quinta-feira, 3 de abril de 2008

Buenos Aires (1)

Faz uns bons sete meses que estou em Buenos Aires. Já conhecia a cidade, mas é a primeira vez que estou efetivamente morando aqui.

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Com o real alto, o dólar baixo e o peso irrisório, há muitos brasileiros hoje vindo de visita a Buenos Aires: escuta-se o português em qualquer esquina ou café. A visão estereotipada de Buenos Aires dos brasileiros se limita a tango, churrascos, cemitério da Recoleta e feira de San Telmo, mas é claro que a cidade oferece muito mais. Buenos Aires é uma cidade literária como poucas. Jorge Luis Borges localizou vários de seus contos na sua topografia e escreveu famosamente em um poema: “A mi se me hace cuento que empezó Buenos Aires / La juzgo tan eterna cuanto el agua y el aire”. Cortázar marcou o encontro dos personagens de ”Los Premios” no café London City, na esquina de Perú e Avenida de Mayo. Isaac Bahevis Singer visitou Buenos Aires e escreveu uma novela, “Escória”, que se passa em parte na cidade. Não li o romance, não sei se o título foi inspirado pela população local. O escritor vanguardista polonês Witold Gombrowicz morou aqui por trinta anos. O filósofo espanhol Ortega y Gasset também visitou e escreveu famosamente, “Argentinos, a las cosas!” – isto é, recomendando menos sonhos e mais ação. Não adiantou muito. Italo Calvino também visitou e talvez tenha encontrado inspiração aqui para escrever o ótimo conto “A formiga argentina”. E muitos mais.

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Mas a visita mais famosa é a relatada pelo escritor portenho Marcos Aguinis no seu ótimo livro “El atroz encanto de ser argentinos”. É a visita do prêmio Nobel espanhol Jacinto Benavente à cidade. Contam que a todo momento o dramaturgo estrangeiro era incomodado com perguntas sobre o que achava da Argentina e dos argentinos. Não lhe davam sossego um único momento. E ele, calado, preferia não se pronunciar. Até que, desde o barco que o levou de volta à Europa, ele finalmente respondeu: “Formem a única outra palavra que pode ser formada com as letras de ‘argentino’.” O barco já estava longe quando a multidão se deu conta que a única outra palavra que podia ser formada era ‘ignorante’.

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Teoricamente, os personagens recentes mais famosos da história argentina recente são Gardel, Perón e Evita. Mas um estrangeiro que julgasse apenas pela quantidade de imagens vendidas nas bancas de jornais em cartazes, pôsteres e calendários, acharia que os personagens mais famosos da Argentina são Che Guevara e Homer Simpson. Che, depois de um período de esquecimento, parece ter começado um revival após o retorno do idiotismo latinoamericano (sob as vestes do bolivarismo chavista) e os filmes cafonas do Walter Salles e companhia. (Os estrangeiros, particularmente, adoram a figura brega do Che. São provavelmente os mesmos turistas do atraso que compram postais com a foto de Perón e Evita, e depois voltam a seus países para comentar alegremente sobre a pitoresca republiqueta bananeira que visitaram).

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Se o legado de Che é apenas folclórico (o vadio, felizmente, realizou sua revolução em Cuba), o legado de Perón e Evita é tristemente célebre. O peronismo é o sinônimo do atraso da Argentina, e se reflete mesmo hoje, nas atitudes do casal Kirchner. Mais interessante é o legado de Gardel , e, mais do que Gardel, do tango (que é bastante anterior a seu mais famoso cantor) na cultura da cidade. Mas sobre isso, mais adiante.

Um comentário:

confetti disse...

otimo post !! adorei "conhecer" seu buenos aires...