sexta-feira, 18 de abril de 2008

Fumaça


Buenos Aires está coberta de fumaça.

Não, não é uma metáfora. Pensei que era neblina, que com a chegada do outono a cidade estava imersa em um romântico fog londrino, mas aí você sente o cheiro de queimado e a irritação nos olhos e na garganta e se dá conta. É fumaça. E onde há fumaça, claro, há fogo.
Resulta que estão realizando queimadas no campo para plantar soja, o incêndio fugiu do controle, e toda a fumaça é trazida com o vento para Buenos Aires.

Estradas, aeroportos, muita coisa teve que fechar, sem falar no grave risco à saúde nas áreas mais próximas.

Conversando com um taxista, alguns outros detalhes vieram à tona:
- É possível que a intensidade do incêndio seja proposital, afinal o pessoal do campo está irritado com a Cristina Kirchner com o aumento exponencial dos impostos;
- Isso porque as eleições foram compradas, e agora a Cristina precisa pagar a conta, e tira o dinheiro do campo;
- O governo vai gastar 40 milhões de dólares com um AeroKirchner, mas não conta com nenhum hidroavião anti-incêndio;
- Os “piqueteros” governistas ganham 140 pesos simplesmente por participar de uma manifestação a favor da Cristina Kirchner;
- Os “cartoneros” (papeleiros) ganham mais e trabalham menos do que os taxistas, até porque muitos se dedicam a vender drogas também.
- Este país nunca vai dar certo.

De fato, há muitas coisas exasperantes sobre a Argentina. Mario Vargas Llosa, em artigo recente, observa como o país que, décadas atrás, era o que mais havia dado certo na América Latina (alto nível de educação, entre os maiores PIBs mundiais na década de 20, constituição liberal de Alberdi), parece dedicado a destruir tudo o que havia construído até reduzi-lo a pó (ou a fumaça), com a violência dos piqueteiros, a demagogia e corrupção dos governantes, a insanidade de suas políticas assistencialistas (se isto se parece também com o Brasil de Lula, trocando piqueteiros por MST, não é mera coincidência).


La involución del país más próspero y mejor educado de América Latina -una de
las primeras sociedades en el mundo que gracias a un admirable sistema educativo
derrotó al analfabetismo- a su condición actual, es una historia que está por
escribirse. Cuando alguien la escriba, lo que saldrá a la luz tendrá la
apariencia de una ficción borgiana: una nación entera que, poco a poco, renuncia
a todo lo que hizo de ella un país del primer mundo -la democracia, la economía
de mercado, su integración al resto del globo, las instituciones civiles, la
cultura de brazos abiertos- para, obnubilada por el populismo, la demagogia, el
autoritarismo, la dictadura y el delirio mesiánico, empobrecerse, dividirse,
ensangrentarse, provincianizarse, y, en resumidas cuentas, pasar de Jorge Luis
Borges a los piqueteros.


Também o escritor V.S. Naipaul já disse que “um dos grandes mistérios da humanidade é como um país com vasta extensão, grnade nível de recursos naturais e apenas trinta milhões de habitantes pôde dar tão errado”.

Idéias erradas são o que mais nocivo pode ocorrer a um país. Na América Latina, em vez de copiar os exemplos bons de fora, parecemos copiar só os exemplos ruins, os fracassos, a desgraça. Tem até quem queira implantar o socialismo, a idéia que mais atrasou os países que caíram sob seu feitiço. Mas, no caso da Argentina, o que parece mais evidente é a falta de idéias. A falta de um projeto de país.

(Já no Brasil, o PT tem sim um projeto para o país. É um projeto nocivo e imoral que só nos conduzirá à desgraça como o peronismo conduziu a Argentina à desgraça, mas ao menos eles têm um projeto).

Um comentário:

Andrés Esteban disse...

Muito bons os seus comentários!

Realmente meu medo é que o PT acabe virando um peronismo e que a história termine do mesmo jeito: destruindo um páis, do mesmo jeito que o peronismo acabou com a Argentina!

grande abraço
Andrés