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domingo, 30 de outubro de 2011

Poema do Domingo

ÍTACA
 
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção tocarem teu corpo e teu espírito.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te porias a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas. 

Konstantinos Kaváfis (1863-1933) 
(Trad. José Paulo Paes)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Europa sobreviverá?

Meu comentário anterior sobre a Europa foi algo incompleto, e talvez tenha dado uma imagem imperfeita do continente. É verdade que ando meio pessimista ultimamente, e isso tende a colorir meus posts com talvez exagerados matizes de cinza e preto.

Ainda há muita coisa boa na Europa. As catedrais e museus continuam lá. Apesar da globalização, ainda come-se e bebe-se muito melhor do que nos EUA. Fora algumas experiências com pessoas antipáticas na Alemanha e uma na Espanha, quase só encontrei gentileza e simpatia.

A Europa ainda é mais segura do que os Estados Unidos e do que qualquer lugar da América Latina. Mesmo passeando de noite em lugares como o bairro turco da Alemanha, jamais senti insegurança. Não dá para dizer o mesmo de certas zonas de L.A. O único lugar que pareceu algo mais ameaçador foi um bairro árabe francês, mas tudo o que aconteceu foram olhares mal-encarados. Quanto aos africanos que vi e os poucos com os quais conversei, devo dizer que pareciam excelentes pessoas, muito educados e gentis. Não tive qualquer experiência negativa com as tais minorias nesta visita. 

Dito isso, é verdade que a Europa está mudando, e não é para melhor. Fora a questão econômica, que mal mencionei mas que é realmente preocupante (o nível de desemprego na Espanha de Zapatero é de 25% -- um quarto da população!), a imigração ilimitada está mudando o caráter do continente. 

Alguns me acusaram de hipocrisia por criticar a imigração sendo um imigrante. Eles têm razão. Nem adianta dar como desculpa o fato de que eu more nos EUA, terra de imigrantes, em vez da Europa, terra de emigrantes: se eu tivesse um passaporte italiano ou francês e possibilidades de emprego, provavelmente me mudaria para lá, já que prefiro o modo de vida europeu, muito embora ache os americanos mais eficientes em muitos aspectos.

Confesso que tenho uma visão ambígua sobre o tema da imigração. Até há relativamente pouco, era favorável à visão libertária: que qualquer um emigrasse para onde quisesse, desde que não recebesse nenhuma forma de ajuda financeira estatal. Afinal, se alguém tem talento e capacidade mas teve o azar de nascer em algum rincão do Quarto Mundo, e um outro país mais desenvolvido pode oferecer melhores condições de vida e de progresso, por que não ir para lá? Tanto o imigrante quanto o país que o acolhe só teriam a ganhar. Como disse o leitor Gunnar, há uma boa e uma má imigração. Há imigrantes que fazem o país crescer e imigrantes que só estão lá para drenar recursos e aumentar as estatísticas do crime. O país que acolhe pode escolher quem receber. 

Só que há outro problema aí. A Europa não são os EUA. Não tem nem o espaço geográfico nem o histórico de "melting pot" para acolher tantos. E a social-democracia e o Estado do bem-estar social, que os europeus querem manter a todo custo, são basicamente incompatíveis com a imigração.

Acho que foi Milton Friedman que disse que você pode ter um Estado que garante a assistência social OU imigração generosa, mas não pode ter os dois. Ele está absolutamente correto, por uma mera questão matemática: um número cada vez maior de imigrantes vai exigir um número cada vez maior de recursos. 

E tem outro problema que é a questão étnica. Neste bom artigo da Economist, o sagaz autor observa o seguinte:
"[habitantes de] países mais étnicamente ou racialmente homogêneos sentem-se mais confortáveis com o Estado tentando diminuir a desigualdade pela transferência de recursos dos mais ricos aos mais pobres através do sistema fiscal. Isso talvez explique porque os suecos reclamam menos dos altos impostos do que os habitantes de um país de imigrantes como os EUA."
Por que ocorre isso? Muito simples: uma questão de identificação tribal. Em última análise, somos seres tribais e nos identificamos com aqueles que estão mais próximos de nós, seja culturalmente, seja historicamente, seja geneticamente. Se o dinheiro dos impostos vai para nossos co-nacionais ou irmãos de cor, nação, ou religião, é bom. Se vai para imigrantes estrangeiros ou minorias religiosas ou raciais, é mau. É por isso que o welfare é mais criticado na Europa agora, quando é dirigido a imigrantes, do que quando era dirigido apenas a suecos ou franceses que tiveram menor sorte na loteria do nascimento. É por isso que os americanos brancos vivem criticando a assistência social dirigida principalmente para pretos e chicanos, mas não querem que se toque no Medicare que beneficia seus vovós. Sim, é "racista", mas e daí?

O que é uma "raça" ou uma "etnia" se não uma família extendida? Todos os grupos étnicos - menos talvez os brancos - entendem isso, em maior ou menor grau. Os judeus sempre se ajudam entre si. Os negros se chamam de "irmãos". Os asiáticos e árabes também prosperam graças ao apoio étnico. Li que 20% dos pequenos mercados na Espanha pertencem a chineses ou a paquistaneses; pelo que vi, o número pareceria chegar mais perto de 90%, já que não encontrei um único estabelecimento controlado por latinos ou espanhóis. Como eles conseguem isso? Provavelmente, imigrantes de uma mesma origem étnica formam redes de cooperação, legais ou não.

Em Los Angeles, os asiáticos (coreanos e vietnamitas) dominam o mercado de manicures, que aqui são chamados de "nail spa". Não há uma manicure que não seja asiática na cidade. Dizem, não sei se é verdade, que é uma máfia: se surge algum estabelecimento não-asiático na cidade, logo sofre um "incêndio acidental".

Quando a coisa pega, é cada um por si. Quanto mais inter-étnica se torna a Europa, e sem o enorme espaço geográfico americano que permite a auto-segregação e o "white flight", maior é a possibilidade de conflitos. Junte-se a isso o fanatismo islâmico, e temos uma receita bem explosiva. Lembrem que o Líbano já foi um país de maioria cristã...

Porém, não acredito que o maior problema da Europa atualmente seja a imigração. Acho que o problema maior mesmo é uma crise espiritual, que se manifesta na falta de uma crença no próprio destino. Todos os problemas atuais da Europa decorrem daí. Como solucionar isso? Com um retorno da fé cristã? Uma volta ao tradicionalismo? A destruição da malfadada União Européia e o retorno aos nacionalismos locais? Quem sabe até o retorno da monarquia? (A Europa sempre foi aristocrática; a democracia não lhe senta tão bem). Ou simplesmente a expulsão dos imigrantes e seus descendentes, e o fim do Estado de bem-estar?

Francamente, não sei. Porém, espero sinceramente que o Velho Continente sobreviva (e não na forma de um califado islâmico). Devemos-lhe muito; aliás, quase tudo.  


domingo, 28 de agosto de 2011

Notas do Velho Mundo

Nesta minha vida de playboy internacional, estive recentemente na Europa, mais precisamente Espanha, Alemanha e França. Narro aqui, sem nenhuma ordem particular, um pouco do que presenciei por ali.

Na Espanha, minha visita coincidiu com a do Papa e com a do encontro mundial da juventude católica. Jovens de vários países diferentes cantando e celebrando a fé. Um espectáculo bonito de se ver. Curiosamente, depois li num jornal espanhol que houve "conflito entre jovens e polícia durante a visita do Papa". Fiquei imaginando jovens católicos enraivecidos estrangulando policiais com rosários e espancando pedestres com crucifixos. Mas depois li a matéria com mais atenção. Apesar da manchete enganadora, os que protestavam (e que entraram em conflito com a polícia) eram um bando de homossexuais e ateus contrários à visita papal. Sempre a mesma história. É como quando os jornais anunciam: "conflito entre muçulmanos e cristãos", quando se sabe perfeitamente bem que são muçulmanos massacrando cristãos, sem qualquer violência da parte cristã.  

No front imigratório, más notícias. A julgar pelo que vi nar ruas, a Espanha está tomada por mestiços latino-americanos, chineses e paquistaneses. A Alemanha continua com seus turcos. Mas o choque maior é no país gaulês. A França está inundada de negros e árabes. Juro: vi mais negros africanos puros na França do que na Bahia. Por outro lado, os negros europeus são mais sofisticados do que os negros americanos, da mesma forma que a população europeia em geral tende a ser ligeiramente mais sofisticada do que a americana (em termos superficiais, é claro). Uma coisa que surpreenderá muito os ocasionais leitores nazistas ou nacionalistas brancos do blog é que vi vários negros lendo livros. Sim, acredite: negros podem ler livros. Vi até um afro-europeu que era a cara do Samuel L. Jackson em "Pulp Fiction" lendo "Se isto é um homem", do Primo Levi. Penso que ele notou que eu o estava encarando; em um momento achei que ele fosse se levantar com uma pistola na mão: "Primo Levi, motherfucker! Do you read it?"

(Não que eu não acredite nas diferenças étnicas, ou que ache que tudo é a mesma coisa, ao contrário. Tampouco sou um igualitário. Acredito na genética e nas diferenças entre os povos, que são físicas mas também psicológicas e mentais. Mas também acredito na força do aspecto cultural. Sei que há uma luta, mesmo aqui no blog, entre culturalistas e geneticistas. Porém, em um sentido mais profundo, não importa se a diferença entre as etnias tem um motivo cultural ou genético. Penso por exemplo nos ciganos: um povo dedicado por séculos ao seu modo de vida: nomadismo, boemia, misticismo, e vivendo em muitos casos do roubo, da mendicância e da exploração de crianças (recentemente li um artigo sobre ciganos que traficam crianças para alugá-las como mendigas em várias capitais europeias). É cultural? É genético? Não acredito que exista um gene do nomadismo ou da mendicância. Mas por que será que nunca houve um cigano que disse, chega dessa vida, vou é estudar muito e trabalhar muito e virar o novo Bill Gates? Em centenas de anos na Europa, os ciganos, como grupo, nunca mudaram. Continuam mantendo suas tradições, boas e más. Da mesma forma, é um delírio querer que africanos e islâmicos se "assimilem" e virem de um dia para o outro europeus da gema; mesmo que o quisessem, quem sabe se realmente o poderiam fazer? A cultura, como os genes, é transmitida de pais para filhos; e se mantém forte mesmo depois de muitas gerações.)

Outro fato curioso que certamente horrorizará os leitores neonazistas: os franceses, e especialmente as francesas, adoram se miscigenar. Vi muitíssimas francesas loiras casadas com africanos ou com árabes. Aliás, foi um destes africanos casados com francesas (encontrei o casal num museu e passamos a conversar) quem decretou, com uma tristeza que parecia sincera: "não há mais franceses em Paris!". De fato, os lugares bons foram todos comprados pela máfia russa, e o aluguel aumentou, expulsando os franceses. Já nos bairros pobres, só se vêem imigrantes e descendentes da racaille.

Há alguns exemplos de boa integração de latinos e africanos, conforme pude testemunhar. Não é o caso da maioria dos árabes e demais muçulmanos, que continuam se vestindo à moda de seu país e praticando sua insana religião. (Assimilação é piada. Os muçulmanos europeus praticam sua religião de origem, vestem-se como em seu pais de origem, falam a língua de seu país de origem, ensinam a seus filhos o idioma e religião de origem; cortam o clitóris de suas filhas e as vestem com burcas. Para que vêm à Europa então?) 

Já na Alemanha, tive algumas experiências negativas, não com os imigrantes, mas com o povo nativo. Os funcionários de  trens, hotéis e de atendimento aos turistas em geral foram muito antipáticos e não apenas muitas vezes se recusavam a falar inglês, mesmo entendendo o idioma, como pareciam ter viva antipatia aos turistas, e aos norte-americanos em particular. (Aliás, há muito anti-americanismo na Europa, e por motivos políticos, o que é curioso: eles acham que os EUA são "de direita". Mal sabem eles que os EUA são o centro do progressismo mundial!)

Confesso que os turcos de Berlim foram em média mais simpáticos do que os alemães nativos, não obstante eu abomine a sua religião, suas vestimentas, seu idioma e sua mania de não se assimilar. Mas estou sendo um pouco injusto. É claro que também houve experiências boas com alemães nativos, e os jovens em geral me parece que são bem mais simpáticos. Mas as pessoas de maior idade, especialmente os funcionários que atendem estrangeiros, tendem a uma rudeza e arrogância sem par. Após uma dessas experiências, até lamentei que os americanos tivessem jogado a bomba atômica no Japão em vez de na Alemanha. Perguntei-me se o espírito hitleriano não estaria ainda vigente em algumas pessoas, ou se, na realidade, fizesse parte do caráter do povo local. É verdade; hoje a Alemanha é ulta-esquerdista, ultra-ecológica e de um regime ultra-politicamente correto que dista muito do nazismo, mas também Hitler era vegetariano. Não seria o que há hoje um fanatismo no sentido contrário? Não cheguei a presenciar, mas parece que em Berlim e Hamburgo são bem comuns os protestos violentos de grupos de esquerda, que queimam carros (à moda árabe), quebram vitrinas e entram em confronto com a polícia. E a Alemanha, claro, é o principal motor da União Europeia. O que Hitler não conseguiu, os alemães estão conseguindo com a UE: dominar a Europa.

No meio do inferno multicultural, um oásis: um fim de semana na casa de campo de uma tradicional família francesa. Vinhos e comidas típicas, e esse ritmo de vida mais tranquilo que tanto faz falta nos EUA. É triste que isso tudo esteja por acabar, graças à imigração. Para alguns, o fim da Europa é motivo de discussão política, mas para mim é pessoal. Também eu, tempos atrás, quase fiz parte de uma família europeia, e poderia hoje estar vivendo na Europa, não fossem os percalços da vida. A Europa agora é para mim um paraíso perdido; em breve, o será para todos. Aliás, a família francesa entendia o problema da imigração e em particular do islamismo, mas tinha uma atitude fatalista que observei em muitos europeus. Vacas ao matadouro.

De fato, acho que a conclusão da viagem é que, salvo milagre papal, revolução, ou algum outro fato imprevisto, o destino do Velho Mundo está mais ou menos traçado. Resta apenas saber se a Europa vai virar um imenso favelão latino-americano (temo que esse vá ser o futuro da Espanha), ou um novo califado islâmico. Ah sim: há também a opção de uma ou várias guerras civis eclodindo aqui e ali, uma espécie de neo-feudalismo com europeus encastelados defendendo-se dos bárbaros, ou então novas tiranias gerando novos holocaustos. Quem sabe até um ressurgimento do nazismo alemão? Pela minha experiência por lá, isso não está de todo descartado. "Primo Levi, motherfucker. Did you read it?"

The rape of Europa