Desculpem a falta de posts recentes mas o mundo anda meio repetitivo não acham?
Mais um imigrante muçulmano atropelando pessoas supostamente em nome do ISIS, mais um, perdão, dois massacres a tiros nos EUA perpetrados por brancos armados (até eu terminar de escrever este texto talvez ocorra mais um).
Nunca entendo direito estes atentados, o que esperam ganhar? Cui bono? Ou seriam realmente ataques de "falsa bandeira" para tentar instalar um estado policial? Não sei mais.
E também dezenas de novas denúncias de assédio sexual, de Louis C. K. a Kevin Spacey, que parecem prenunciar um estranho neo-puritanismo feminista.
(É um paradoxo. Por um lado, você precisa ser ao menos um pouco sexualmente agressivo, ou que mulher dará atenção para você? Por outro lado, se falhar, a mulher (ou o gay) poderá utilizar a cantada mal-sucedida como "assédio" mesmo décadas depois e te processar. Qual a solução? Acho que só ser árabe ou ser negro, pois eles parecem estar exentos de tais regras. (Judeus também pareciam exentos, mas grande parte destes novos acusados são judeus, então, já não sei mais. É um novo e confuso mundo)).
Falando em árabes e negros e judeus, um conhecido âncora brasileiro e judeu está em maus lençóis
por ter falado que buzinar constantemente era "coisa de preto". Achei seu comentário esquisito, parece-me que a buzina impaciente é algo comum em qualquer grupo étnico ou social, mas posso estar errado. Alguns reclamam do racismo, outros do politicamente correto, mas no caso parece ter sido uma piada meio forçada mesmo.
Enfim, as coisas andam meio monótonas. então vou falar de um assunto diferente: pornografia.
O Fred Reed escreveu um curioso
artigo propondo a legalização da pornografia infantil para pedófilos, desde que feita de maneira digital (i.e. sem crianças reais).
Isto não é tão novidade quanto parece: no Japão, por exemplo, são comuns animações e mangás com conteúdo, se não pornográfico, ao menos bastante erótico, envolvendo jovens colegiais. E isto é perfeitamente legal, afinal, são apenas desenhos que "não causam mal a ninguém".
Bem, aqui eu vou ter que discordar. Meu entender no momento é que a pornografia, e não apenas aquela envolvendo crianças e adolescentes, mas todo e qualquer tipo de pornografia, é bastante nociva. Acredito que afete negativamente nossas mentes e, no caso dos adolescentes (que são naturalmente os que mais a consomem), possa mesmo chegar a causar problemas sexuais e mentais. (Recentemente uma pesquisa mostrou um
aumento nas disfunções eréteis entre jovens, relacionado com o consumo excessivo de vídeos pornôs).
É verdade que, quanto maior o nível de abstração, menor o perigo. Dessa forma, animes são menos perigosos do que vídeos com atrizes e atores (ou os ainda mais comuns vídeos amatoriais), e a arte erótica estática é menos nociva ainda.
Mas por que - ao menos no meu entender - a pornografia seria nociva?
Eu acho que é realmente por passar a nossos cérebros a uma visão deformada do mundo e da sexualidade, que afetam os neurônios de forma a gerar uma necessidade de conteúdo cada vez mais extremo. (O mesmo mecanismo que ocorre com as drogas, por sinal). E quando chegarmos daqui a pouco ao uso massivo de óculos de realidade virtual (que, convenhamos, vão ser utilizados em 95% dos casos para pornô) poderá ser ainda pior.
Sou tão velho que quando eu tinha uns doze ou treze anos a Web estava recém nascendo e não se tinha acesso tão fácil quanto hoje em dia a material pornô. O mais próximo que se poderia encontrar era alguma pornochanchada brasileira supostamente baseada em Nelson Rodrigues que passava de madrugada na Band, em que a Vera Fischer mostrava os peitos. E era bem difícil encontrar revistinhas de sacanagem. Talvez alguém conseguia uma Playboy ou uns quadrinhos do Zéfiro através de um primo ou irmão mais velho, mas não era tão fácil assim.
Isso mudou logo depois, e eu tive acesso aos mais variados tipos de pornografia através do computador. Mas nada que veio depois causou tanto impacto como a primeira revista de mulher pelada que alguém trouxe clandestinamente no colégio e que ia passando de mão em mão. (O mistério e a dificuldade podem ser uma coisa boa.)
Hoje, naturalmente, qualquer criança ou adolescente tem acesso a vídeos dos mais variados fetiches e bizarrices em seu telefone celular, tanto que até um vídeo extremamente nojento como "two girls two cups" virou meme de humor. Isto sem falar nas "novinhas que caem na Net".
Existe uma empresa canadense que hoje é a responsável pela maioria do conteúdo pornográfico no mundo. Chama-se MindGeek. O nome inocente esconde que eles são os proprietários de quase todos os famosos sites pornôs em existência, de Pornhub a Xtube.
Existem pesquisas que indicam que um adolescente hoje em dia assiste a pelo menos duas horas de pornô por dia.
Dito isso, nem acho que o consumo de pornografia seja o mais grave de tudo, mas sim o que eu chamaria de "pornificação" da cultura. Observem que hoje existem páginas da mídia social com nomes como "Food Porn", "Science Porn" ou "Word Porn", como se "porn" fosse algo até positivo. Expressões do mundo da pornografia se tornaram linguajar comum e estão presentes até em canções populares para pré-adolescentes, como as de Ariana Grande e Miley Cyrus. (A música pop de hoje em dia é quase indistinguível do pornô.)
Ser ator ou atriz pornô não é mais nenhuma exclusividade. (Aliás, a indústria pornô tradicional está em decadência, e a maioria de seus "atores" hoje precisa se dedicar à prostituição para pagar o aluguel). E afinal quem precisa de grandes produções, ou "pornô com história"? Hoje existem centenas de sites de "cam" em que jovens mulheres ou casais de namorados expõe a própria intimidade para o mundo em troca de alguns trocados. E isto não é escândalo nenhum.
Sim, de vez em quando alguma jovem tentada para este mundo em busca de fama ou dinheiro ou por vazamento de vídeo se arrepende ou até se
suicida, mas são casos raros. A maioria se exibe sem problema algum. É o novo normal.
Em breve, além da realidade virtual pornográfica, teremos também robôs sexuais bem realistas, tornando cada vez mais difusa a barreira entre a pornografia e a "vida real". É um novo e bizarro mundo este que está nascendo.
O argumento de Fred e outros é que o acesso à pornografia infantil reduziria o número de tarados interessados em colocar em prática suas taras com crianças; mas temo que isso não seja bem assim. Por que uma coisa não poderia coexistir com ou até complementar a outra? Será que a pornografia em geral diminuiu ou aumentou o número de tarados em circulação?
Temo que no futuro não só o pornô infantil será liberado, como a própria
pedofilia, bestialismo, necrofilia e por aí vai. Uma parte será apenas virtual, mas grande parte será com certeza real: torne as pessoas pobres e desesperadas, e elas venderão seus próprios filhos para poder comer. (Isto não é sequer tão novo, leiam histórias sobre a miséria do pós-guerra na Europa e os pais que vendiam as próprias filhas para os soldados "liberadores", são histórias de arrepiar).
Talvez por ter crescido em um mundo ainda diferente e, se não mais casto, ao menos não tão insano, ainda consigo ver tudo isto com certo choque; mas isto é cada vez menos comum.
É o admirável mundo novo de Huxley que a elite quer, e que você vai querer também.