quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Educação superior: para todos ou para alguns?

Há três teorias sobre a inteligência humana. Uma é a da chamada tabula rasa, ou quadro branco. Segundo esta teoria, todos os seres humanos são iguais ao nascer, e a sua inteligência, bem como outras características como personalidade, emoções, comportamento são aprendidas a partir da aquisição de conhecimento ao longo da vida (nature < nurture). Outra teoria é que a inteligência e vários outros aspectos do comportamento do indivíduo são genéticos e hereditários, e não podem ser modificados (nature > nurture). Finalmente, há a teoria que diz que tudo é em parte genético e em parte ambiental, ainda que esteja se discutindo exatamente em qual proporção (nature = nurture).

As últimas descobertas científicas parecem indicar que haja um forte componente genético que determina a inteligência, ainda que fatores ambientais não estejam de todo descartados. Além disso, a própria experiência de vida nos diz que certas pessoas são mais inteligentes do que outras. (Ainda que em teoria isso também pudesse ser explicado por motivos ambientais, não parece muito lógico.)

Isto tudo vem a respeito da discussão sobre o ensino superior. Alguns dizem que a universidade deveria ser pública, gratuita e para todos. De acordo com a teoria da tabula rasa, até que faria sentido. Se todos tem a mesma capacidade de aprender, seria injusto que alguns, só por serem ricos ou terem bons contatos, pudessem ter acesso ao melhor do conhecimento universal e a profissões de maior renome (e melhor remuneração). Ainda assim, restaria o problema de que terminaríamos com um número de engenheiros, físicos nucleares e médicos muito acima do requisitado pelo mercado, e por conseguinte muitos taxistas e garis com um inútil diploma superior. (E não é que isso já acontece mesmo?)

Outros acreditam que a Universidade deva ser apenas para uma elite intelectual. Não necessariamente uma elite cheia da grana (embora, nos EUA, isso muitas vezes seja necessário, já que universidades como Yale ou Harvard não são nada baratas), mas uma elite privilegiada pela genética e com QI acima da média (estima-se que o QI necessário para cumprir com sucesso um curso de nível superior seria entre 115 e 130). Naturalmente, exames como o Vestibular ou no caso dos EUA o SAT servem para filtrar justamente essa população mais inteligente (ou mais estudiosa).

A questão é: e o restante da população? Bem, a democracia e sua idéia de que todos podem votar parece ter criado, por analogia, a idéia de que todos deveriam ter acesso ao mesmo nível de educação. O problema é que, salvo que a teoria do quadro branco esteja correta, algumas pessoas simplesmente não estão qualificadas para ser engenheiras ou médicas, por mais que estudem. Não é uma questão de esforço, mas de QI mesmo. Ora, não deveria ser um problema, já que há dezenas de ocupações nobres como encanador, padeiro, cozinheiro, etc. Isso sem falar que mesmo alguns gênios como Bill Gates jamais concluiram um curso superior. (Lula é outro exemplo de alguém que jamais concluiu um curso superior e se deu bem).

De fato, aqui nos EUA ocorre um problema curioso, que leva alguns a acreditarem que exista uma "bolha" nos custos da educação superior, que subiram assustadoramente ao longo dos anos. O fato é que o diploma universitário já não é garantia de mais nada, e muitas vezes serve apenas como símbolo de status. Em alguns casos, um encanador que trabalha bem pode ganhar mais do que um advogado formado, acredite. (Isso porque não há trabalho bom para todos os advogados que se formam, enquanto nunca falta trabalho para encanadores). Como um diploma superior custa vários milhares de dólares, o formando já sai para o mercado de trabalho endividado. Recentemente li a reportagem sobre a triste história de uma moça que pagou mais de 150 mil dólares para poder formar-se em Estudos Femininos, e agora não conseguia emprego, e tinha uma enorme dívida para pagar. (Mas que emprego pode-se conseguir com um diploma de Estudos Femininos? Ironicamente, depois da enxurrada de feminismo que deve ter aprendido, é possível que ela termine tendo que se virar como p***!)

No Brasil, o problema não é bem o mesmo, já que as universidades públicas e "gratuitas" costumam ser as melhores e paradoxalmente freqüentadas pelos mais ricos, a educação básica ainda é restrita, e os diplomados de nível superior não são tão numerosos em relação ao total da população, embora o número tenha crescido muito nos últimos anos. (Além disso, no Brasil o diploma tem uma importância precisa, serve para poder participar em concursos para ingresso no funcionalismo público).

Ainda assim, é uma discussão relevante. Continuarei a falar sobre o tema em um segundo post, em algum momento do futuro próximo.

11 comentários:

Harlock disse...

Salve.
Muito bem dito... nessa terra de bugres, diploma universitário só serve para isso mesmo, qualificar o portador para concurso público.
Por mim, quanto mais restrito fôr o acesso a universidade pública, melhor.
Os "encanadores" pagam muito caro para sustentar uma instituíção que nunca deveria servir para "fazer justiça social" nem para "corrigir injustiças históricas".

Gerson B disse...

Cara, rio muito com as imagens que você arruma pra ilustrar seus posts.

Infelizmente os assuntos são de chorar. Não o que você diz, mas os temas. O mundo tá assustador.

Klauss disse...

O problema aqui no Brasil é mais embaixo.

Eu tenho diploma em artes cênicas, e é um pedaço de papel que não serve nem para limpar a bunda!

Mas o pior não é isso. O pior é que, fazendo uma faculdade, o prejuízo para a minha inteligência foi tão grande, que estou há 4 anos me limpando de umas idéias de gerico que eu abracei naquela época.

Ou seja, o problema no Brasil é que o cara entra semianalfabeto na Universidade e sai analfabeto funcional.

Ainda bem que descobri as "Liberal Arts" e o Olavo de Carvalho pra compensar o retrocesso!

Mr X disse...

Acho que o problema no Brasil é justamente que o Diploma, o papel, é que vale, não o conhecimento. Aliado a isso, as Universidades brasileiras se tornaram antros de propagação do discurso marxista. Mas, fora as ciências exatas, é similar no EUA. Também aqui o marxistas dominam, fora algumas exceções. É Gramsci no lombo!

No Brasil, mais me assustam os engenheiros e médicos formados com péssima qualificação. Vão fazer pontes que caem e amputar pernas erradas.

Anônimo disse...

..e Woland, aparece : http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/11423-5-x-favela-o-cinema-do-engodo-.html ... Boa leitura. Olha, motivos ambientais... Estranho mas onde o clima frio( de zero aos 15 graus no inverno ) tem lá a sua influência a coisa andou, anda e, parece, continuará andando. O mapa mundi, por favor. América Latrina... Atlântico... Mama África... Só a Austrália e a Nova Zelândia resolveram tomar jeito ! E isso, de uns 30 anos prá cá ! Hemisfério Norte, zonas temperadas, tô esquecido das aulas de geografia..., show de bola ! Até na História ! Fazia frio na Mesopotâmia, Visconde Augustão ! O Egito, todo mundo sabe, zero graus à noite, no inverno... Mesmo assim, resolveram construir pirâmides ! Que desperdício... Na realidade pensaram os faraós em um projeto turístico futurístico mas os neo-egípicios de hoje são muito burros ! Sobre educação. Curso Rápido de RobertoCampismo ! Muito parecido com os E.U.A.. Creches, 1º e 2º graus gratuitos. Quem tem grana pagará caro por escolas particulares. Cursos Técnicos e Universidades, pagos. Bom, como o pobre entraria nelas, meu Deus ! Coitadinho... Que maldade ! Com uma Receita Federal como a nossa, cruzando dados facilmente hoje, saberíamos se o cara é pobre ou filho da ministra do Barraco Civil assim, pá pum ! Sendo pobre, curso técnico e Universidade serão pagos, com juro abaixo da Selic( pode ser metade... Se cortarmos pela metade a corrupção - taxas de sucesso 6% - deste país, dá prá pagar tudo !), quando o cabra começasse a trabalhar ! Simples, não ? Revolucionário... ÓÓÓÓÓH ! Descobri a pólvora ! Mas antes disso tudo ser implementado pelo governo neo-liberal e conservador Woland, passaremos por 10 anos de greves intermináveis e assassinatos inexplicáveis ! Os camaradas neo-popusocialistas morenos da educação e bons empresários do ramo, não aceitariam de bom grado tal experiência. Falô ?

Marcelo disse...

Mas aaa somos o país das cotas, não é lindo? Universidade também servia para produzir conhecimento não só distribuir diplomas, mas vivemos em um mundo capitalista e utilitarista, aí temos alguns paradoxos do tipo: "Eu tenho diploma em artes cênicas, e é um pedaço de papel que não serve nem para limpar a bunda!" Arte é, em parte, considerada inútil mas as pessoas consomem arte tb e não querem pagar por ela. Arte, letras, filosofia e blablabla são inúteis; o lance é fazer administração e procurar aí um bisavô negro pra entrar por cotas ainda por cima (consegue-se entrar com metade dos pontos do último colocado how awesome can it be?)a grande sacanagem mesmo é a diferença de salários ser tão grande. Aliás a muita, muita mesmo, gente que não está cursando uma faculdade ou nem acabou o ensino médio é pq não quer estudar mesmo.

Thorio disse...

Eu acho a premissa de se dizer se inteligência está ligada a fatores genéticos ou culturais muito difícil de ser avaliada pela limitação metodológica. Como se isolar o fator cultural em seres humanos? Não vejo como separar genética e cultura em termos de aprendizado humano para provar algo sobre isso.

E QI é considerado uma forma muito limitada de se medir inteligência, ela tem muito mais dimensões, sociais (há quem seja um gênio em networking e uma anta em matemática) que os testes de QI conseguem pegar.

Se o cara escolheu uma profissão para ganhar dinheiro, deveria ao menos ser esperto o suficiente para escolher um mercado com baixas chances de saturação. Se não teve essa noção já dá para questionar a inteligência do sujeito independente das notas no diploma.

Por exemplo, estatístico só fica sem trabalho se for muito ruim.

Bachmaníaco disse...

Klauss, você não devia subestimar a relevância dos atores no cenário político mundial

http://en.wikipedia.org/wiki/Ronald_Reagan

E eu não sei se você seria apresentado ao Prometeu Acorrentado em outro lugar que não fosse a faculdade.

"Não vi caírem dois tiranos? Verei a queda do terceiro, a mais rápida e a mais vergonhosa"

Iconoclastas disse...

"Além disso, a própria experiência de vida nos diz que certas pessoas são mais inteligentes do que outras. (Ainda que em teoria isso também pudesse ser explicado por motivos ambientais, não parece muito lógico.) "

não parece lógico, pq?

nao entendi oq tem de ilógico. meu problema por exemplo é genético ou ambiental (i.e - falta de alimentação na infancia, de estimulos adequados...)?


agora, qt a universidade para todos ou para a elite é questão de conceito com relação ao que é ou deva ser uma universidade. só não acho q seja objeto de politicas públicas.

Mr X disse...

nao entendi oq tem de ilógico. meu problema por exemplo é genético ou ambiental (i.e - falta de alimentação na infancia, de estimulos adequados...)?

A falta de alimentação é uma causa possível (está provado que alimentação deficiente pode afetar negativamente a inteligência), mas os estímulos adequados e tal, sou cético. Sim, estes têm claramente influência, mas certamente parte da inteligência vem de berço mesmo. Há pessoas que são gênios da matemática ou da música, e não há estímulo ou educação que transforme uma pessoa normal em um gênio. Eu poderia passar 50 anos treinando piano e jamais chegaria a Mozart. Da mesma forma, creio que há pessoas que nascem com menor inteligência do que a média. Os motivos específicos, já não sei.

Gunnar disse...

Os motivos? Qualé!

Muito simples: pessoas são diferentes e pronto.

Uns mais altos, outros mais baixos, uns com tendência a engordar, outros narigudos, uns inteligentes, outros menos.

E não há justiça social que corrija isso.

Mudando de assunto... cês leram "A promessa autoadiável" do Olavão? De lavar a alma!