sábado, 15 de março de 2008

Poema do domingo

Costumo criticar muito os países árabes aqui, mas como nada tenho contra o povo árabe em si, que, como todo e qualquer povo, é capaz de produzir alguns brilhantes indivíduos. Por isso hoje escolhi publicar um poema árabe aqui. Mais: um poema de uma mulher árabe.

Nazik Al-Malaika, entre outros méritos, tem aquele de ter sido a primeira pessoa a utilizar o verso livre no mundo árabe. Nasceu no Iraque em 1922. Fugiu do país com a subida de Saddam Hussein ao poder, refugiando-se no Kuwait. Saddam, que também escrevia (péssimos) poemas, talvez tivesse inveja: invadiu o Kuwait em 1991. Após o fim da conseqüente primeira Guerra do Golfo, Malaika transferiu-se para o Egito, onde viveu até a sua morte, em 26 de junho de 2007, aos 83 anos.

Este poema que publico aqui é um tristíssimo poema sobre um tema muito atual, os "assassinatos de honra", tão comuns no mundo muçulmano e hoje acontecendo mesmo em países ocidentais sob o cândido olhar dos multi-culturalistas. Detalhe: o poema é de 1957.

Como não publiquei nada no dia 8 de março, dedico o poema a todas as mulheres, especialmente as minhas caras Confetti e Cecília, costumeiras leitoras deste blog.


LAVAR A DESONRA

"Mamãe!" Um grito, lágrimas, escuridão.
O sangue flui, o corpo apunhalado treme,
O cabelo ondulado se suja de barro.
"Mamãe!" Só se escuta o verdugo.
Amanhã virá a aurora,
As rosas despertarão;
E à chamada dos vinte anos
E da esperança fascinada
As flores dos prados responderão:
Foi embora... lavar a desonra.
O brutal verdugo regressa e diz à gente:
"A desonra?" – limpa seu punhal -
"Acabamos de despedaçar a desonra.
De novo somos virtuosos, de boa fama, dignos.
Taberneiro! Cadê o vinho e as taças?
Chame essa indolente beleza de hálito perfumado
Por cujos olhos eu daria Corão e destino."
Enche tua taça, carniceiro,
A morte lavou a desonra.


Ao amanhecer, as garotas perguntarão por ela:
"Onde está?" O assassino responderá:
"Nós a matamos. Levava no rosto
o estigma da desonra
e nós o lavamos."
Os vizinhos contarão a sua funesta história
E até as palmeiras a difundirão pelo bairro,
E as portas de madeira, que não a esquecerão.
As pedras susurrarão:
“Lavar a desonra”
“Lavar a desonra”


E nós vizinhas do bairro, garotas do povoado,
Amassaremos o pão com nossas lágrimas,
Cortaremos nossas tranças,
Descoloriremos nossas unhas
Para que as roupas deles permaneçam brancas e puras.
Não sorriremos nem nos alegraremos nem alçaremos o olhar
Porque o punhal, na mão do nosso pai
Ou do nosso irmão, nos vigia
E amanhã, quem sabe em qual deserto
Nos enterrarão para lavar a desonra?

6 comentários:

Monsores, André disse...

Triste mesmo... :(

confetti e o anel* disse...

chose obrigada, lindo poema cheio de dor...queria que as sista arabes pudessem viver sem algemas...((

confetti e o anel* disse...

parece que ouvi a musica do harém...as odaliscas chorando....

Pax disse...

Pô, desengonçado, coloca uma coisa alegre aí cara. Tá deprê? Vai pescar.

Mr X disse...

Pô gente,

Mas poemas tristes são sempre ou quase sempre mais bonitos que poemas alegres...

E vocês perceberam que Al-Malaika em português soa igual a "alma laica"?

Pelo fim dos "assassinatos de honra"!

Cedilha disse...

X,
sem falta deves enviá-lo ao Bourdukan.