Às vezes, são as pequenas coisas que fazem você desanimar sobre o Brasil.
Eis um acontecimento destes dias em Porto Alegre, onde um motorista atropelou propositalmente dezenas de ciclistas que participavam de uma manifestação. Apenas por sorte, ninguém morreu, mas pelo menos oito pessoas ficaram feridas.
A julgar pelos precedentes e pelas últimas notícias, pouco ou nada vai acontecer. O delegado encarregado da Divisão de Crimes de Trânsito já afirmou que "houve excessos das duas partes envolvidas", e criticou os ciclistas membros da organização. Vários dos comentaristas da matéria colocam-se ao lado do motorista, chamando os ciclistas de folgados. Ora, os participantes poderiam até ser um bando de hippies tresloucados esquerdistas, mas nada justifica o seu atropelamento.
Na maioria das capitais brasileiras, dirige-se muito mal. O país é o décimo do mundo entre os países que mais matam no trânsito, o que não é pouco. Com algo mais de esforço, quem sabe chegamos próximos da Venezuela e El Salvador, primeiro e segundo colocados. Mas o que espanta mesmo é o total desrespeito às menores regras de civilidade. A faixa de segurança é completamente ignorada -- pelos motoristas, mas também pelos pedestres, diga-se, que atravessam em qualquer lugar. Comportamentos aberrantes e barbeiragens são a norma. Se somarmos então as contribuições dos "excluídos", quer dizer, os insuportáveis papeleiros e flanelinhas atravancando o trânsito, é o caos.
Essa é uma coisa que está mudando nos EUA, com a invasão mexicana a todo vapor. Segundo um estudioso de demografia, "It's basically over for the anglos" no Texas. Pois não é segredo para ninguém que os hispânicos e latinos em geral costumam dirigir pior, estando por trás de grande parte dos acidentes de trânsito, em especial aqueles envolvendo bebidas alcóolicas.
Não é uma situação tão grave quanto os russos com a sua vodka (ver vídeo), mas aqui no Brasil, um dia chegamos lá.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Feios, sujos e malvados
Gosto do filme de Ettore Scola que dá título a este post. Acho que a razão que gosto mais deste filme do que outros filmes neorealistas (embora haja vários filmes bons nesse período também) é que ali os pobres não são representados como criaturas santas, dignas de pena ou identificação simplesmente por virtude de sua pobreza. Não: são mostrados muitas vezes como avaros, gananciosos, preguiçosos, alcólatras, malandros e, como o próprio título informa, feios, sujos e malvados. Porém, o filme tampouco os desumaniza, ao contrário: nos identificamos com seus personagens justamente por eles serem mais reais. Têm defeitos iguais aos do resto da população, se não piorados devido à falta de educação e recursos materiais.
Nem todos têm essa percepção, tudo bem. Mas há muitos que utilizam a pobreza dos outros como mero pedestal para exibir a própria benevolência. Eis por exemplo um artigo do jornalista da Folha Leonardo Sakamoto, que lamenta que a cidade de São Paulo construa seus espaços públicos de modo a tentar impedir a presença de mendigos e marginais. Prédios com grades; bancos de paradas de ônibus que não permitem que alguém se deite; prédios sem marquises ou com sistemas de jatos de água automáticos que afugentam dorminhocos e drogados: para Sakamoto, tudo isso são absurdos arquitetônicos: temos é que "aceitar que, se há pessoas que querem viver no espaço público por algum motivo, elas têm direito a isso. A cidade também é deles, por mais que doa ao senso estético ou moral de alguém."
Nem todos têm essa percepção, tudo bem. Mas há muitos que utilizam a pobreza dos outros como mero pedestal para exibir a própria benevolência. Eis por exemplo um artigo do jornalista da Folha Leonardo Sakamoto, que lamenta que a cidade de São Paulo construa seus espaços públicos de modo a tentar impedir a presença de mendigos e marginais. Prédios com grades; bancos de paradas de ônibus que não permitem que alguém se deite; prédios sem marquises ou com sistemas de jatos de água automáticos que afugentam dorminhocos e drogados: para Sakamoto, tudo isso são absurdos arquitetônicos: temos é que "aceitar que, se há pessoas que querem viver no espaço público por algum motivo, elas têm direito a isso. A cidade também é deles, por mais que doa ao senso estético ou moral de alguém."
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quarta-feira, 12 de maio de 2010
Nota noturna
Há um pássaro que costuma começar a cantar às duas da madrugada, atrapalhando meu sono. Parece que ultimamente isto anda ocorrendo muito aqui em Los Angeles, assim como em outras grandes cidades. Pássaros diurnos que cantam à noite. Uma das explicações possíveis é que, durante o dia, o ruído do trânsito impede que suas "serenatas" sejam ouvidas. Por isso a mudança para a noite.
Pode ser.
Uma outra coisa que não dá para fazer nas grandes cidades é ver estrelas, muito menos meteoros. As luzes da cidade ofuscam o céu.
Eis abaixo o mapa da Terra em versão noturna. Nas regiões claras, luz e progresso. Nas regiões escuras, subdesenvolvimento, céus estrelados, e pássaros diurnos que só cantam de dia.
As megacidades modernas são, quem pode negar, maravilhas do engenho humano. Mas também têm seus problemas. Não há quem, após um engarrafamento monstruoso ou um dia pleno de trâmites burocráticos, não pense em abandonar tudo, como Gauguin, e dirigir-se para uma remota ilha do Pacífico.
São os selvagens mais felizes do que nós? Antes que alguém pense que estou virando um ludita ou um rousseauiano elogiador de bons selvagens, me corrijo. Viver na selva ou no campo, só se rodeado com todas as benesses da tecnologia moderna, como a raquete mata-mosquitos.
(Outra curiosidade sobre cidades é que - ao menos nos EUA - nas megacidades, em geral a maioria dos eleitores vota Democrata; no campo, a população rural ou de pequenas cidades é essencialmente Republicana. Alguém tem alguma teoria a respeito?)
Os filmes de ficção científica quase sempre mostram um futuro cheio de megacidades, que às vezes cobrem todo o planeta. Mas e se o futuro fosse diverso? Uma das possibilidades das mais recentes tecnologias é justamente permitir a possibilidade de viver longe das cidades e seus problemas. Nos EUA ocorre cada vez mais uma migração dos ricos para os subúrbios; em alguns casos, para zonas quase que totalmente rurais. Se a economia piorar e a sociedade se desintegrar, comunidades rurais high-tech poderiam se tornar a nova moda, equivalentes modernos dos fortes medievais.
De qualquer modo, devido à superpopulação do planeta, salvo epidemia ou guerra atômica (Deus não queira), as megacidades continuarão entre nós.
Pode ser.
Uma outra coisa que não dá para fazer nas grandes cidades é ver estrelas, muito menos meteoros. As luzes da cidade ofuscam o céu.
Eis abaixo o mapa da Terra em versão noturna. Nas regiões claras, luz e progresso. Nas regiões escuras, subdesenvolvimento, céus estrelados, e pássaros diurnos que só cantam de dia.
As megacidades modernas são, quem pode negar, maravilhas do engenho humano. Mas também têm seus problemas. Não há quem, após um engarrafamento monstruoso ou um dia pleno de trâmites burocráticos, não pense em abandonar tudo, como Gauguin, e dirigir-se para uma remota ilha do Pacífico.
São os selvagens mais felizes do que nós? Antes que alguém pense que estou virando um ludita ou um rousseauiano elogiador de bons selvagens, me corrijo. Viver na selva ou no campo, só se rodeado com todas as benesses da tecnologia moderna, como a raquete mata-mosquitos.
(Outra curiosidade sobre cidades é que - ao menos nos EUA - nas megacidades, em geral a maioria dos eleitores vota Democrata; no campo, a população rural ou de pequenas cidades é essencialmente Republicana. Alguém tem alguma teoria a respeito?)
Os filmes de ficção científica quase sempre mostram um futuro cheio de megacidades, que às vezes cobrem todo o planeta. Mas e se o futuro fosse diverso? Uma das possibilidades das mais recentes tecnologias é justamente permitir a possibilidade de viver longe das cidades e seus problemas. Nos EUA ocorre cada vez mais uma migração dos ricos para os subúrbios; em alguns casos, para zonas quase que totalmente rurais. Se a economia piorar e a sociedade se desintegrar, comunidades rurais high-tech poderiam se tornar a nova moda, equivalentes modernos dos fortes medievais.De qualquer modo, devido à superpopulação do planeta, salvo epidemia ou guerra atômica (Deus não queira), as megacidades continuarão entre nós.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
A Morte no carrinho de supermercado e outras histórias
Li no blog de uma certa Espectadora um belo post sobre mortos colocados em carrinhos de supermercado, e ao final ela fala o seguinte:
É curioso ainda que, na mentalidade progressista, tudo seja permitido ao Estado - menos matar. Para eles é horrível que o Estado, com a pena de morte, mate um criminoso (salvo que se trate de um Estado comunista, mas aí é outro papo). No entanto, à iniciativa privada (criminosos), matar é permitido. Quando um desses assassinos é preso, grita-se para respeitar seus "direitos humanos". Mesmo sua prisão é considerada em muitos casos um ato abominável. Mas a verdade é que existe pena de morte no Brasil. Ou ela é realizada por criminosos na cadeia, que têm seu próprio código de ética, ou ela é realizada pelos traficantes na favela que executam quem não respeita suas leis, ou então ocorre nas ruas - contra os inocentes.
Mas essa história de desculpar os crimes mais violentos dos "pobres" - ou mesmo de achar que o crime e a violência são mero resultado da pobreza - vai longe. No outro dia o presidente filho do Brasil disse que "policial aceita propina porque ganha pouco". Não é o primeiro nem será o último a afirmar isso, mas o raciocínio tem dois problemas. Um, assume que honestidade depende exclusivamente de quanto a pessoa ganha, além de qualquer valor moral. Somos todos ladrões, parece dizer Lula parafraseando G. B. Shaw, a questão é apenas negociar o preço. Dois, quem garante que o policial corrupto, mesmo com um salário maior, não continuará roubando? Afinal, jamais conheci ninguém que estivesse completamente satisfeito com o salário que recebe: todos sempre pensam que deveriam ganhar mais. Mesmo o mais famigerado CEO da Forbes 500, tenho certeza, não se incomodaria em ganhar alguns trocados extra.
Daí vemos que o problema não é a pobreza, mas a impunidade, e a falta no Brasil do que em inglês se chama "rule of Law". O mesmo poder que ignora o favelado que constrói em lugar inadequado também faz vista grossa para o policial corrupto, afinal se acabarmos com a polícia corrupta, quem garante que um dia não se virarão contra a corrupção dos parlamentares também, e aí onde iríamos parar?
Se nazistas queimam um judeu, é porque são uns monstros, inimigos da humanidade. Se traficantes queimam uma vítima, é porque são uns coitados, crucificados pelo sistema.De fato. É curioso que os traficantes, assassinos e criminosos sejam vistos como "pobres" e "vítimas do sistema" pela esquerda, quando poderíamos fazer uma analogia e observar que, na realidade, não passam de tiranos, de grandes "capitalistas" que colocam o lucro acima de qualquer ética ou "função social". Matam por nada. Não são nem mesmo "pobres": no contexto da favela (que aliás é bem mais próspera do que muita gente pensa - muitos estão ali apenas para estar mais perto do trabalho e não pagar luz, água e IPTU) são os ricaços, a "burguesia", os "opressores", a classe alta, enfim, aqueles que mandam no sistema.
É curioso ainda que, na mentalidade progressista, tudo seja permitido ao Estado - menos matar. Para eles é horrível que o Estado, com a pena de morte, mate um criminoso (salvo que se trate de um Estado comunista, mas aí é outro papo). No entanto, à iniciativa privada (criminosos), matar é permitido. Quando um desses assassinos é preso, grita-se para respeitar seus "direitos humanos". Mesmo sua prisão é considerada em muitos casos um ato abominável. Mas a verdade é que existe pena de morte no Brasil. Ou ela é realizada por criminosos na cadeia, que têm seu próprio código de ética, ou ela é realizada pelos traficantes na favela que executam quem não respeita suas leis, ou então ocorre nas ruas - contra os inocentes.
Mas essa história de desculpar os crimes mais violentos dos "pobres" - ou mesmo de achar que o crime e a violência são mero resultado da pobreza - vai longe. No outro dia o presidente filho do Brasil disse que "policial aceita propina porque ganha pouco". Não é o primeiro nem será o último a afirmar isso, mas o raciocínio tem dois problemas. Um, assume que honestidade depende exclusivamente de quanto a pessoa ganha, além de qualquer valor moral. Somos todos ladrões, parece dizer Lula parafraseando G. B. Shaw, a questão é apenas negociar o preço. Dois, quem garante que o policial corrupto, mesmo com um salário maior, não continuará roubando? Afinal, jamais conheci ninguém que estivesse completamente satisfeito com o salário que recebe: todos sempre pensam que deveriam ganhar mais. Mesmo o mais famigerado CEO da Forbes 500, tenho certeza, não se incomodaria em ganhar alguns trocados extra.
Daí vemos que o problema não é a pobreza, mas a impunidade, e a falta no Brasil do que em inglês se chama "rule of Law". O mesmo poder que ignora o favelado que constrói em lugar inadequado também faz vista grossa para o policial corrupto, afinal se acabarmos com a polícia corrupta, quem garante que um dia não se virarão contra a corrupção dos parlamentares também, e aí onde iríamos parar?
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Gripe suína

A tal "gripe do porco" já matou 150 pessoas no México e contagiou umas 11 na Califórnia, e eu não estou me sentindo muito bem...
O avanço tecnológico impediu muitas epidemias graças aos esforços da medicina moderna. Ao mesmo tempo, o mesmo desenvolvimento gera o perigo maior de epidemias, cuja magnitude pode ser ampliada pelo crescimento das megalópoles, a globalização econômica e a migração constante.
A SARS e gripe do frango não vingaram, para tristeza dos jornalistas. Espera-se que esta não vingue também.
Afinal, a gripe suína vende jornais e serve ainda para a discussão política, como a questão da imigração. Obama, que está sob risco de ter contraído a gripe ao apertar a mão de um mexicano que morreu pouco depois (ou seria a Gripe Obâmica que o mexicano contraiu do presidente?), já garantiu que, aconteça o que acontecer, não fechará as fronteiras com o México. (É preciso ser Democrata para fazer certas declarações.)
A gripe espanhola de 1918 matou um número estimado entre vinte e cem milhões de pessoas, quase tantas quanto o Comunismo.
(Atchoink!)
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
A cidade dos carros

Tem uma cena em "Sunset Blvd." (já o filme tem nome de rua - no Brasil se chama O Crepúsculo dos Deuses) em que os credores do protagonista levam embora o seu carro. Ele, que está hospedado na casa de uma atriz decadente, fica desesperado: "Meu Deus, nunca vou sair daqui!"
De fato, não ter carro em Los Angeles pode causar uma sensação de claustrofobia e impotência. Sei de pelo menos um leitor (nosso amigo Gunnar) que detestaria Los Angeles. A cidade, de fato, não é construída para pessoas, mas para carros.
Não me entendam mal: é possível caminhar ou andar de bicicleta, e a cidade conta ainda com um excelente sistema de ônibus. Na verdade, os ônibus aqui são melhores do que em muitos lugares da Europa: limpos, razoavelmente rápidos, chegam sempre no horário (há uma tabela na parada), possuem acomodação externa para transportar até duas bicicletas, e um sistema para pessoas em cadeiras de rodas que - já vi em ação - funciona muito bem. Comparando, os famosos ônibus londrinos são péssimos).
Mas quase toda a arquitetura da cidade é pensada para quem tem carro. Avenidas largas, distâncias quilométricas, restaurantes com drive through. Vi mesmo algumas lojas que têm a sua entrada principal para os carros - a entrada para meros pedestres fica nos fundos da loja e é preciso dar a volta no quarteirão. Há alguns bairros nos quais é possível passear e caminhar (Rodeo Drive, Westwood) como em qualquer cidade normal, mas há outros lugares nos quais para ir do ponto A ao ponto B você precisa caminhar mais de um quilômetro.
A cidade pode ser aproveitada mesmo sem um automóvel, é claro. Eu mesmo não tenho carro ainda e, por ora, não senti falta: vou à Universidade de bicicleta. Porém, sei que eventualmente vou ter que comprar um. Los Angeles não é Amsterdam.
No dia em que o petróleo acabar, temo que esta cidade entrará em colapso. Isso, é claro, se não acabar antes com o Big One (não, não me refiro a Obama, mas ao grande terremoto que, dizem, um dia virá. Talvez ocorra no mesmo dia da posse de Obama, como um anúncio do final dos tempos).
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