domingo, 4 de maio de 2008

Os guardiães de nosso bem

Você certamente já os viu por aí. Estão na esquerda, na direita. No PT, no PSDB, no DEM. Alguns são religiosos, outros ateus. Nas repartições públicas, são milhares. Na mídia, então, nem se fala. Na política, correspondem a 99% do total.

São os guardiães do nosso bem.

As pessoas que nos dizem o que é melhor para nós. Nos dizem que não devemos fumar, beber, nem comer demais. Sabem o que e como devemos estudar, como devemos nos comportar, como devemos pensar, e qual a leitura correta dos fatos que ocorrem no mundo.

Avançam sobre cada vez maiores áreas. Após terem transformado o fumo no oitavo pecado capital, hoje querem acabar com a bebida. Na Inglaterra, tradicional país de beberrões, um plano do Labour Party (recentemente humilhado nas eleições municipais mas ainda no poder geral) quer reduzir o consumo alcóolico dos ingleses. Um articulista local ironizou, exaltando as virtudes da bebedeira desregrada.

Who are they? The people who decide how we should run our lives. The busybodies who say that we can’t smoke foxes or smack our children. The nitwits who say that we should have a new bank holiday to celebrate traffic wardens and social workers. Where do they meet? Who pays their wages? And how do they get their harebrained schemes into the statute books?

Honestly? I haven’t a clue. But I do know this. It’s very obvious that their new target is people who drink alcohol – ie, everyone over the age of eight.

We are told that alcohol rots your liver, makes you impotent, gives you stomach ulcers and turns your skin into something that looks like a used condom’s handbag.

The BBC says that if you drink too much your brain stem will break and you will die. The British government tells us that if a man drinks more than two small glasses of white wine a day he will catch chlamydia from the barmaid in the pub garden after closing time. Rubbish. If a man drinks two small glasses of white wine every day it’s the barman he needs to worry about.

Eu disse que eles estão à esquerda e à direita, entre os "progressistas" e os "conservadores". De fato, embora os motivos e métodos variem. Por exemplo, para os conservadores, o problema é que beber em excesso é imoral. Para os progressistas, que não conhecem o conceito de moral, o que importa é o seu impacto na saúde. Por isso também os planos são diversos: enquanto os conservadores tendem a simplesmente limitar ou proibir seu uso (nos EUA em muitos Estados só se pode beber depois dos 21, não se pode estar com bebida na rua, etc), os progressistas tendem a aumentar monstruosamente os impostos sobre a bebida (esse era o plano do Labour), para assim amealhar mais recursos.

Até na nossa vida sexual querem se meter. No Equador, uma deputada quer instituir na nova Constituição do país uma cláusula que diga que "toda mulher tem direito ao prazer sexual". Não se sabe como isso seria cumprido e verificado. Irá a Polícia do Orgasmo visitar os casais? Prenderá os maridos que não cumpram com seu dever?

O homossexualismo e as drogas também são temas de discussão. Só que aqui, curiosamente, ocorre o contrário: os progressistas, que querem proibir cigarro e bebida, tendem a querer liberar as drogas e todo tipo de comportamento sexual. Pode parecer contraditório, mas na verdade se explica facilmente: as drogas legalizadas seriam nova fonte de impostos, e não há nada que um progressista goste mais do que novos impostos. Já os conservadores não gostam das drogas nem do homossexualismo pois os consideram imorais.

Nesse sentido, na direita, os libertários são mais parecidos aos esquerdistas do que aos conservadores: também querem liberar o homossexualismo e as drogas. Mas há uma diferença. Os libertários são da política do "não se meta com a vida do indivíduo", diminuindo a ação do Estado e sua capacidade de proibir ou coibir qualquer tipo de comportamento. Os progressistas, ao contrário, querem ter o maior poder estatal possível para justamente promover os comportamentos que lhes parecem justos, para se meter na nossa vida e nos dizer o que é bom e o que é mau. Assim ensinam homossexualismo nas escolas e promovem o aborto entre os adolescentes. Tiram as armas de circulação para que não nos machuquemos. Nos dizem quantas calorias devemos comer por dia e quantas horas de televisão podemos assistir.

Os esquerdistas, então, são parecidos com os conservadores na sua sanha moralizante, mas, de novo, há uma diferença. Enquanto os conservadores se baseiam na moral religiosa e na tradição, ou seja, na experiência de vida acumulada ao longo de centenas ou milhares de anos - a depuração, em suma, daquilo que demonstrou funcionar em uma sociedade - os progressistas querem criar uma Nova Moral, que não se baseia na religião nem no conceito de "certo" ou "errado" e nem mesmo na experiência, mas em achismos erráticos, naquilo que eles acham que é melhor para nós em base às modas do momento. Até onde pude entender, seus novos deuses são a "saúde", a "ecologia" e a "liberdade de opção sexual". Mas seria necessário um estudo mais aprofundado.

Viva os guardiães do nosso bem!

Bonecos malvados que fumam, bebem e usam armas.

19 comentários:

chest disse...

A Itália acaba de instituir uma pesada multa de 200 euros para quem for pego, literalmente, tocando as partes pudentas, por considerar que o ato fere o decoro e a decência pública. Perdão, senhoras e senhoritas, mas é a notícia. Em espanhol, a expressão seria "el acto de rascarse la entrepierna". Aqui é o tradicional "coçar o saco". Se a lei valesse para os 50 mil companheiros petistas instalados dentro do governo Lula, a começar pelo próprio, a arrecadação seria espantosa, vocês não acham?

http://bp2.blogger.com/_2HFE9v9JMGY/SB28RuI5VVI/AAAAAAAACGI/xll3jf6Wt0A/s400/Lula+co%C3%A7ando.jpg

Arnoud disse...

Mr. X, desta feita concordamos em quase tudo.

Nenhum estado deve sequer emitir opinião sobre o que eu faço faço ou deixo de fazer entre quatro paredes com ou sem outro adulto.

O estado pode sugerir(campanhas por exemplo) que eu não consuma esta ou aquela substancia que reconhecidamente faz mal a minha pessoa. Mas não deveria proibir.

Apenas tenho duvidas no caso das armas. Visto que elas são feitas para ferir outras pessoas e não a mim mesmo.

Mas de todo modo, excelente post!

chest disse...

Arnoux, se você se intoxicar e pedir socorro num hospital particular e pagar a conta, concordo com você. Mas se você for pedir socorro num hospital publico, aí você estará dando ao resto da sociedade a oportunidade de dar palpite sobre seus hábitos.

Arnoud disse...

Chest, finalmente um bom argumento!

Eu tenderia a concordar com seu ponto de vista mas..

O problema é que eu acho que vc não deixaria de atender um diabético, deixaria? Ou uma pessoa muito obesa, ou mesmo um motorista que cometeu uma infração e bateu num poste. Ele causou um mal à sociedade mesmo assim não deixa de ser merecedor dos seus serviços.

Particularmente não fico feliz do Estado gastar recursos com quem bebe, toma o volante e fere os outros e a si mesmos. Mas na situação atual não vejo como mudar isso.

Talvez(é só uma idéia) num mundo ideal não haveria proibição de consumo de nenhum produto, mas alguns pagariam mais imposto para pagar os problemas que aquele produto pode causar.


Ps: Não sei se você me usou como um suposto exemplo, mas por via das duvidas:

Sou super natureba. Não uso nenhuma droga. Além de não comer carne, nem açúcar, nem álcool e detesto gorduras. Sem esquecer que sou ciclista.

Abraços corteses!

chest disse...

consumir açúcar, carbohidratos não é crime. Beber demais não é crime, mas se causa dano na direção (ou se dirige), é crime.
De modo algum o médico vai se recusar a atender, porque é obrigação dele e porque ele recebe pelo serviço, não é o médico que paga pelo serviço.
Quem tem o direito de reclamar da conta médica-hospitalar é o contribuinte.
Enfim, não é o médico que decide o que é legal ou não, o médico salva a vida do criminoso assiom como do cidadão honesto.
Mas, filosoficamente, se o cara abusa de drogas legais ou ilegais, ou se tem comportamento dstrutivo de propósito, moralmente está obrigado a pagar pelas consequências.

Arnoud disse...

Concordo novamente com você. Moralmente seria o dever dele.

Mas na nossa sociedade é complicado implantar isso.

Abraços!

confetti et le chien aveugle* disse...

otimo post, bravo chose ! em nossa sociedade acidental tem rolado mesmo essa "nova moralidade", e os papas do born again nunca foram tao bem pagos !

me sinto progressista, sem seu ironico "achismo erratico"... saude, ecologia, livre arbitrio pessoal, individualismo ! nao ha outro life style possivel atualmente...

Gunnar disse...

Well, o alcool realmente é um fardo ENORME na sociedade atual, muito maior que a maconha, por exemplo.

Assim como o colega Arnoud, não fumo, não bebo, não injeto absolutamente nada que entorpeça meus sentidos (e também sou vegetariano e ciclista 7 dias por semana). Mas se a ervinha d'angola é proibida, não vejo motivos que justifiquem a legalidade do alcool.

Questão de lógica e coerência.

Pessoalmente, acho que tinha mais é que liberar geral, as pessoas que usem suas consciências.

Só que na prática...

chest disse...

álcool tem caloria, é alimento, tem gosto, tem tradição de qualidade, já foi alimento, a cerveja fazia parte da dieta diária na Europa de 150 anos atrás.
E mais, maconha é coisa de favelado. Se você quer favelizar o Brasil, libere a maconha.
Champagne e scotch não são coisas de favelados. Devemos imitar os hábitos de quem deu certo, senão o fracasso acaba subindo a nossa cabeça.

Mr X disse...

Uma coisa menor, mas não de todo irrelevante: maconha tem cheiro muito ruim! Quem acha cigarro chato, já imaginou o que seria a maconha liberada em tudo que é lugar?

confetti chutando o cachorro cego ! disse...

putz néo....
o amazing me deixa meio histérica ! dou gargalhadas,curto uma certa qualidade de idéias, mas saio com nauseas....chest e chose, brilhantes mais reacionarios pra caralho !!tenho medo de voces...

Mr X disse...

Reacionário, eu? :-(
Só estou fazendo uma comparação, confetti... Nunca entendi porque os mesmos que odeiam o cigarro querem liberar a maconha... Causa câncer igual, fumaça igual, cheiro, etc.

confetti puxando o cachorro zarolha* disse...

riso nervoso e incontrolavel***

tava falando do whole stuff do blog

chest disse...

eu sou muito reacionario, obrigado.

confetti et le chien aveugle* disse...

dracula, nao é insulto nem xingamento, meu caro reacionario moralista...vc e chose sao indispensaveis no meu cotidiano virtual...adoro vcs mas isso nao me impede de ser constantemente surpresa por extremas palavras ! tento entender....

Gunnar disse...

O Chest quer viver na Europa de 150 anos atrás. Faz sentido.

Gunnar disse...

Mr X, nada fede mais do que a fumaça de carro (dos outros) que eu sou obrigado a respirar todo santo dia, mesmo sem contribuir com um grama que seja.

confetti et le chien aveugle* disse...

gunnar, muita gente confunde a europa com um cartao postal imaginario....a realidade é outra....

Mr X disse...

Confetti, a Europa É um cartão-postal... Muito bonita de se ver... Tantas belas igrejas e museus... Mas algumas pessoas que moram lá, dos neonazistas malucos aos romenos ladrões aos hooligans xenófobos aos muçulmanos mais malvados, dão medo! :-(