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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O caso Polanski

Polanski é com certeza um dos poucos grandes artistas do cinema mundial. Nem digo por "O Pianista", que embora tenha cenas marcantes não é seu melhor filme, mas por seu trabalho nos anos 60 e 70, desde os curtametragens surrealistas que fez na Polônia, "Repulsion" com a jovem Catherine Deneuve (será que ele a traçou também?), à obra-prima "O Bebê de Rosemary", "Chinatown", e finalmente o trabalho talvez mais enigmático, o filme "O inquilino", com Isabelle Adjani (idem à pergunta anterior) e o próprio Polanski como ator.

Todos esses filmes foram realizados antes de sua relação com a jovem Samantha Geimer, cujos detalhes sórdidos podem ser lidos aqui, nas palavras da própria vítima, em uma entrevista trinta anos depois. Os atos de sua declaração à polícia na época do evento, aos 13 anos, também estão disponíveis em algum lugar, basta usar o Google. Mas, resumindo: Polanski a convidou para uma "sessão de fotos", deu-lhe champanhe e ofereceu drogas (Quaalude), e finalmente, levou-a para o quarto e cráu. De todas as formas possíveis. Samantha não resistiu nem sofreu violência física, mas sempre disse não. Tratou-se, claramente, de sexo não-consensual com uma menor de 14 anos. Ou, estupro.

Não, a moça não era virgem, já havia experimentado álcool e drogas, foi sozinha à sessão de fotos com pleno conhecimento da mãe, e perdoou Polanski após um acordo civil em 1997, mas nada disso muda o caráter do crime.

Digamos que Polanski teve uma vida atribulada: passou a infância no Gueto de Varsóvia, e sua mãe morreu em um campo de concentração. Em 1969, no auge da fame e fortuna, sua mulher Sharon Tate, grávida de oito meses, foi brutalmente assassinada em Los Angeles por uma gangue de psicopatas enquanto ele filmava na Europa.

Há um documentário que coincidentemente recém estreou - assisti hoje - sobre o caso Polanski, chama-se "Roman Polanski: Wanted and Desired". O filme, que foi lançado antes da recente prisão na Suiça, tenta ser imparcial, embora tendendo a ser pró-Polanski, já que centra-se muito pouco no crime em si e muito mais no modo em que o juiz, aparentemente de modo irregular, teria melado de última hora um acordo entre a defesa e a promotoria.

(Hoje, nova reviravolta: um District Attorney que aparece no filme afirmou ter mentido no seu depoimento à diretora, dizendo não ser verdade uma conversa que teria influenciado o juiz. Mais lenha na fogueira.)

O mais irônico de tudo é que, se Polanski não tivesse fugido, e tivesse ficado nos EUA até o fim de seu julgamento, provavelmente teria uma sentença bem menor do que a que terá agora (caso seja extraditado). O fato é, graças ao acordo feito, a única acusação que contou no período foi a de ter relações sexuais com uma menor. As outras acusações - estupro com suministração de drogas e bebida a uma menor, perversão e sodomia - não foram nem consideradas. Hoje, provavelmente (fora sodomia, que acho que não é mais crime), ele poderia ser acusado de estupro e morrer na cadeia. E provavelmente é o que acontecerá, se a extradição ocorrer.

Bem, Polanski arriscou. Em vez de passar um par de anos de sua juventude em cana, preferiu fugir, mas agora corre o risco de passar uma melancólica velhice na prisão.

Em virtude de sua obra, tenho certa simpatia por Polanski, certamente mais do que por Michael Jackson e O. J. Simpson, dois notórios criminosos-celebridade injustamente absolvidos. Mas acredito que ele seja culpado, sim, e que é um fugitivo da Justiça, e que cometeu um crime que não pode ser menosprezado. Talvez na França ou no Brasil transar com garotinhas de treze anos não seja crime, mas nos Estados Unidos ainda é, e são bastante rígidos a respeito.

E não, não acredito que os artistas ou as celebridades devam ser isentas da obediência à lei, por mais que Hollywood diga o contrário.

Por outro lado, em um mundo em que um terrorista que matou 287 pessoas é liberado em nome de supostas "causas humanitárias", parece-me um pouco exagerada tanta sanha em perseguir Polanski 31 anos depois por um crime pelo qual a própria vítima já o perdoou. Porém, dura lex, sed lex.


Atualização: um texto bem duro contra Polanski, na geralmente-de-esquerda Salon. E uma defesa, pela autora de Gulag: A History, Anne Applebaum. E o leitor, o que pensa?