sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O mundo que eles querem

Morreu o Ettore Scola. Cineasta das antigas, do tempo em que o cinema ainda pretendia contar histórias ao invés de só mostrar sangue, explosões e efeitos especiais. Não era um gênio como Fellini, mas tinha bons filmes e contava boas histórias.

Um de seus filmes, "Feios, Sujos e Malvados", é sobre pobres da periferia, na verdade um bando de favelados italianos, mas sem o viés esquerdista que lhes dá uma aura de santidade. Ao contrário, os pobres são mostrados exatamente da forma que diz o título, mas, ainda assim, não chega a ser um retrato de todo negativo; eu diria até que, por ser relativamente honesto, além de hilário, o filme nos ajuda a empatizar mais com os personagens.

Em contrapartida, comecei no outro dia a ver "Mad Max: Estrada da Fúria", que encontrei online. O filme foi adorado por crítica e público, e nominado para 10 Oscars. Não sei se o filme é bom: não consegui assistir mais do que 20 minutos. Achei aqueles personagens feios e grotescos bastante desagradáveis, não entendi a história, se é que havia alguma, o ritmo de edição frenético me incomodou, e não tive paciência para seguir adiante.

De qualquer modo, pergunto-me se esse filme não estaria, na verdade, nos preparando para o futuro disgênico que virá. Afinal, por que temos tantos filmes sobre apocalipse ou sobre zumbis? Estaria Hollywood apenas querendo nos preparar para o futuro?

Uma particularidade é que, ao conrário de outros filmes recentes, o elenco não é multiracial. O filme, assim como o novo Star Wars, é feminista, e apesar do título ser "Mad Max" o personagem principal é uma mulher, interpretada pela Charlize Theron. Porém, todos os personagens parecem brancos, ainda que brancos degenerados, e o vilão até fala em "Valhalla", o paraíso dos guerreiros nórdicos. Seria o filme então uma mensagem para os brancos? E, se for, qual é a mensagem?

Uma blogueira paki irritou-se com a branquice do filme e perguntou-se por que os filmes pós-apocalípticos são quase todos brancos? "Será que as minorias étnicas não chegarão ao fim do mundo?", ela gritou, recalcada.  

Bom, eu não sei exatamente o motivo, nem se isso é verdade, mas pode ser que seja verdade que filmes futuristas pós-apocalípticos tendem a exagerar na branquice dos personagens. Acredito que seja por que as minorias já teriam todas morrido nas guerras anteriores, mas não tenho certeza. Ou talvez Hollywood adore mostrar brancos em condições horrorosas. Ou talvez porque a visão de uma distopia multiracial violenta seja demasiado parecida com o que já temos hoje em dia nas grandes capitais mundiais, e quem quer ver mais do mesmo? 

Por falar nisso, aqueles de sempre estão reclamando, como todos os anos, que os Oscar são "muito brancos", que nenhum ator negro foi indicado, blablablá. Mas "Doze anos um escravo" não ganhou há poucos anos? Será que um filme com atores negros precisa sempre ganhar? E por que os nominados precisam ser sempre negros, e não mexicanos, que são em maior número, ou então chineses, ou, vá lá, pakis?

Sugiro à Academia então dar um prêmio especial para a cena com um branquelo ajoelhado chupando o pênis do Samuel L. Jackson no último filme do Tarantella, isso certamente ajudará a amenizar a culpa por um tempo. 

De qualquer forma, confesso que não vi nenhum dos filmes indicados este ano, nem mesmo os estrangeiros (vai ganhar um filme húngaro sobre o Holocausto, acreditem). Aliás, confesso que não é de hoje que estou desistindo de Hollywood. Percebi que os filmes que a maioria das pessoas gostam interessam-me muito pouco, e meu tempo é limitado, para que perdê-lo de uma forma tão tola, quando posso ver tantos filmes clássicos que ainda nunca vi?

Ou talvez eu esteja apenas ficando velho. Velho e gagá.

Bem, o consolo é que provavelmente não estarei mais aqui quando o apocalipse disgênico dos branquelos chegar. Vocês que são jovens, divirtam-se.

Vamos ao cinema?


3 comentários:

Sabedor disse...

O plano é fazer eles se matarem...

certo ''alguém'' disse e finalizou com

''genial''

Fábio Peres disse...

Ironia das ironias: quanto mais se tenta tornar o cinema multiétnico, e cheio de diversidade, mais os filmes que importam para o mercado mundial (os do Oscar) ficam com a cara pasteurizada do branco-neve. Afinal, branco faz qualquer papel; negro, apenas os papeis de negro.

Quanto à heroína feminista de "Mad Max" ... bom, desde que me conheço por gente sempre tem um personagem feminino forte nos filmes masculinos, para que se diga que as mulheres estão representadas. Entretanto, o homem que assiste os filmes não simpatiza com as ditas cujas - no máximo exala um "que gostosa" a cada cena em trajes sumários.

A não ser que o mercado mude, as coisas tendem a continuar assim. Para o bem, ou para o mal.

Mr X disse...

Sim, é mesmo. Não terminei de ver o Mad Max. Alguém sabe se é bom?