sexta-feira, 20 de junho de 2008

Mitologia da corrupção

Existe um mito de que o brasileiro não gosta de corrupção. Lamentavelmente, isso não é verdade. Os políticos são o mero reflexo da população. Lula é um brasileiro bastante típico. "Eu não sabia de nada", diz Lula, e o brasileiro sorri. Pois é justamente a resposta que o brasileiro costuma dar quando pego em algum engodo ou qualquer tipo de atitude condenável: fazer-se de trouxa. Não sei, nunca vi, não conheço, ah é, o senhor acha?

A economia para o empresário vai razoavelmente bem. Ou o sujeito é pobre mas ganha bolsa-esmola. Reclamar do quê? De mais a mais, o roubo de milhões do erário público é uma coisa abstrata, meros números incompreensíveis. Entendo porque o roubo de oito reais para comprar tapioca com os tais "cartões corporativos" causou mais repercussão do que o incrível e espantoso enriquecimento do Lulinha. Oito reais é uma quantia mais compreensível para o brasileiro pobre, gerando natural indignação: "Porra, nem oito reais você pode gastar do próprio bolso, animal? Se for roubar, ao menos roube alguns milhões!"

Argentina, Brasil e Itália são, cada um a seu modo, países bastante corruptos. São também países nos quais a população protesta mais vocalmente contra a corrupção. Mas é só fachada. Na Itália, todos adoram reclamar do Berlusconi, dizer que rouba, que legisla em causa própria. Não sei se é verdade (acho que exageram por ele não ser de esquerda), o que sei é que não há político que tenha sido mais votado na história do país. Na Argentina, é comum o argentino dizer, "o povo argentino não presta, são todos ladrões, picaretas". Esse mesmo argentino é o que paga "coima" ao policial para não receber multa, ou faz mutreta para ganhar algum. Reflete no seu dia-a-dia a própria característica que critica. No Brasil, a mesma coisa, embora de modo mais dissimulado. Há menos protesto na rua, menos teatralidade. Mas, do político ao policial ao traficante ao empresário às ONGs, todos convivem numa boa com a corrupção. Dinheiro público é considerado isso mesmo: é de todos, qualquer um pode pegar. Só reclamam quando o outro recebe e ele não.

3 comentários:

Rolando disse...

Bastante preciso nas descrições, Mr X. Argentino arma muito mais escândalo que brasileiro em praça pública, mas na hora do voto - que é o que realmente conta -, já viu, né?
E brasileiro é mais dissimulado mesmo, do tipo hipócrita, usa fio-dental mas não tolera topless. Sempre que pego contra os fatos, põe a culpa nos fatos. Diz que é armação, complô de rivais, mas nunca aponta quem. E quando não há jeito, apela para a religiosidade. Vai à Igreja, torna-se evangélico ou diz que é espírita e o momento é duro por conta do carma (vide ministro Carlos Lupi, com suas respostas sempre que alvo de denúncias). Qualquer sinal de religião é tido como redenção.
O grau de canalhice chegou a tal ponto, que hoje o governo já nem se preocupa em dar uma resposta ao mínimo convincente. Diz qualquer coisa, muda versão, depois fica quieto que tudo se resolve. Ministra dizendo que confundiu cartão de crédito (ao longo de um ano, coitada!). Senadora Salvatti, quando da quebra do sigilo do caseiro Francenildo, diz que ele pode ter esquecido o extrato bancário num caixa automático e alguém pegou e divulgou na imprensa. Lula é o Berlusconi da esquerda e está tudo numa boa.
Como diz um amigo, se um político safado é eleito, é porque quem votou de alguma forma está tirando algum proveito disso.

Mr X disse...

Pois é Rolando,
Hoje dão qualquer desculpa furada como "erro administrativo" e fica por isso mesmo! Tanto todo mundo sabe que vai acabar em pizza...

Gunnar disse...

Concordo em número e grau. Brasileiro é corrupto, mal-educado, hipócrita, inculto, egoísta, falso moralista e mentiroso, do mais pobre ao mais rico.

Nossa classe política é mera conseqüencia.

Dá pra mudar um povo inteiro a essa altura do campeonato? DUVIDO.

A solução é fugir pra Europa o quanto antes. Menos pra Itália.