
No post anterior falei sobre uma sociedade que não parece andar muito coesa, a sociedade sul-africana. O que faz a coesão de uma nação? Apenas a raça? Na verdade, não. Esse é apenas o método mais primário, podíamos até dizer mais primitivo. É o mesmo princípio pelo qual se organizavam as tribos de cavernícolas a centenas de milhares de anos.
Tanto os supremacistas brancos quanto os supremacistas negros (eles existem, na África) querem o retorno a uma organização social coesa, baseada na coexistência entre semelhantes da mesma "tribo". Ei, não há nada de necessariamente errado em sociedades monoraciais ou monoculturais (desde que não envolvam genocídio ou outras formas de violência). Elas são, de fato, mais estáveis do que as sociedades multiculturais.
Mas há outros métodos para manter a coesão, especialmente nesta época em que, até por razões tecnológicas, as distâncias globais diminuíram. A religião, por exemplo. Se toda uma nação segue uma mesma orientação religiosa, é possível que sejam de grupos étnicos ou origens diversas, mas manterão a harmonia por acreditarem nos mesmos princípios básicos. (Por outro lado, as sociedades que se dividem significativamente em religiões diferentes tendem ao conflito interno, mesmo que sejam da mesma origem étnica ou racial - pensem nas antigas perseguições religiosas entre católicos e protestantes em vários países europeus).
Na Europa, a coesão social era dada pelo nacionalismo (tribos de espanhóis, alemães, franceses, etc.) e pela religião. Em um momento em que a religião está quase que totalmente diluída pelo secularismo, e o nacionalismo é atacado pela imigração e pelo fim das fronteiras internas, a sociedade inicia a perder a coesão. O que tem em comum um francês católico do interior da Bretagne com um imigrante muçulmano dos banlieues?
Bem, há outra forma de manter a coesão social - através do autoritarismo. O Estado Superpoderoso que impede conflitos internos através da força bruta, ou da ameaça de força bruta. Foi assim que a União Soviética pôde se manter coesa, bem como a Iugoslávia comunista, ambos "países" formados por vários povos de etnias e religiões diversas. Sintomaticamente, ambos modelos ruíram com o fim do comunismo. (Não sei se a Europa escolherá esse caminho autoritário, que é o que quer a esquerda, ou se retornará ao velho nacionalismo étnico, que é o que quer a direita).
Os EUA não são como a Europa. Aqui o que segura a sociedade é outra coisa -- a Constituição. Sim, a maioria de religião cristã é também importante (o país não funcionaria da mesma forma se tivesse, digamos, 20% de muçulmanos), mas o fato é que aqui existe uma porção numerosa de judeus, hindus, católicos e protestantes, sem que hajam conflitos religiosos de marca maior. E as "tribos" que o formam são numerosíssimas. Nem raça nem religião (ainda que, atenção, ambos sejam importantes, e não é nem um pouco certo que um EUA de minoria branca e cristã siga coeso): porém, a Constituição Americana é que é o documento que é citado de forma quase religiosa por quase todos os americanos, e é um dos principais fatores de coesão no país. Por isso os ataques de Obama à Constituição, sobre a qual afirmou que seria "defeituosa" por não prever a distribuição de renda, são tão perigosos. Parece que os Democratas preferem o método de coesão do "Estado superpoderoso".
E o Brasil? Aqui não tem religião única, muito menos raça única, e a Constituição é pouco mais do que uma piada. O que explica a sua manutenção como país? Eu diria que a grande idéia sobre a qual o Brasil se organizou é justamente a mestiçagem. Existem pessoas de todos os lugares no país. Todos somos misturados e, se não somos, certamente parte de nossos amigos e parentes o são. A religião, através do sincretismo religioso, segue o mesmo modelo (que só agora, com a chegada dos evangélicos, parece estar dando os primeiros sinais de conflito). Se há divisão, é acima de tudo entre classes sociais e, secundariamente, entre regiões. A raça aparece apenas como terceiro fator (ainda que a própria divisão social tenda a gerar uma divisão parcialmente étnica).
Por isso também a idéia de Lula de separação racial - dar "terras indígenas" para índios que nem mesmo são mais índios, mas descendentes, e expulsar os fazendeiros "brancos" (que tampouco são exatamente brancos, mas misturados -- o próprio presidente da Associação de Arrozeiros de Roraima é de origem japonesa) - é estúpida e contraproducente, criando uma divisão e um ressentimento que não existiam antes no país, além de ter sido péssimo para a economia da região, como bem aponta o Reinaldo Azevedo. Tendo vivido tanto no Brasil como nos EUA e na Europa, posso dizer com certeza que o Brasil é o menos "racista" e "xenófobo" desses países (uso os termos entre aspas porque são termos que de tão abusados quase perderam seu sentido hoje em dia), ainda que tenha também seus problemas. Mas medidas demagógicas como essa não ajudam à coesão social.
Se os índios podem ter suas terras exclusivas em Roraima, isso quer dizer que alguns colonos de origem alemã em Santa Catarina poderão finalmente criar seu volkstaat? E, se não, por que não? Como mostra a situação na África do Sul, o pêndulo da divisão racial e social pende para os dois lados. Lula e seus amigos deveriam pensar melhor no tipo de Brasil que desejam criar. Poderão se arrepender amargamente de suas escolhas.