefano disse...

Hmm....Acho que Mark não era lá muito multiculturalista...

Valeu a dica!

Chesterton disse...

Pax, lá no O que é um Intelectual, respondi lá.

Stephano, graças a Deus, certo?

Chesterton disse...

Pax, como eu comentei que o PD é uma criança grande carente de atenção , talvez o Olavão tenha se penalizado dele e começado a comentar no blog dele. Não é nada, não é nada, é um tremendo upgrade para o PD.

Mr X disse...

Acho que o PD ainda vai aprender muito com o Olavão. :-)

Chesterton disse...

Tomara...outro aqui que manda bem

http://necplusultra.blogspot.com/2008/11/me-inclua-fora-dessa.html

Chesterton disse...

mr x, tem um e-mail disponível?

Mr X disse...

tem, o email do Mr X é orbister@gmail.com

Mas como o Pax sabe não costumo responder muito. :-D

Stefano disse...

(Graças a Deus, Chesterton!)

Chesterton disse...

vou te mandar um presente secreto

Chesterton disse...

só confirme aqui se chegou

J.Wollvsttaven disse...

Caro Mr. X,

Só uma correção, os Kohanim (plural de Cohen, Kohen, Kaplan) que significa Sacerdotes, descendem diretamente de Aharon (Aarão)irmão de Moshê. falta dizer, que todos os judeus (nascidos de mãe judia), descendem diretamente de Avraham.

Bom trabalho no blog, quase não comento, mas estou sempre por aqui.

Grande abraço!

Mr X disse...

Ola JW,
Ops! Valeu pelas correcoes, vou arrumar. Shalom.

Diogo disse...

Caro X, não sei quais suas razões para defender tanto Israel e os israelenses.

Decerto tem motivos nobres, eu, de minha parte, acredito também que o mundo fica bem melhor com um Estado judaico forte, emprendedor e iluminado - em contraponto ao obscurantismo islâmico.

Porém, não me passa despercebido que a mesma ojeriza que, talvez, sinta pelos muçulmanos, Hitler sentia pelos judeus, os ciganos e os comunistas - estes, os "bárbaros" bolcheviques.

Calma. Não quero fazer comparações precipitadas, e, nem você, acredito, é a favor do extermínio de povo algum - isso é coisa de terrorrista fanático.

Somente gostaria de, pretensamente, saber qual a sua opinião para a solução, finalmente, desse problema?