quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Idiotas, inc.

Assisti ao filme Idiocracy no outro dia, do qual havia visto anteriormente apenas trechos. Alguns acreditam que seja uma comédia, mas, embora dê para rir em várias partes, achei o filme algo deprimente. Afinal, é possível que sua história realmente reflita o futuro. O próprio filme é um reflexo disso, de fato: para agradar o público, também teve que ser dumbed down em algumas cenas, por exemplo com a colocação de um narrador que explica coisas desnecessárias. É um filme paradoxal. Ao mesmo tempo em que critica a estupidez e vulgaridade do público americano mundial, precisa mostrar essa estupidez e vulgaridade o tempo inteiro. E é assim mesmo. Grande parte da cultura pop atual é, de fato, puro lixo.

O argumento do filme, na verdade, não é de todo original: é baseado em uma história de ficção científica dos anos 50 chamada The Marching Morons. No conto, há no mundo uma superpopulação de idiotas, e restam apenas uns poucos inteligentes que têm o trabalho de coordenar e alimentar os imbecis, que se reproduzem cada vez mais. No final, através de uma grande campanha publicitária, os morons são convencidos a subir em foguetes e viajar para Vênus, onde - diz a propaganda - encontrarão praias e belas mulheres (na verdade, morrerão todos incinerados).

Será mesmo que existe uma superpopulação de imbecis? Será que a cultura atual é mais estúpida do a que a de eras passadas, ou é mera reclamação de velhos ranzinzas, saudosos de um passado (inexistente) no qual tudo era melhor?

Bem, acho que uma das diferenças de hoje com o passado é a questão da educação. Esta realmente decaiu em grande parte do mundo ocidental, um pouco por culpa de professores marxistas-feministas-doidistas mais interessados em "conscientizar" os estudantes do que ensinar-lhes coisas úteis, um pouco pela eliminação do estudo dos clássicos em detrimento de coisas mais muderrnas, e um pouco pela atitude atual em relação ao ensino, com maior interesse em notas, currículo e vestibular do que em real aprendizado, atitude esta que envolve não apenas os professores como os pais e os próprios alunos, e que pode ser resumida pelo seguinte cartum:

17 comentários:

Lefebvre disse...

Gosto muito desse filme. Não conhecia o conto. Vou ler agora!

doda disse...

Até gostava do filme, mas virou referência rasa em qualquer debate descoladinho sobre cultura e educação, é uma piada levada a sério demais.

Idiotas são maioria em qualquer população ou espécie e nunca foi e nem será interessante, para os indivíduos dominantes, mudar isso (até porque seria impossível do ponto de vista biológico-físico-social-político-etudomais).

E como você mesmo falou, a cultura pop é um lixo, mas quando a massa consumiu algo muito melhor do que Kanye West? Na Europa dos séculos XVIII e XIX Beethoven fazia shows de arena para cem mil pessoas? Dostoiévski não podia ir à padaria sossegado que voltava pra casa de cueca?

No mais, a Katy Perry é uma puta duma gata, abs.

DD disse...

Vou dar uma de sociólogo: acho que as classes alta e média passaram a sentir-se alforriadas de ter de demonstrar aquele apreço - que às vezes nada era além de reverência bestificada - às coisas da alta cultura. Puderam, enfim, abraçar sem culpa a inacreditável quantidade de lixo produzida pelos veículos de massa. Enquanto esse processo não se completava, houve a impressão, temporária e falsa, de que se vivia numa época em que a cultura podia enriquecer-se e democratizar-se a um só tempo.

As máscaras caíram, porém. O que diferencia, hoje, um indivíduo de certa posição de um homem do povão é o tipo de coisa que veem na TV. O esnobismo - e nunca esta palavra recobriu tamanha vacuidade - de nossos dias consiste em alardear interesse por alguma série americana um pouco menos palatável. E os prerrequisitos para tal são dois, e apenas dois: 1. Poder pagar um bom plano de TV a cabo (inacessível para 70% dos brasileiros); 2. Conseguir ler legendas (impensável para 95% dos nossos patrícios).

Chesterton disse...

"....houve a impressão, temporária e falsa, de que se vivia numa época em que a cultura podia enriquecer-se e democratizar-se a um só tempo."

chest- gostei disso, concordo plenamente. Há um preconceito contra a elite. Os idiotas se descobriram maioria e tem o direito constitucional de votar uns nos outros. A democracia carrega em seu ventre a semente que a destruirá. Há um artigo, se não me engano do Victor Davis Hanson que fala que de 30 em 30 anos os morons se rebelam e armam uma enorme confusõa até serem convencidos que devem se deixar liderar pelos não-completamente-idiotas. Vou ver se acho.

Chesterton disse...

“A batalha final não será travada entre comunistas e anticomunistas mas entre os comunistas e os ex-comunistas.”

Ignazio Silone (1900 – 1978)


chest- tirado do mosca azul...

Chesterton disse...

ou talvez seja pior

http://www.eldiarioexterior.com/noticia.asp?idarticulo=34132

sugestao Tibiriçá.

Cláudio disse...

Vejo alhos e bugalhos aqui: erudição não é, de forma alguma, sinônimo de inteligência. É perfeitamente possível - e os exemplos são inúmeros - ser extremamente erudito mas incapaz de assimilar qualquer coisa que aconteça ao seu redor.

DD disse...

Chest:

Embora eu lhes deva alguma coisa, os sebos sempre me deprimiram. Vejo, ali, certo esforço por uma ilustração mais alargada da elite, que foi bastante intenso quiçá até a década de '70, descartado, tornado obsoleto pela adoção de "sinais de distinção" bem menos exigentes.

Cláudio:

Você tem toda a razão. Mas eu me explico: falei da cultura porque é um dado socialmente mais aferível. A inteligência é uma faculdade pessoal, e seus efeitos são mais dificilmente observáveis no plano social. O ideal, claro, é que inteligência e cultura andem juntas; vale a pena que o indivíduo busque o acordo entre essas duas senhoras caprichosas, embora isso seja um trabalho de décadas - e árduo.

De todo modo, acho que precisamos distinguir três tipos essenciais de idiotas:

1. Os que não têm nem inteligência, nem cultura (irrecuperáveis depois de certa idade);

2. Os que têm cultura, mas são burros (abundam em nossas universidades);

3. Alguns indivíduos genuinamente inteligentes, mas que, sem cultura, acabam dedicando-se a coisas irrelevantes, apegando-se a falsos mistérios, etc.

Esses tipos sempre podem ser piorados com uma boa dose de ressentimento (que justifica o imobilismo anímico). Quando coroados com celebridade ou dinheiro, tornam-se verdadeiramente perigosos.

Enfim, acho que todos nós vimos tentando deixar de ser idiotas, nossa condição natural. É uma luta.

DD disse...

A propósito: viram que o Lula disse que as próximas eleições serão as primeiras sem "trogloditas de direita" pleiteando a presidência? Vou adotar o epíteto.

Didi Iashin disse...

Não teremos ,"trogloditas de direita" nas eleições. Teremos apenas australopitecos de esquerda ...

Chesterton disse...

Bem, Claudio, existem eruditos não muito "mentalmente ágeis", mas isso não depõe contra o esforço de se instruir.

Chesterrton disse...

DD, eu acho os sebos caros. E minha alergia não me deixa ficar muito tempo.

Cláudio disse...

Chest, certamente não depõe e eu jamais afirmei isso. Minha observação surgiu até mesmo pela confusão que o próprio filme faz entre erudição e inteligência. Na academia temos várias pessoas extremamente eruditas que pregam seu amor ao socialismo quando não ao comunismo, demonstrando brutal deficiência cognitiva ou, no popular, burrice. Os personagens no filme eram burros, mas o filme atribui a sua burrice à falta de cultura. A diferença pode ser tênue, mas ela está lá. Uma pessoa inteligente se incomoda com a sua própria ignorância e busca diminuí-la, aí sim, através do acúmulo de cultura. Somente os idiotas se sentem confortáveis com a ignorância plena.

Anônimo disse...

O diálogo, esse é o grande problema...

Marcos-DF

Anônimo disse...

"...um pouco pela atitude atual em relação ao ensino, com maior interesse em notas, currículo e vestibular do que em real aprendizado, atitude esta que envolve não apenas os professores como os pais e os próprios alunos..."
Por definição, as notas, currículos, etc. SÃO a medida do aprendizado. A sua frase faz tanto sentido quanto dizer que empresários se preocupam com lucro em vez de se preocupar com dinheiro ou que políticos se preocupam com votos em vez de se preocupar com ganhar eleições. Sem falar que só muita cara-de-pau explica alguém dizer que a educação piorou quando, nunca na história da espécie humana, tantas pessoas tiveram tanto acesso à educação de qualidade. O analfabetismo recuou rapidamente na maior parte do Mundo e o ensino básico é universalizado a passos rápidos. Nunca o conhecimento científico foi tão disseminado. Ah, mas claro, certas pessoas parecem pensar que a vida era bem melhor quando só os ricos e poderosos tinham acesso à educação. Só isso explica os taques covardes contra o sistema educacional e as maravilhsas oportunidades que ele leva ao Povo. É perfeito? Não.não é, mas é muito melhor que o que tínhamos no passado, não importa quão glorificado ele seja pelos reacionários.
Tiago

Mr X disse...

Nada contra a educação, ao contrário. Leia de novo o post.

O problema é a educação marxista, isso sim, mas esse é outro tema.

Anônimo disse...

Você disse que a educação decaiu em grande parte do mundo ocidental (onde quer que fique isso). Eu estou justamente dizendo que nunca na história da Humanidade tantos tiveram tanto acesso a tão boa educação. It is our finest hour. Stalin provou que basta usar os recursos adequados e impor a disciplina necessária para- como ele fez- eliminar o analfabetismo e dar educação gratuita e de qualidade a todos os estudantes.
Tiago