quarta-feira, 6 de agosto de 2008

É possível mudar a cabeça de alguém?

Nos meus velhos tempos de graduação na universidade tive um professor de Sociologia (matéria opcional) bastante bom (não era marxista, deve ser por isso) que dizia que não era possível mudar a mente ou a visão de mundo de uma pessoa, salvo em dois casos:

A) um líder muito carismático;

B) um evento muito catastrófico.

Todas as outras tentativas de mudar a mente de uma pessoa adulta (discutir, filosofar, provar por A + B, mandar estudar, mandar ler livros de História) seriam inúteis e infrutíferas, causando apenas que o sujeito se aferrasse cada vez mais à sua ideologia, por mais absurda e patética que esta fosse se revelando.

Já são anos que discuto via blogs, tentando – nem digo mudar a cabeça das pessoas – mas simplesmente tentar fazer com que pelo menos vejam ou tentem ver o outro lado. Vêm me falar sobre o tal “drama palestino” e aí eu mostro fatos e fotos. Nada. Continuam repetindo a mesma lenga-lenga como se não tivessem ouvido o que acabo de dizer.

Falam-me positivamente sobre o socialismo, o Chávez, o Fidel, as FARC... Nesses casos nem tento contra-argumentar, pois revelam ser casos perdidos... Mas apenas abrir-lhes ligeiramente os olhos... Inútil.

E no entanto, se penso na minha própria experiência, também mudei da esquerda genérica que seguia para a direita moderada que prefiro hoje, não através de discussões racionais, mas a partir de um evento catastrófico (11 de setembro, como a neo-neocon). Depois disso, sim, muitas discussões, leituras, pesquisas, análises, discussões em blogs, até ir passando cada vez mais para o “lado negro da força”. Mas o catalisador foi o evento que me fez repensar várias de minhas suposições sobre os EUA, o Bush, o Oriente Médio, o conservadorismo, o socialismo, etc.

Será mesmo que é o único modo de mudar? Será que não é possível convencer ninguém a partir da discussão?

Algumas pessoas parecem mudar de opinião apenas por causa da chegada da maturidade. Mudar da esquerda pra direita parece ser uma mudança natural: David Horowitz, Reinaldo Azevedo... Até o Olavão, quem diria, já foi de esquerda radical na juventude... Há também casos de conversões da direita para a esquerda, mas são mais raros. Um deles é o da Arianna Huffington, do Huffington Post.

Evidentemente, a questão da mudança de visão de mundo não se refere apenas à “esquerda” e “direita” (que no fundo são generalizações abstratas), mas às mais diversas concepções enraizadas no indivíduo sobre política, sociedade, ética, percepção da realidade... Em outras palavras, ou melhor, só uma: a sua Weltanschauung.


8 comentários:

Anônimo disse...

Hilário em termos absolutos.

Rolando disse...

É realmente difícil mudar a mente de outra pessoa. Por conta disso, evito entrar em todos os debates em que eu já tinha opinião formada. Gasta-se muita energia, e no afã de querer demonstrar ou até mesmo impor o próprio ponto-de-vista, as pessoas, como eu, mostram-se passionais ou até mesmo destemperadas (nesse caso você, Mr X, nas discussões no Pedro Doria).

Uma das poucas coisas boas da passagem do tempo é que nos tornamos mais seletivos, não entramos em qualquer debate por antever que será inócuo. Acredito, por experiência própria, que a gente muda a forma de pensar dos outros e também a nossa com a convivência, aos poucos, após diversas conversações sobre diversos temas e repetidas batidas na mesma tecla. Já o debate e a discussão comumente se assemelham a uma competição, com um ganhador, e por isso às vezes não são a melhor forma de mudar as opiniões, ou convergi-las. No entanto a convivência além de tomar mais tempo, atinge apenas a uma ou duas pessoas mais próximas, ela não tem o alcance imediato e mais abrangente quanto um debate ou uma exposição de idéias em sala de aula.

Eventos trágicos e líderes carismáticos também são capazes de nos fazer mudar. E muito. Porém nem sempre para melhor.

Mr X disse...

Eu, destemperado? :-O

:-(

Anônimo disse...

Vai um vinagre aí, Mr X? Sal, azeite de oliva? hehehehe. Sábio, este seu professor de sociologia.

Anônimo disse...

Concordo!
Aliás é meu moto. Sempre foi.

" As pessoas mudam quase nada ou muito pouco durante a vida"

Existe apenas adaptações no caráter. Mesmo nas conversões espetaculares. Do tipo evangélico, por exemplo. O caráter acaba por ceder a um tipo de super-verniz...que não deixa de ser verniz. Quem sabe com o tempo pode se consolidar e fazer uma mudança interior real, mas sempre existirá uma pulsão anterior.
Daí a luta entre o novo (o que aspiramos, neste caso anterior) contra o velho (o que carregamos como bagagem cultural e genética)

Pézinho atrás com as grandes conversões e com os que querem impingí-las pela goela a dentro do populacho. Deixando-nos levar , cegamente, poderemos nos danar.

Mudando para a política: Alguém acreditou na mudança radical do discurso de Hugo Chávez quanto a situação das FARC.
Ele não foi à Damasco e nem é Saulo de Tarso, que eu saiba.
Estratégia para não revelarem mais dados do 'ordenador' de Reyes.

Éd Lascar

Anônimo disse...

Putz, enrolei, enrolei e não respondi, exatamente a questão.

Sim, é possível se ,e somente se, houver predisposição do interlocutor. Quando o tempo age e a percepção dele não se encontra tolhida por uma ideologia incapacitante, tal como o marxismo, por exemplo. :o)

Eu não tenho esta capacidade de ficar tentando mudar os outros. Largo mão em poucos minutos.Dá muito trabalho e é inútil, como você disse e eu acedi.

Éd Lascar.

ABs.

Gerson B disse...

Tambem dá pra se mudar a mente de alguem com psicoterapia.

Até com explicações e lvros dá, mas a pessoa tem que estar minimamente aberta.

Gunnar disse...

Acho muito difícil alguma pessoa mudar efetivamente a minha opinião, mas pra começo de conversa... eu nem tenho convicções fixas. Estou sempre "à procura".

Tipo metamorfose ambulante.

Ou seja, eu mesmo mudo minha opinião o tempo todo. Considerando isso, as conversas que tenho com outras pessoas certamente ajudam e muito a formar as bases de informação com as quais tomarei minhas decisões.

Não é à toa, por exemplo, que leio tudo que o Olavão escreve, apesar de discordar de 98% das opiniões dele. Não dá pra negar que ele é culto e inteligente, e só a abordagem que ele dá a certos temas já é o suficiente para ventilar a mente e rever um monte de coisa.

Declaro-me de direita pela acepção universal da palavra, de preferir a realidade objetiva a um futuro hipotético, supostamente alcançável mediante uma revolução e desejado apenas por uma minoria incendiária.

Já nas questões específicas (aborto, drogas, religião) provavelmente bateria de frente com a grande maioria dos auto-declarados direitistas.

Complicado isso tudo. Mas não deixa de ser divertido.

Ultimamente tenho me interessado cada vez mais pela questão Israel X Palestina. E olha, tenho que dizer... é difícil simpatizar com os terroristas palestinos, viu? Ah sim, estou lendo A Garota do Tambor, de John Lé Carré, ambientado nesse cenário.