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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Beleza, Verdade e Seios de Silicone

And now for something completely different. Para descontrair e evitar as costumeiras polêmicas aqui no blog, apresento um tema sem qualquer relevância política: os seios de silicone. Você gosta de seios de silicone?

Faz algum tempo um articulista britânico, falando genericamente em nome dos homens, afirmou que os seios de silicone não são nada sexy. Concordo com ele, muito embora imagine que alguns homens gostem, ou não haveria tantas mulheres se siliconando por aí.

O artigo em si não é grande coisa, mas as fotos que o acompanham são hilariantes. Nunca entendi bem essa opção estética, afinal é bastante fácil ver quais seios são reais e quais não. Demasiado arredondados, demasiado erguidos e demasiado afastados um do outro, são seios de desenho animado, não seios reais.

É também curioso que a estética dos seios de silicone se junte à estética da magreza anoréxica tão comum nas passarelas. Ora, os seios estão diretamente relacionados com o volume (para não dizer gordura) da pessoa, portanto seios enormes em uma pessoa magérrima chamam a atenção e parecem antinaturais.

Mas não estaremos vivendo uma época que valoriza justamente a estética antinatural? Piercings e tatuagens também são modificações corporais que são utilizadas por número cada vez maior de pessoas, para não falarmos em modificações mais extremas como a "troca de sexo" ou o implante de chifres. Eis a triste história de uma garota que colocou dezenas de tatuagens no rosto, e eis o seu tatuador. Seios artificiais de silicone não deixam de ser outro tipo de modificação corporal que se soma à crescente tentativa de modificar a biologia humana, ou ao menos a sua estética natural.

(E, entanto, não há nada de novo sob o sol: o que hoje chamamos de piercings e tatoos ja eram utilizados de forma pouco diversa há milhares de anos atrás pelos indígenas, quem sabe até pelos cavernícolas, e tal retorno a esses adornos corporais poderia constituir, longe de ser uma modernidade, um retorno ao primitivismo. Hoje as mulheres ocidentais aumentam seus seios, mas não há uma tribo cujas mulheres aumentam o tamanho do pescoço? As chinesas não diminuíam o tamanho de seus pés? É, não há nada de novo sob o sol.)

Tudo, no entanto, talvez faça parte de uma discussão mais ampla. O filósofo Roger Scruton, em recente artigo que pode ser lido em português aqui, falou sobre a importância da beleza e como a estamos perdendo. Seu texto é principalmente sobre a feiúra da arte moderna, que devido, segundo ele, principalmente à perda da religião (ou mais bem do cristianismo), teria perdido a espiritualidade e portanto o ideal de beleza. Porém, tanto no artigo quanto no vídeo que acompanha, um dos argumentos mais interessantes do filósofo é que a própria vida moderna estaria perdendo a sua beleza. Não são apenas as artes plásticas: a horrenda arquitetura moderna de Niemeyers (o comunista plagiador) e Corbusiers, o modo de vestir e até o de se comportar, tudo estaria perdendo a sua elegância. 

Não é preciso ser cristão (e muito menos ter lido o artigo sobre os quatro estágios do niilismo do Frei Serafim Rose) para observar que vivemos em um mundo cada vez mais dominado pelo niilismo, pela crença de nada importa, e de que a missão do artista é apenas a de chocar e confundir. Se acreditamos que existe uma Verdade, uma Ordem Natural, podemos então passar a acreditar que existe uma Beleza (Beauty is truth, truth beauty,—that is all ye know on earth, and all ye need to know); se não acreditamos, fica fácil pensarmos que nem mesmo a arte tenha qualquer objetivo. 

Poucos leitores deste blog parecem estar interessados na questão da arte moderna, e, no entanto, esta parece-me às vezes um dos sintomas mais claros da decadência do mundo ocidental. Às vezes fico imaginando que, daqui a milhares de anos, alguns arqueólogos desenterrarão os artefatos artísticos do século XXI, e ficarão perplexos ante a visão de uma sociedade que aparentemente odiava e desprezava a si mesma, e que não podia sequer conceber a Beleza, tanto que suas próprias mulheres já não sabiam mais o que esta era, e se enfeitavam inflando artificialmente os seios e lábios de forma grotesca e antinatural.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O artista enquanto estuprador

Sobre o caso Polanski, todos já estão carecas de saber. Porém eu não sabia que também William Golding, autor de "O Senhor das Moscas", foi acusado de tentar estuprar uma garota de 15 anos, embora pareça não ter passado de uma tentativa inocente quando ele próprio tinha apenas 18. (Depois, de fato, ambos viraram namorados e dedicaram-se a transar em parques enquanto o pai de Golding (!) observava a cena com binóculos.)

Arthur Koestler, autor de "Darkness at Noon", também parece ter estuprado sua cota de mulheres. E, segundo este artigo, também eram estupradores Jack London e Geoffrey Chaucer. Poe não estuprou ninguém, mas era alcoólatra e casou com uma menininha de 13, o que hoje, fora das terras de Maomé, seria chamado de pedofilia.

O clichê do artista pervertido é um velho mito, mas será que é mesmo realidade?

Afinal, proporcionalmente, há provavelmente muitos mais artistas que não dedicaram-se ao crime ou à sacanagem explícita do que aqueles que o fizeram. No entanto, o mito persiste.

Talvez a figura do artista maldito, da associação da arte com o crime, a imoralidade ou a loucura seja algo relativamente recente, fruto do período romântico e, posteriormente, das destrutivas vanguardas do início do século.

E o que ocorre hoje em dia é que - definitivamente enterrado o conceito de "beleza" - já não é mais possível distinguir, em muitos casos, a arte da psicose. Artistas que utilizam o próprio sangue para fazer esculturas; artistas que mergulham um crucifixo em urina e chamam de arte; artistas que exibem a própria cama suja em uma galeria e chamam de arte; artistas que enforcam manequins de crianças e chamam de arte; e mesmo um artista que deixa um cachorro morrer de fome em uma galeria e o chama de - o que mais? - arte.

Sob essa perspectiva delirante, o próprio estupro poderia ser considerado uma forma de arte performática. Se para o músico pós-modernista Karlheinz Stockhausen os atentados de 11 de setembro foram "a maior obra de arte jamais criada", então o ato radical de Polanski poderia ser considerado sua obra maior, uma exploração das profundezas tenebrosas da maldade humana mais potente do que "O bebê de Rosemary" e "Chinatown" juntos.

Felizmente, o culto da arte niilista parece estar com seus dias contados. Hollywood está em crise, é não apenas devido à concorrência com Netflix e The Pirate Bay: o pessoal realmente está pouco interessado. As artes plásticas? Bem, faz alguns anos toda uma coleção de arte britânica dos anos 90 pegou fogo, e a resposta do público foi de júbilo. E nem falemos da arquitetura moderna e seus estupros visuais, desprezada por quase todas as pessoas de bem.

Tenho para mim que um dia retornaremos à Beleza como paradigma, e que a Grande Arte de novo renascerá. Mas para isso talvez seja necessária uma profunda reorganização social e política, e o abandono do culto ao niilismo, que é talvez o mal das últimas décadas, e do qual a questão artística é apenas uma de várias manifestações.


Atualização: A obra que ilustra o post é uma gravura de Otto Dix, considerada "arte degenerada" pelos nazistas. Ou seja, estou ciente da ambiguidade em imaginar ou desejar alguma arte supostamente "melhor" ou "mais pura". (Na verdade, gosto de Otto Dix). Também os comunistas quiseram impedir certos tipos de arte e instituir outros, mas o "realismo socialista" é responsável por algumas das imagens mais horrendas deste século, inclusive o edifício do "estupro visual" acima, erigido na Coréia do Norte. A questão não é desejar que a arte seja apenas beleza clássica ou que os artistas sejam todos santinhos; mas, se a arte é sempre um espelho do mundo (nos dizeres de Hamlet), então a arte de hoje em dia diz muito sobre a nossa sociedade. Bem como a tolerância com certos artistas transgressores. A arte niilista reflete uma sociedade niilista, que não sabe mais quais são seus valores.