sábado, 9 de fevereiro de 2008

A Igreja, a modernidade, o aborto e a vida

Passando por uma banca, li a manchete: "A Igreja contra a modernidade", acompanhada de uma caricatura do Papa com cara de mau. O jornal, claro, era o "Le Monde Diplomatique".

Não cheguei a ler o artigo, mas pensei cá com meus botões e zíperes, e daí? Desde quando não dá pra criticar a tal "modernidade"? Porque devemos aceitar sem reservas que tudo que vem de novo é melhor?

Os ataques de malucos armados descontando suas frustrações em dezenas de vítimas inocentes são um fenômeno típico da "modernidade". Não é bom criticar isso?

Lamentavelmente, o conceito marxista da noção de "progresso histórico" em direção
a ums sociedade cada vez mais igualitária e justa e fraternal deixou seu lastro no pensamento coletivo, de modo que é difícil para muitos desembaraçar-se da idéia. É verdade que também a teoria da evolução Darwiniana, aplicada à sociologia, deve ter tido influência nesse modo de pensar. Tanto que os esquerdistas costumam chamar-se a si mesmos de "progressistas". A noção de que a sociedade sempre "progride" virou quase lugar comum. E no entanto é claramente um mito.

Não li, mas adivinho que o artigo do Le Monde Diplomatique falava sobre as várias posições "anti-modernas" da Igreja Católica, como por exemplo sua oposição ferrenha ao aborto.

Observo, no entanto, que há várias razões não-religiosas para se opor ao aborto generalizado.

A primeira, naturalmente, é biológica. Não há animal que voluntariamente aborte (embora haja casos de feras que devoram seus próprios filhos). Mas a prerrogativa da vida, em geral, é a de gerar nova vida. É natural que seja assim, e por isso o aborto é traumático para a mãe.

Está certo, nós humanos chegamos a dissociar tanto o sexo da mera reprodução que ter crianças tornou-se um mero efeito colateral indesejável. Porém, mesmo assumindo-se tal estilo de vida, o fato de que existam hoje tantos outros meios de evitar a gravidez (camisinha, pílula, abstinência, DIU, etc.) torna curioso que se lute tanto pelo "direito" a se usar um meio tão traumático e invasivo de controle da natalidade. Que o aborto seja alardeado como uma liberdade fundamental das mulheres é bastante curioso, especialmente considerando que as primeiras feministas eram contrárias ao aborto, já que eram induzidas a este muitas vezes por namorados, pais e maridos. E a mulher tem sempre a liberdade de não transar.

Porém, há um segundo motivo para criticar a promoção do aborto, e é a demográfica. É uma crítica especialmente válida na Europa. Num momento em que a taxa de crescimento demográfico se reduz aos mínimos históricos, promover o aborto torna-se um modo de promover o próprio suicídio da sociedade. E no entanto é isso que está acontecendo. A maioria dos países europeus hoje tem taxas de natalidade inferiores às necessárias para a reposição, de modo que países como Alemanha e Itália perderão um terço de sua população nativa nas próximas décadas. Portugal tem uma taxa de 1.40 crianças por casal e faz pouco liberou o aborto, o que provavelmente reduzirá a taxa ainda mais. A União Européia luta para tornar o aborto cláusula obrigatória de todos os países europeus, como a Polônia, não obstante o país tenha uma taxa de crescimento de meros 1.23.

A Ucrânia parece ser o país do mundo em que mais se realizam abortos (57 para cada 100 nascimentos). Não admira que seja também um dos países que esteja mais rapidamente desaparecendo da face da Terra, devendo perder doze milhões de habitantes nas próximas décadas (até porque o aborto pode causar posterior infertilidade na mulher, ou seja, perde-se não apenas um bebê, mas todos os futuros).

Claro, há também muitos outros fatores sociais e econômicos que explicam a crise demográfica da Europa, mas porque aprofundá-la, em vez de resolvê-la?

Talvez o "Le Monde Diplomatique" possa responder.

Na foto: até o Papa Bento XVI começa a ter dúvidas sobre sua crítica
ao aborto ao ter que lidar com uma criancinha birrenta. ;-)

10 comentários:

confetti disse...

analise interessante, so curti menos "la chute" e a foto...aquele vestigio de manipulaçao que vc adora e eu detesto chose ...

Fred disse...

Companheiro


Aborto - socialismo - igreja

Eu fico pensando nestes troços, e só me vem a cabeça de como o homem gosta de complicar e desvirtuar tudo.

Minhas idéias sobre o socialismo e a igreja estão la no Cidadania e no Copacabana.

Aborto, deve ter, já que a sociedade não se interessa pelos seus próprios filhos.

Beijão na careca

Mr X disse...

Qual chute, confetti?1? Eu gosto de ser apocalíptico mesmo! É por isso que leio o Spengler! ;-)
Eu tenho simpatia por este Papa, mas a foto eu achei engraçada, vc não? O que é esse chapéu? Cada dia ele usa um mais legal que o outro. E parece que tá dando um tapa na criança! :-D

Fred,
Desvirtuar implica que existiria algo ideal no começo, quando não é assim, todas as idéias humanas são imperfeitas, é a vida. Abraço!

onfetti disse...
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Fred disse...

Home

O que eu quero dizer é que a nossa vida é feita de coisas virtuais.

O carro isso, o tenis aquilo, o apartamento de tantos metros quadrados....

E esquecemos de nós, isto é, esquecemos do cara que tá do nosso lado, daí vem esses problemas existenciais, de segurança, etc...

Mais virtual que a igreja não existe.

nem Cristo ela segue.

chest disse...

"Aborto, deve ter, já que a sociedade não se interessa pelos seus próprios filhos."

chest- quem tem filhos não é a sociedade, mas os individuos.

Fred disse...

Chest

Voce continua inteligente como sempre, parabéns.

Monsores, André disse...

"Os ataques de malucos armados descontando suas frustrações em dezenas de vítimas inocentes são um fenômeno típico da "modernidade". Não é bom criticar isso?"

Caro Mr. X, não há nada mais antigo do que isso na história da humanidade.

Realmente não entendi.

Mr X disse...

Monsores,
Não acho que episódios como Columbine ou daquele maluco sul-coreano na universidade, enfim, nerds matando dezenas a tiros pra aparecer na mídia, sejam algo "antigo na história da humanidade", não desse jeito pelo menos. Claro que são variações modernas da violência e no fundo "não há nada de novo sob o sol".

Um abraço,

Monsores, André disse...

Mr. X, casos como esses que você citou têm nome, e o nome é psicopatia.

Desde que há homens, há psicopatas.

O que mudou é que hoje tem a mídia.

Abraço